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Arquivo do mês: abril 2013

Nashville

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nashville-serie-official-poster-30julho2012Tenho uma certa dificuldade em estabelecer uma conexão forte com as pessoas sem conhecê-las bem. Preciso conhecê-las para amá-las. Processo semelhante, mas não tão importante, acontece no que tange às séries de  televisão. Preciso que elas me mostrem um motivo para amá-las, um motivo para eu saber que elas são importantes para mim. E o motivo pode ser desde uma citação de um livro que gosto até o ativismo de algum personagem.

Quando vi a chamada de Nashville, no canal Sony, confesso que o meu interesse inicial em acompanhar a série foi fruto da minha paixão pela música Country. As protagonistas, por meio da edição da chamada, pareciam um tanto quanto esvaziadas, superficiais. Decidi que veria o piloto da série por causa do amor que tenho pela música. Queria ver, mesmo que só pela tv, a Music City. Eu não perderia a chance de ver o lendário Ryman Auditorium.  Mas eu também queria ver a arquitetura clássica de Nashville.

O piloto de Nashville é bem simples e nos mostra, sem rodeios, a premissa da série.  Rayna James (Connie Britton, de American Horror Story) é uma lenda viva do Country. Mas depois de vinte anos de sucesso, a carreira da cantora começa a declinar. Ela ainda é respeitada, adorada, mas não enche mais shows como antes. Não emplaca sucessos nas paradas musicais como fizera outrora. Paralelamente à crise da carreira, Rayna tem de lidar com o seu casamento com Teddy Conrad (Eric Close) e com a criação das duas filhas.

O casamento dos dois parecia ser perfeito. Rayna tinha sua carreira, suas turnês, enfim, a fama. Era uma boa mãe e estava presente Nasvhille-Queen-of-Countrysempre que podia. E Teddy era um pai adorável. Mas o pai de Rayna, Lamar Wyatt (Powers Boothe), com quem ela sempre tivera um relacionamento dificílimo, de posse do poder que tinha na cidade, acabou escolhendo o genro Teddy como seu candidato a prefeito para enfrentar Coleman Carlisle (Robert Wisdom). Tal decisão, além de irritar Rayna, que já havia prometido apoio ao candidato Coleman, acabou por abrir novas feridas no âmbito familiar da cantora Country.

A partir do anúncio das duas candidaturas, começa-se a desenterrar quaisquer detalhes sobre a vida dos candidatos, o que pode fazer com que coisas que aparentemente eram sólidas, como o casamento de Teddy e Rayna, acabem desmoronando. E, aqui, acho que a série  ganha um ponto com o telespectador. Não vemos um processo eleitoral sujo apenas por parte de quem se esperaria,  Teddy (que funciona, de certo modo, como marionete do sogro, que é um poderosíssimo político), mas também do candidato que, inicialmente, tem a simpatia de todos, Coleman Carlisle. Acho interessante que a série não se agarre em estereótipos que sugerem que, em uma disputa política, temos um vilão e um mocinho. Antes, ela procura relativizar as coisas, procura mostrar que os jogos de poder envolvendo o processo político são mais complexos do que se pode imaginar.

Nashville1Ao mesmo tempo em que a carreira de Rayna James sofre um declínio, a de Juliette Barnes (Hayden Panettiere, de Heroes) está em plena ascensão. O público da jovem cantora de música Country é composto, majoritariamente, por adolescentes, o que acaba por colocar em cheque o seu talento, uma vez que ela pode ser apenas o fruto do delírio de uma febre adolescente. Para provar que a sua carreira não será meteórica, Juliette Barnes faz o que for possível, até mesmo tentar esconder a sua origem pobre e ignorar a existência da mãe, dependente química, que já fez com que a cantora passasse por situações um tanto quanto ruins. Inicialmente, pode-se pensar que Juliette seja uma insensível, por tratar a mãe de maneira tão rude. Entretanto, no decorrer dos episódios, a personagem vai sendo apresentada com toda a sua complexidade e descobrimos que a maneira com a qual ela trata a mãe e as outras pessoas é o reflexo da maneira cruel com que ela foi tratada pelo mundo. A aparente falta de educação de Juliette é um mecanismo de defesa. Ela procura manter as pessoas afastadas, porque quando elas estiveram próximas, a feriram muito.

