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A página assombrada por fantasmas (Antônio Xerxenesky)

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Ganhei de presente, da Anica, no amigo oculto de páscoa do fórum: http://www.meiapalavra.com.br/forum.php. E foi bem legal. Tipo, na minha listinha de livros, eu coloquei “A página assombrada por fantasmas” e disse que queria MUITO ler. Anica falou que quando viu que tinha me tirado, já sabia qual presente me dar, porque  sabia que eu gostaria do livro. E gostei, mesmo. Adorei. Sabe quando você termina de ler um livro e sente vontade de sair dizendo para todos os seus amigos “você precisa ler [insira o nome do livro aqui]”? Tô me sentindo assim. E tô me sentindo meio órfã também. Tipo, em tempos normais (quando eu não estava tão atrasada com o mestrado e com o prazo quase estourando), eu leria o livro ‘de uma sentada’.

Mas nesses tempos em que não posso fazer nada a não ser ler para dissertar e dissertar, só pude ler nos “intervalos forçados”, a saber, o tempo em que eu estou no hospital, em alguma consulta, ou na fisioterapia. Enquanto aguardo para ser atendida no hospital ou espero pela hora da minha sessão de fisioterapia, leio algo NÃO direcionado ao mestrado, que tenho na bolsa. Foi assim que li “A página assombrada por fantasmas”.

A cada dia que eu conseguia um “intervalo forçado”, eu lia um conto, ou metade de um. Até gostei do método, porque eu queria me deliciar um pouco mais com cada página, sabe? Quando eu sorria, ou demonstrava emoção de alguma outra maneira, logo em seguida, eu pensava: “nunca mais vou sentir isso, porque nunca mais lerei esse conto pela primeira vez. Então, vou tentar aproveitar a sensação, porque nada mais será como ela, nunca voltarei a senti-la, nem me lembrarei que ela existiu, na verdade”.

O primeiro conto do livro já nos deixa com a pulga atrás da orelha. É impossível não sentir a aflição do protagonista. Suei com o protagonista, delirei com o protagonista, e desejei fechar o livro e retirar o protagonista do conto da minha existência. Mas minhas mãos, ao contrário da minha mente, preferiram virar as páginas, e me deixar passear por elas, junto com o protagonista. Confesso que, em determinado momento, acabei pensando: “Aimeudeusdocéu, será que já me viram me escondendo das pessoas, do mundo, da vida, atrás das páginas de um livro?”

Com o terreno previamente preparado por “O escritor no castelo alto”, o segundo conto da obra puxa o leitor para DENTRO das páginas do livro. Somos apresentados a um detetive literário. E eu aposto o dinheiro que não tenho que pessoas que amam literatura ficariam felicíssimas ao saberem o que esse detetive pesquisa. Quem nunca deu uma de stalker quando o assunto é os seus escritores preferidos, hein? Com quem o escritor dorme ou deixa de dormir não vai influenciar na qualidade da obra dele, mas saber disso é algo que todo fã julga OBRIGATÓRIO. E, confessem, vocês ficam em êxtase quando descobrem qualquer curiosidade, ínfima que seja, sobre seus escritores preferidos.

O conto “Esse maldito sotaque russo” me fez perceber que o que assombra as páginas do livro do Xerxenesky é a ficção, porque ela faz com que o absurdo seja palpável, seja aceitável, seja verossímil, seja cômico, mas não tosco. Acho que o pacto ficcional nunca me assustou tanto, e Thomas Pynchon certamente concordaria comigo. O Aviso do Xerxenesky, no fim do livro, lá na “nota do autor”, de que “todas as referências a pessoas reais são falsas” me soou tão fictício. Na verdade, o livro todo me lembrou, muito, do “A espécie fabuladora”, da Nancy Huston. É impossível ter a mesma visão que eu tinha sobre ficção depois de ter lido este livro. E confesso que, já que o assunto é ficção, que acaba me lembrando de “Ficções”, depois de ler “A página assombrada por fantasmas” (tô falando do conto, agora, não da obra), gosto mais do que gostava do Borges, embora, claro, eu ainda queira ser o Cortázar de saias.

