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A zona do desconforto (Jonathan Franzen)

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ImageAber diesmal werde ich geschrieben werden (dessa vez, porém, eu vou ser escrito). Com essa frase, de Os cadernos de Malte, de Rilke – obra que tem um tom autobiográfico –, citada no quinto capítulo do livro de Jonathan Franzen, podemos sentir a tônica da escrita franzeniana em A zona do desconforto. Não se trata de um mero relato autobiográfico. Trata-se não de escrever sobre si, mas de se inscrever no texto, de ser, ao mesmo tempo, a caneta e a história escrita por ela. Se Franzen não assumisse, logo no subtítulo do livro, que se trata de “Uma história pessoal”, a obra passaria, sem grandes problemas, por um compêndio de relatos de pessoas anônimas nos quais todos os leitores acabariam por se reconhecerem.

Em 231 páginas, divididas em seis capítulos que são, de certa forma, independentes, mas que  formam um texto coeso entre si, Jonathan Franzen faz um relato que se situa entre a autobiografia e a ficção, no qual tece considerações sobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta. Paralelamente aos relatos sobre as fases da sua vida, Franzen  compartilha conosco sua visão sobre assuntos como: política, religião, literatura, família, meio ambiente, casamento, dentre outros. Para trilhar, na escrita, esse percurso, o autor se vale de duas poderosas aliadas que sustentam o seu estilo narrativo: a ironia e uma dose precisa de humor.

No primeiro capítulo, “Casa à venda”, temos o protagonista organizando a casa de sua falecida mãe para ser vendida. Diferentemente da ideia que costumamos ter de casa, que seria a nossa zona de conforto – o nosso lugar seguro no mundo, que remonta a proteção que tínhamos no útero de nossas mães – as lembranças que ela desencadeia para Franzen não são felizes, são as lembranças de uma infância na qual ele “vivia encasulado dentro de casulos que, por sua vez, viviam encasulados” (p. 21). Sua mãe era obcecada com aparências e com dinheiro, seu pai parecia alérgico a diversão, e ele não queria as mesmas coisas que os seus progenitores, não compartilhava das crenças deles, não dava valor as mesmas coisas que eles. Assim, estavam “todos igualmente infelizes naquele carrossel, e éramos todos igualmente incapazes de explicar o que acontecera conosco” (p. 35).

O capítulo seguinte, “Dois pôneis” destaca-se por um forte tom ensaístico. Ao tomar como fio condutor do capítulo uma consistente e comovente análise de Peanuts, de Charles M. Schulz, Franzen acaba por fazer uma espécie de autoanálise. Além disso, a leitura do autor para Peanuts demonstra que essas tirinhas cumpriam uma função interessante, a de serem um ponto de sutura entre realidades em conflito: “os hippies e os astronautas, os jovens rejeitadores e os adultos rejeitados, punham-se todos de acordo no caso de Peanuts”(p. 42). Destaca-se, ainda, no capítulo, a identificação de Jonathan Franzen com Snoopy. “Numa tira de quadrinhos cheia de crianças, o cachorro era o personagem que eu reconhecia como criança” (p. 38). O autor conclui o capítulo de forma magistral, ao dizer algo que talvez seja o motivo pelo qual gostamos tanto de Peanuts: “eu queria viver num mundo de Peanuts, onde a raiva fosse engraçada e a insegurança, adorável” (p. 62).

O terceiro capítulo de A zona do desconforto, intitulado “E então chega a alegria”, é marcado pelos relatos de Franzen referentes a sua experiência na Irmandade da Primeira Igreja Congregacional, uma espécie de Grupo de Jovens Cristão. Não se trata de um relato pautado pela “santidade”; pelo contrário, Franzen não deixa de fora do capítulo os pontos mais polêmicos para o âmbito cristão, como sexo, drogas, entre outros. Entretanto, tais acontecimentos não se referem a ele, que era um tanto quanto antissocial naquela época. O capítulo é bem escrito, embora não tão empolgante quanto o anterior.

No quarto capítulo, “Localização central”, Franzen faz um retrato da sua vida escolar, ressaltando algumas peraltices, dentre elas, a da construção de uma engenhoca que ele e alguns amigos criaram para colocarem um pneu em um mastro. A engenhoca não funcionou, e eles quase ficaram em apuros, mas isso não impediu que fizessem outras travessuras. Neste capítulo, Franzen relata, também, as suas primeiras experiências amorosas. Ao falar sobre a primeira namorada, ele destaca que o relacionamento não durou muito porque, ao se dar conta das tendências obsessivas dele, ela acabou se empenhando em outras amizades. Então ele, “perplexo e magoado” (p. 109), acabou renunciando ao que sentia.

Outro ponto interessante que o quarto capítulo de A zona do desconforto aborda é o de como, enfeitiçado por Robert Pirsig e Wallace Stevens, Franzen começou a escrever poesia. Nessa mesma época, frustrado com as complicações da vida amorosa, ele decidiu: “a relação autêntica que eu queria agora era com a palavra escrita” (p. 128).

O capítulo “A língua estrangeira” retoma o tom ensaístico que caracterizou o segundo capítulo e, por isso, talvez seja um dos melhores do livro. Neste capítulo, Franzen relata que a primeira carreira que pretendia seguir era a de inventor. Seus pais gostavam da ideia, pois pensavam que ele se tornaria um cientista. No fim das contas, ele acabou se tornando um inventor cujas criações advêm das palavras.

Este capítulo se desenrola a partir da dinâmica entre Franzen e a língua alemã. Ele faz um histórico sobre como a referida língua entrou em sua vida, passando, dentre outros aspectos, pelo contato que estabeleceu com a obra de alguns escritores – literatos, ensaístas e filósofos – a saber: Goethe, Nietzsche, Schnitzler, Karl Kraus, Robert Walser, Kafka e Thomas Mann. O escritor ressalta a importância da sua imersão na literatura por ela, finalmente, ajudá-lo a compreender a sua existência e a das pessoas que o cercavam: “pela primeira vez na vida, eu começava a ver as pessoas da minha família como gente de verdade, e não apenas parentes, porque vinha lendo literatura alemã e estava eu próprio me transformando numa pessoa” (p. 173).

No sexto e último capítulo de A zona do desconforto, intitulado “O meu problema com as aves”, Franzen fala sobre uma de suas facetas mais conhecidas: a de apreciador de aves. E ele o faz intercalando a sua relação com as aves com casamento, preocupação com o futuro das aves diante do desmatamento, entre outros. Ele tece o capítulo migrando de assuntos densos, representados pelos dinossauros, para assuntos leves, representados pela figura das aves.

Em suma, o livro não versa apenas sobre o desconforto de Jonathan Franzen diante da vida, dos seres humanos, e das relações familiares. O livro versa sobre temas que deixam o leitor em uma zona de desconforto porque, em um momento ou outro, ele acaba por se identificar com alguns dos momentos de hesitação por que passa o escritor. Desconforto que cerceia o leitor desde a capa da edição brasileira do livro, publicado pela editora Companhia das Letras – em 2008 –, na qual o leitor identifica, em um primeiro momento, a ilustração de patinhos de borracha, mas, posteriormente, acaba se perguntando se não se trata de alguma ave em extinção. Mas é um desconforto prazeroso, pois uma das habilidades do escritor Jonathan Franzen é a de, em seus textos, abordar coisas grandiosas e complexas com a sutileza do pouso de uma ave.

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