Rayna e Juliette têm uma relação ruim. Apesar de serem artistas da mesma gravadora, elas não se entendem e, sempre que se encontram, têm a certeza de que devem ficar o mais longe possível uma da outra. Entre as duas, está o talentosíssimo guitarrista Deacon Clayborne (Charles Esten), tio de Scarlett O’Connor (Clare Bowen). Junto com  Gunnar Scott (Sam Palladio), Scarlett acaba se tornando uma importante compositora.

Deacon foi o grande amor de Rayna. E Rayna ainda é o grande amor de Deacon. E os atores que interpretam esses personagens têm CHARLES ESTENuma química incrível. Antes mesmo que fosse pronunciada qualquer coisa sobre o passado dos dois, eu percebi que havia algo mais do que uma relação entre cantora e musicista entre eles. No início da carreira de Rayna, ela e Deacon formavam um casal invejável. Estavam apaixonados pela música e um pelo outro. E, disso, surgiram belas canções. Entretanto, Deacon acabou se envolvendo com drogas e, depois de um acontecimento que quase lhe custou a vida, foi para a reabilitação. Rayna decidiu seguir a vida. Conheceu e se casou com Teddy. Teve duas filhas. E ainda tinha um grande apreço por Deacon. Os dois se diziam amigos. Mas a química entre eles sempre sugeriu algo mais.

Mesmo com todo o seu talento, Deacon nunca tentou carreira solo. Ele acabou escolhendo ficar ao lado de Rayna, no palco. Não dá para dizer que foi uma escolha completamente acertada, entretanto, quando vemos os dois personagens juntos, conseguimos compreender que alguma coisa, muito forte, existe entre eles. Coisa que ganha belos acordes no segundo episódio da série, quando Rayna e Deacon, com uma química inquestionável, cantam a belíssima No One Will Ever Love You:

Além do roteiro redondinho, o figurino perfeito, a trilha sonora precisa, os cenários lindos e toda química entre os personagens, Nashville ganhou muitos pontos comigo por algumas de suas personagens terem uma pegada feminista. Rayna escolheu sua carreira de cantora mesmo contra a vontade do  pai, um político muito influente que (quase) sempre conseguia o que queria. Rayna escolheu ser cantora, mãe, esposa, enfim, ela tomou as rédeas de sua vida. E, mesmo que tenha nascido em uma família de classe alta, não abriu mão da sua autonomia na hora de escolher os caminhos por que trilhar.

Juliette, que não pôde usufruir da mesma sorte de Rayna, teve de conviver com as dificuldades que a pobreza lhe impôs desde bem nova. Como não podia contar com a mãe para lhe sustentar, quando garota, ela acabava por ter de roubar para conseguir se alimentar. Depois de adulta, por mais moralmente questionáveis que possam ser suas ações, Juliette faz as suas próprias escolhas. A cantora não abre mão da sua autonomia, porque foi por causa dela que ela conseguiu o sucesso na vida artística.

Outra personagem de Nashville que se destaca pela sua força, é Scarlett O’Connor. Ela foi para Nashville viver com o namorado, que, desde novo, tentava o sucesso com uma banda. Ao chegar lá, a moça foi trabalhar como garçonete, e sempre apoiava o namorado. Contudo, ela não recebia o mesmo apoio por parte dele. Quando conseguiu um contrato de compositora, ela viu o quão egoísta o namorado era e, depois de alguns episódios lamentáveis protagonizados por ele, ela acabou por abandoná-lo. Por ser tanto física quanto psicologicamente sensível, a personagem pode passar uma impressão de fraqueza. Entretanto, sensibilidade não é sinônimo de fragilidade. Scarlett não é frágil, ela é forte, admirável e, o mais importante, faz as suas próprias escolhas.

Em síntese, Nashville é uma série um tanto quanto promissora. Espero que ela mantenha o bom ritmo dos primeiros oito episódios e consiga se firmar a ponto de garantir uma segunda temporada, porque seus personagens, a música Country, e os fãs da série merecem que o show continue.

