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Pedro Páramo (Juan Rulfo)

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ImageEmbriagadamente surda de tanto ouvir silêncios gritarem. Foi assim que fiquei depois de ter lido, pela segunda vez, o romance “Pedro Páramo”, do escritor mexicano Juan Rulfo. O romance foi publicado, no Brasil, pela primeira vez, em 1997, com tradução de Eliane Zagury, pela editora Paz e Terra. Em 2011, em sua segunda edição no Brasil, “Pedro Páramo” foi publicado pela BestBolso, com tradução de Eric Nepomuceno. Há ainda, a edição da editora Record, de 2004, que publicou, em um único volume, “Chão em chamas” e “Pedro Páramo”.

Meu primeiro contato com a obra de Juan Rulfo aconteceu em 2007. Naquela época, eu estava mais encantada do que entendida sobre o Fantástico, o Realismo Mágico, e outros processos criativos surrealizantes, e devorava tudo o que encontrava a respeito.

A minha paixão pelo gênero Fantástico nasceu em 2004, quando conheci os contos de  Murilo Rubião, que viria a se tornar um dos meus contistas preferidos. Fiquei tão apaixonada pelo mundo que o escritor mineiro me apresentou, que fui logo correr atrás dos outros escritores que ajudaram a construir o mundo em questão. Foi aí que me deparei com Cortázar – que foi amor à primeira vista –, Borges, García Marquez, Bioy Casares e tantos outros.

Em 2007, quando comecei a conhecer algumas obras da literatura africana, eis que me deparei com a seguinte dedicatória, na obra “Palestra para um morto”, do moçambicano Suleiman Cassamo: “A Juan Rulfo, com quem comungo este obstinado exercício de interpelar os mortos”. Essa dedicatória foi o impulso que eu precisava para descobrir quem era Juan Rulfo. Logo soube que ele era um dos principais expoentes do Realismo mágico. Comecei a pesquisar a respeito dele e fiquei surpresa ao saber que ele tinha influenciado os escritores que eu conheci – e aprendi a amar – quando comecei a ler obras classificadas como pertencentes à literatura fantástica. Nesse ponto, me dei conta de que Juan Rulfo deveria figurar ao lado dos já tradicionais e ilustres nomes de personalidades precursoras do Fantástico, como Horácio, Quiroga, Leopoldo Lugones e Santiago Dabove.

Então descobri que o escritor mexicano era autor de dois livros, um de contos e um romance. Espantei-me por um escritor que recebia tantos elogios ter uma obra tão curta. Mas isso foi só até eu conhecer as duas obras dele. Juan Rulfo não escreveu mais porque já tinha dito – em “Chão em Chamas” e, especialmente, em “Pedro Páramo” – tudo o que realmente importava dizer.

Ele tinha lançado a pedra inicial de uma técnica narrativa que floresceria muito. E ainda floresce. A respeito das pedras, o enredo de “Pedro Páramo” gira em torno delas. Porque, sim, o personagem que dá nome ao romance é um amontoado de pedras, de rancores, e de tantos outros sentimentos que vão sendo sentidos pelo leitor durante a leitura do romance.

O livro começa com o narrador principal, Juan Preciado, justificando o porquê de ter ido à Comala: “Vim à Comala porque me disseram que aqui vivia  meu pai, um tal de Pedro Páramo”. No leito de morte de sua mãe, ele prometera-lhe que iria a sua terra natal. Ela dissera-lhe para cobrar do seu pai o que ele lhes devia, o preço por ter-lhes abandonado. Além disso, ela disse-lhe que lá, em Comala, ele estaria mais perto dela.

No início do romance, já podemos sentir  a forte presença de um tom memorialístico. Mas as memórias que vamos visualizando, ao longo de “Pedro Páramo”, não são, necessariamente, as memórias do narrador principal, nem as memórias do personagem que dá nome ao livro, são as memórias de uma terra devastada (a referência ao poema de T. S. Eliot é válida, uma vez que ele foi, claramente, uma das inspirações de Juan Rulfo para a construção do seu romance), e das pessoas que tiveram suas vidas e suas almas devastadas junto com a terra. A vida dessas pessoas e a morte, talvez, liga-se diretamente a vida de Pedro Páramo, o que poderia justificar, em uma análise mais aprofundada, o fato de esta obra poder ser classificada como Novela. Entretanto, não me demorarei na discussão sobre o gênero de “Pedro Páramo” por acreditar que mais importante do que tal discussão seja passear por algumas das peripécias narrativas do escritor mexicano.