E vocês não sabem a minha surpresa ao ler o conto que dá título ao livro, porque a personagem principal é MUITO eu, meu Deus! (não, não me considero exclusiva ou especial neste sentido, não; pessoas apaixonadas por literatura certamente olharão para a personagem principal como se estivessem olhando para um espelho) Na manhã do dia em que eu leria o conto em questão, eu brinquei, no facebook, “Borges ou Cortázar? Sua resposta para essa pergunta vai decidir se eu gosto ou não de você”. Aí, à noite, depois de sair e beber umas cervejas, eu li o conto “A página assombrada por fantasmas” e, MEU DEUS, Borges e Cortázar eram citados no conto. E, neste conto, acho que os fantasmas assumem o contorno do espelho. Mas não é um espelho no qual você vê a sua IMAGEM refletida não, sabe? É um espelho no qual você vê as suas verdades refletidas, a sua ALMA. É como se fosse uma sessão de terapia. As pessoas têm medo de terapia, se assustam com a simples menção dela justamente porque ela te coloca de frente com você. Que coisa horrível, não? Deus me livre disso! Deve ser assustador ser colocado diante de si mesmo.

“A página assombrada por fantasmas” é um dos meus três contos preferidos do livro. Os outros são: “Algum lugar no tempo” e “A morta-viva”. Também gostei muito de “Esse maldito sotaque russo”, mas ele não entra no TOP 3. Se eu tivesse de escolher o conto do qual menos gostei, eu diria que foi “Amanhã, quando acordar”. E ele não é ruim, só não é tão espetacular quanto os outros. Entendam, ele é bem escrito, tem ótimas sacadas, e chega a ser hilário ver o protagonista com medo de que sua situação fosse análoga a situação das personagens do maravilhoso “Amanhã, na batalha, pensa em mim”, do Javier Marías, etc. O conto só não exerceu, sobre mim, o fascínio que os demais exerceram.

Enquanto lia “Algum lugar no tempo”, eu cantarolava todas as músicas citadas. E isso me fez perceber que, ao contrário do que eu pensava, eu gosto tanto de Iron Maiden. Acho que eu não gosto de gostar, mas esse é um gosto que está lá, bem internalizado, na minha memória. É um conto belíssimo. Ao chegar no seu último ponto final, confesso, senti um nó na garganta. Obrigada por compartilhar com os leitores essas memórias, Xerxenesky. Obrigada, mesmo. Obrigada pelas memórias (fictamente) reais.

E o que dizer de “A morta-viva”? Depois de ler o conto, gosto, ainda mais, de El Pasado, do Alan Pauls. Fiquei meio frustrada com a adaptação cinematográfica da novela do Pauls feita pelo Hector Babenco, mas superei isso, depois de ler “A morta-viva”. O conto é tão bem elaborado, que se você prestar atenção nos detalhes, na primeira descrição de Sofía, você já consegue fazer uma leitura do que estar por vir. O narrador fala sobre Sofía e “seus cabelos desgrenhados, suas olheiras” e já nos instaura no campo de uma batalha que será travada no desenrolar da narrativa.

Não falarei sobre todos os contos, porque eu não falaria tão bem o que só eles podem dizer. Sim, eles têm uma voz esplêndida, e estão dispostos a mostrá-la para quem, quixotescamente, desejar se aventurar por suas páginas. E, ao contrário do fantasma de H. G. Wells, os fantasmas que habitam as páginas do livro de Xerxenesky não são inexperientes, pelo contrário, são tão astutos e perigosos quanto o próprio exercício do ato de viver.

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Sobre cleomachado

Eu sou a polpa deliciosíssima do nada.

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  1. Valentina! Agora entendi quando você falou que ficava enjoada de resenhas muito formais (talvez “enjoada” não seja o termo usado, mas corresponde à impressão transmitida). Não sei, as pessoas exigem certa formalidade, não daria para falar assim no Meia, por exemplo… Acho que porque de alguma maneira elas medem a capacidade do resenhista pela dimensão da gramática ou algo assim. Mas para mim, que já confio no seu julgamento, foi ótimo ler sua opinião. Mas também, se já confio no seu julgamento, não preciso de mais nada além de um “gostei muito deste livro”. ^_^

    Bem, na verdade era só para dizer que me deu muita vontade de ler o livro! Continue com o blog!

    Responder
    • Sim, Gigio. A ideia do blog é bem essa, a de falar sobre livros com a mesma facilidade com que falamos que amamos (ou odiamos, vai saber) todo mundo quando estamos bêbados. É para ser algo bem espontâneo, mesmo, sabe?

      Fico feliz que o meu textinho tenha te deixado com vontade de ler o livro. Obrigada pelo comentário bonito.

      Abraços.

      Responder
  2. Como o Gigio, gostei muito dessa resenha – a proposta do blog em si, pelo que vc falou no post inicial, já e chamou muito a atenção! Ficou tão bacana o texto, parece que vc está aqui perto de mim a falar comigo sobre o livro ^^… vou adorar ler suas próximas resenhas!