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Freud, me tira dessa! (Laura Conrado)

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Freud-me-tira-dessaQuando comentei com a Laura Conrado que estava lendo “Freud, me tira dessa!”, ela ficou feliz e apreensiva. Ela logo me disse: “você é exigente”. Na hora, achei graça, porque, certamente, ela estava se referindo, inconscientemente, ao período no qual trabalhamos juntas. Naquela época, ela criava os textos e eu tinha a ingrata função de revisá-los. Não que eu tivesse muita coisa para corrigir, porque ela realmente tem uma intimidade muito grande com as palavras, mas sempre deixamos passar alguma coisa, não é?

Nunca fui uma leitora de Chick-Lit. Não por preconceito ou algo do tipo, a questão é que, talvez, nunca tenha chegado um Chick-Lit às minhas mãos quando eu estava procurando, avidamente, por um livro. Como, então, cheguei a “Freud, me tira dessa!”? Primeiramente, porque sou amiga da autora, e queria conhecer sua escrita literária; a jornalística, eu já tive o prazer de conhecer e de aprovar, mas a literária ainda era uma incógnita para mim. E outra coisa que fez com que eu me interessasse pelo livro foi o título. Gosto muito de Psicanálise, não como uma estudiosa, mas como uma curiosa. Leio artigos, livros e vejo palestras referentes à Psicanálise. Então, um livro chamado “Freud, me tira dessa”, chamou a minha atenção quase que imediatamente. Quando li o referido livro, ele ainda não tinha vencido o prêmio de melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Laurinha, toda animada, com o merecido prêmio de Melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Laurinha, toda animada, com o merecido prêmio de Melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Antes de começar a falar do enredo do livro, vou ser um pouquinho “exigente”, mas isso é só para que eu fique com a minha consciência tranquila. Deixe-me explicar melhor. Eu realmente acredito que deslizes ortográficos não comprometam a qualidade de uma obra, mas deixar de apontar a existência deles compromete a minha posição como resenhista. São coisas simples, como, por exemplo, a repetição de algumas palavras, que podem ser facilmente corrigidas pela responsável editorial em uma próxima edição do romance.

Agora, vamos ao que realmente interessa. No começo da leitura de “Freud, me tira dessa!”, já me identifiquei com a protagonista, Catarina, porque ela foi apresentada com toda a complexidade que é característica intrínseca aos seres humanos. O livro, que é narrado em primeira pessoa, começa com a protagonista “levando um fora” de um colega de trabalho com quem estava saindo. Ela teve de ouvir aquela velha história que tem, mais ou menos, o mesmo núcleo: “você é legal, é divertida, é uma excelente amiga, mas…”.

Catarina tem uma personalidade forte, e uma impulsividade que deixaria a pessoa mais impulsiva do mundo intrigada. Mas Catarina tem, antes de tudo, uma imensa dificuldade de gerenciar as suas emoções, o que acaba fazendo com que ela acredite que esteja destinada ao fracasso amoroso.

Catarina estava tão fragilizada emocionalmente que se poderia computar a quantidade de vezes que ela explodia, durante o dia. Depois do rompimento relatado no início do livro, ela foi a Divinópolis, visitar a família e tentar se recuperar do fato de, mais uma vez, sentir-se frustrada com a vida amorosa. Chegando lá, ela acabou se desentendendo com a irmã. Foi então que, ao conversar com uma prima, sentiu vontade de fazer psicoterapia.

Este coração já passou do prazo de validade, por isso, só gosto de cara errado.

Este coração já passou do prazo de validade, por isso, só gosto de cara errado.

Decidida a não amolar os amigos com o que chamava de “solteirice”, Catarina decidiu procurar ajuda profissional para lidar com a sua dificuldade em manter um relacionamento saudável. De maneira bem-humorada, ela dizia que “queria desativar o botão que repelia bons partidos e relações maduras. Sabia que tinha esse botão na cabeça.” (p.31) Por mais que se esforçasse para ter um relacionamento duradouro, Catarina sentia que sempre que permitia que os outros a conhecessem um pouco mais, acabava ficando sozinha e completamente exposta.

O enredo do livro se desenvolve a partir das sessões de psicoterapia às quais Catarina se submete, mas não fica apenas nisso. As sessões dividem o cenário narrativo com o ambiente de trabalho de Catarina e os locais de lazer que ela frequenta. A partir do processo de conhecimento de si que a Catarina passa, os leitores são apresentados à sua família, seus amigos, seu local de trabalho, entre outros.