Essas memórias são narradas pelos próprios habitantes de Comala. Juan Preciado é o narrador principal por agenciar as outras vozes que perpassam o romance, uma vez que o foco narrativo oscila entre a primeira e a terceira pessoas. Em alguns momentos, temos Juan Preciado narrando, e, em outros, temos o fluxo de memória de alguma outra personagem. Não se pode falar, em “Pedro Páramo”, da predominância de um narrador sobre outros. As vozes são entrecortadamente ligadas. Assim, quando estamos vidrados na história de algum morador de Comala, a narrativa é suspensa, e entra outra história.

O romance de Juan Rulfo não tem capítulos demarcados numericamente ou por meio de títulos. O que temos são fragmentos dispersos, ao longo das páginas, assim como as personagens da obra estão dispersas por Comala. E vamos esbarrando nesses fragmentos, na medida em que a leitura prossegue. Assim como Juan Preciado vai esbarrando com essas personagens enquanto caminha pelas ruas de Comala. E ele esbarra, também, com o susto de ir percebendo que quase todas as pessoas que ele encontra, estão mortas. Inicialmente, nem mesmo essas pessoas parecem estar cientes de sua condição, entretanto, depois de algum tempo, algumas delas vão se conscientizando disso, o que faz com que Juan Preciado comece a surtar, comece a ter dificuldade para raciocinar.

A explicação para essas pessoas continuarem no mundo dos vivos quando estão mortas, resume-se, basicamente, ao fato de elas não terem podido trilhar o caminho dos céus. O paraíso, conforme a obra, parece assumir os contornos do paraíso da “Divina Comédia”. E, aí, entra uma personagem dúbia e essencial para a constituição do romance: o padre Renteria. Por vezes, ele se negava a absolver os pecados de quem se confessava, por acreditar que o que eles haviam feito, era imperdoável. Outras vezes, ele abençoava pessoas pelos bens que elas ofertavam à igreja.

É interessante ressaltar que a justificativa para tais pessoas continuarem a vagar por Comala, mesmo depois de mortas, ganha contornos reais por se basear em uma crença vigente desde a idade média, a de céu, inferno, purgatório, entre outros. Esse caráter de uma explicação divina é que nos permite classificar tal obra como pertencente ao Realismo mágico, no qual, conforme o professor Audemaro Goulart o “inverossímil se submete aos princípios das convenções e da mentalidade comunitária”.

Assim, em uma obra que rompe com a narrativa linear, Juan Rulfo nos oferece um romance que consegue ser, ao mesmo tempo, politizado – sem cair em uma escrita panfletária – e estilisticamente rico. Nessa perspectiva, “como se procurando o avesso das pessoas”, o escritor mexicano procura, também, o avesso da literatura, o que fascina quem se aventura pelas páginas de “Pedro Páramo”, um dos mais memoráveis romances do século XX. Dizer mais do que isso sobre essa obra, seria sabotar a experiência de leitura de quem ainda não começou a jornada pelas páginas desse romance.

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Sobre cleomachado

Eu sou a polpa deliciosíssima do nada.

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  1. Mario Henrique

    “…Embriagadamente surda de tanto ouvir silêncios gritarem. Foi assim que fiquei depois de ter lido, pela segunda vez, o romance “Pedro Páramo”, do escritor mexicano Juan Rulfo…”

    Queria saber escrever tão bem assim, garota.
    Belo texto Cleonice.
    Despertou meu interesse pela obra.

    Responder
  2. Quando vi que você disse no meia que falaria sobre esse livro, eu, que não o conhecia, comecei a procurar sobre. Logo me interessei pelo enredo. E agora com todas essas qualidades que apontou, realmente me fez querer tê-lo aqui para conferir!
    Abraços!