    E, ao contrário de vc, eu gosto(e muito) de gostar, sempre que começo um livro(ou dou “play” num filme, ou numa música) fico com aquele pensamento positivo de que, sim, vou adorar tudo aquilo, hehe…

    E sobre o livro em si – já estava querendo ler, e agora deu mais vontade ainda(próximo amigo secreto vai estar na minha lista – a não ser que eu mesmo compre antes XD).

    abraços!

    Responder
    • Gabriel! Que legal meus amiguinhos do Meia Palavra aparecendo por aqui. E o melhor, deixando comentários tão bonitos. Fico feliz que você tenha gostado da proposta do blog e que tenha ficado com muita vontade de ler “A página assombrada por fantasmas”. É um livro que realmente merece ser lido.

      Abraços.

      Responder
  3. Matheus Mavericco

    Deu pra perceber que a metalinguagem parece ser uma tônica bem forte do livro… Gostei do título: é um decasílabo heroico, daí o agradável de pronunciá-lo. De certo modo, todo livro, toda página é uma página assombrada por fantasmas, pois nossas vidas, e ainda mais as vidas literárias, desaparecem como ar pois feitas da matéria dos sonhos. Além, é claro, do fantasma do autor, do fantasma que às vezes sentimos quando não entendemos o que lemos, mas apenas sentimos algo que poderá um dia ser sentido por alguém no futuro e que um dia talvez foi sentido no passado, de modo que o livro, objeto da imaginação, nos impressiona e desafia ao evocar fantasmas que ainda sequer foram criados.

    Provavelmente vou poder ler o livro só ano que vem, quando, se Deus quiser, estarei resolvido com as pendências pra se entrar numa faculdade e ser feliz e comer picles. Ano que vem será meu ano dedicado à literatura contemporânea, e a metalinguagem me parece ser o campo mais badalado hoje em dia. Parabéns pela postagem e que outros venham também! Vou estar sempre passando aqui; gosto e aprecio muito suas opiniões, e gosto da forma como você fala dos livros, que é uma forma mais que apaixonada, uma forma que compactua com sua vida secreta.

    Responder
    • Mavericco! \o/

      Sim, a metalinguagem sustenta o livro, mas ela o faz de uma maneira suave, sabe? A gente sente que ela está lá, mas ela nos mostra que o importante é perceber além da presença dela, é perceber a eficiência dela, sabe?

      Achei belíssimas suas interpretações para os f”antasmas”. Aliás, acho que a ideia é bem essa, mesmo, a ideia de “fantasmas”, no plural, pode ser justamente para representar o quão multifacetados esses fantasmas podem ser.

      Obrigada pelo riquíssimo comentário. Espero que você continue, mesmo, aparecendo por aqui, Mavericco. =)

      P.S.:”e gosto da forma como você fala dos livros, que é uma forma mais que apaixonada, uma forma que compactua com sua vida secreta.” Preciso dizer que ADOREI você ter citado o “vida secreta”, que é parte de um verso de um poema que eu uso como minha descrição lá no Meia Palavra: “porque tu sabes que é de poesia minha vida secreta”.

      Responder
  4. Matheus Mavericco

    (Post duplo… Me desculpe por poluir aqui!)

    Outra coisa interessante é que o termo “assombrado” se encaixa com a metalinguagem se considerarmos que assombrado seria algo como “aquele que está debaixo da sombra”, de modo que a página, a metalinguagem e a literatura lançariam sua sombra no texto do autor e na mente do leitor, criando uma relação onde a única forma de se escapar, em tese, seria a de se falar do material que se brande: a literatura ela mesma. Mas, se os fantasmas não possuem sombras, pois eles são incorpóreos, como explicar o título? Tendo em mente o raciocínio de Hamlet sobre reis, mendigos e sombras? Ou entendendo que a página já é, por si só, assombrada, ou que a sombra que esses fantasmas lançam é visível e fatídica, mas numa realidade invisível a olho nu (a realidade da alma, da influência)?

    Ou então, “assombrado” como “aquilo que não tem sombra”, segindo uma lógica de a-sombrado, de modo que falar da metalinguagem seria o que eu disse de negar a sombra dos fantasmas?

    Quanta coisa, né não? Adorei mesmo esse título.

    Responder
    • Ei, pode fazer quantos posts quiser por aqui. Eles sempre serão bem-vindos!
      Sabe o que gostei na sua interpretação de “assombrado” como “aquele que está debaixo da sombra”? É como se os fantasmas fizessem sombra, protegessem, o mais saboroso da literatura. Para chegarmos ao prazer da literatura, deveríamos, antes, passar pelos fantasmas, enfrentá-los, derrotá-los.

      Enfim, podemos fazer uma gama de interpretações para o intrigante e magnífico título do livro do Xerxenesky, mesmo.

      Responder

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