    Responder
  3. Realmente voce conseguiu falar bastante e não dizer quase nada da historia em si, deixando a gente com mais curiosidade de ler do que se tivesse citado algo mais 😛

    Desculpa o ignorante aqui(talvez leigo seja o termo mais correto, mas ignorante causa mais impacto), mas não sei exatamente o que seria literatura fantástica… se importa em explicar? ^^’

    De qualquer forma, o livro entrou pra minha (infelizmente imensa) lista de livros pra ler.

    Responder
    • Ei, seu moço, não tenho problema em explicar o que seja a literatura fantástica, não. Todos que começam a estudá-la, costumam começar pelo clássico livro do Todorov chamado “Introdução à literatura fantástica”. É o seguinte, o termo literatura fantástica costuma ser abrangente, para determinar uma espécie de literatura que se distancia de um realismo exacerbado, ela é pautada no sobrenatural e no insólito, mas como o sobrenatural se manifesta, na escrita literária, define a sua classificação.

      Temos as subdivisões: Realismo Mágico, Maravilhoso e Fantástico. O Maravilhoso é a mola do que conhecemos como literatura clássica, por exemplo. Ele se caracterizava, primordialmente, pelo fato de haver intervenção divina na obra. Em Ilíada e Odisseia, por exemplo, percebemos a interferência dos deuses na guerra de Tróia, e na “viagem” de Odisseu (que era queridinho da deusa Atena). O Maravilhoso é, também, o que encontramos nos contos de fadas. Há a instituição de um mundo no qual a magia é algo justificável coletivamente.

      O Realismo mágico, para alguns teóricos, é praticamente o maravilhoso. Na verdade, alguns teóricos defendem que chamar de Realismo Maravilhoso ou Realismo Mágico seja uma questão de nomenclatura. Embora tenha alguns que defendam que há diferença entre eles,inclusive a Irlemar Chiampi, que tem um excelente livro intitulado O realismo maravilhoso.

      Só reforçando, o Realismo mágico (que eu estou assumindo como o Maravilhoso) se dá pelo fato de, nele, o sobrenatural encontrar uma explicação no próprio âmbito comunitário. Na obra “O reino deste mundo”, do Alejo Carpentier, por exemplo, o sobrenatural é justificável pelo fato de a cultura haitiana acreditar no vodu. Então, essa crença sustenta os eventos racionalmente inexplicáveis que acontecem no livro.

      Já o Fantástico se dá pelo seguinte: ele é o reino do absurdo, mas do absurdo não justificável. Há, no fantástico, a convivência entre elementos reais e sobrenaturais sem que haja um estranhamento, nem uma explicação advinda do inconsciente coletivo. No conto “os dragões” de Murilo Rubião, por exemplo, temos, logo de início, o absurdo reinando, mas como se fosse algo perfeitamente normal. Começa com o narrador falando sobre o fato de que os primeiros dragões que apareçam na cidade, sofreram com o processo de ensino atrasado. Ora essa, dragões e processo pedagógico na mesma frase? Pois é, o fantástico faz isso.

      Será que consegui esclarecer, um pouco, a sua dúvida?

      Responder
      • Há também um outro aspecto importante, no que tange especificamente à palavra realismo. A realidade é tão absurda na América Latina, com suas contradições, suas diferenças sociais, a exploração das massas, suas inumanidades, o caldeirão de raças e culturas que se mesclam e se chocam, que existe uma evasão para o místico buscando entender o real. Os poetas (lato sensu) passam a ver a realidade como real absurdo e sempre com um viés de crítica social. Dá para entender?
        É, o livro é fabuloso!

      • Sim, Olga, o seu comentário é extremamente pertinente. Obrigada pela visita, e, claro, pelo comentário.

  4. Li o texto hoje de manhã e acabei de chegar da livraria com um exemplar do livro em mãos.
    Ótimo texto mesmo, parabéns.

    Responder
  5. Ernando Santos de Jesus

    Bueno, yo soy estudiante de licenciatura en las lenguas Portuguesa y Española. Estoy muy encantado con la maravillosa esplanación que hizo referente la distinción entre literatura fantástica, maravillosa y mágica. Pues usted tuve una sinplicidad en la explicación que ahora se hace bien comprencible para mi entendimiento en relación las destintas diferenciaciones entre las literaturas, que es una tendencia inovadora. Muchas gracias, ahora voy a tener una mejor leictura del romance, pues en la primeira no tuve muy entendimiento en general.

    Responder

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