E, à medida que Catarina começa a conseguir se enxergar, se conhecer, ela para de ser o seu próprio veneno e começa a ser a sua cura. O conhecer-se é o melhor caminho para se curar. Assim, mais do que torcer para que a Cat ficasse com o seu psicanalista, por quem havia se apaixonado durante as sessões de psicoterapia, eu confesso que torcia para que ela aprendesse a se relacionar consigo para compreender o modo como se relacionava com os outros.

Eu torcia para que Catarina percebesse que se relacionar é ficar exposto, deixar que os outros nos vejam como somos, e, quando eles não gostarem do que virem, sabermos lidar com isso da maneira mais digna possível. Mesmo que essa maneira seja, durante um dia, comer uma panela de brigadeiro e ouvir músicas depressivas e, no dia seguinte, seguir em frente.

Apesar de ter uma pegada existencial, o livro de Laura Conrado não é complicado. A autora adota o uso de uma linguagem simples e a tempera com uma pitada de humor que faz com que as complexidades do processo de cura pela fala não sejam vistas como fardos, mas sim como construtivas.

As estratégias narrativas de “Freud, me tira dessa!” contribuem para que, às vezes, pensemos que estamos lendo não um livro, mas o diário da Catarina. A escritora consegue imprimir um tom intimista ao texto de tal forma que o concomitantemente ao processo psicoterápico de Catarina, o leitor passa por uma autoanálise. Por se identificar com diversos aspectos da vida da protagonista, o leitor, ao mesmo tempo em que torce para que ela se cure, almeja, ardentemente, que quando o livro terminar, ele também encontre ferramentas para se curar. E anseia, então, que Freud o tire dessa!

Feminismo legendado

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Sou feminista. Já disse isso, inúmeras vezes, para meus familiares, meus amigos, e para quem mais eu encontro pelos caminhos que tenho percorrido. Acho importante me assumir como feminista, e faço isso sempre. E também acho importante contribuir para que outras pessoas percam o medo de se assumirem como feministas e, para isso, é imprescindível que elas saibam um pouco mais sobre o Feminismo.

O nome deste blog, “Livros Legendados”, poderia ser resumido, de maneira simplista, como uma tentativa de explicar os livros que leio. Mas, como já anunciei, no post inicial, o meu intuito não é o de explicar os livros que leio, mas de falar sobre as impressões que tive a partir da leitura dos referidos livros. A legenda, aqui, não está na função de traduzir uma língua, mas de traduzir impressões. A partir do meu lugar de fala (mulher, feminista, apaixonada por literatura, professora, entre outros), eu proponho uma interpretação para os livros que leio.

Na esteira do que faço com os livros, neste post quero sugerir interpretações, ou melhor, expor as minhas impressões, sobre alguns pontos do Feminismo. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, nem de fazer uma tese sobre cada um dos pontos abordados. (Aliás, peço desculpas, de antemão, para o caso de algumas explicações parecerem um pouco simplistas. Se for o caso, posso indicar, nos comentários, livros que sejam mais específicos e direcionados aos temas aqui abordados.) O que pretendo é compartilhar com as pessoas algumas coisas que me fizeram enxergar o movimento feminista como um importante aparato de reflexão sobre os males que o sexismo instaura no mundo. Além disso, quero pontuar que mais do que nos levar a refletir sobre o sexismo, o Feminismo nos ajuda a combatê-lo.

Quero começar dizendo que estou cansada. Estou tão cansada de falar a mesma coisa durante todos os dias da minha vida, que se não acreditasse que o Feminismo fosse uma importante ferramenta para a construção de caminhos mais aceitáveis, eu largaria os béts. Sou uma feminista cansada. Cansada de tentar explicar, em todos os ambientes (“reais” e virtuais; o dualismo é simplista, mas vocês entenderam a ideia) que, não, nós, feministas, não padecemos de um mal que nos tira o senso de humor. Nós escolhemos não usar o senso de humor para validar preconceitos.

A incompreensão é tão grande que eu, com a minha mente de professora, chego a pensar que a minha didática seja péssima. E isso me deixa absurdamente deprimida. Então, eu começo a refletir melhor, e mando o ego ficar sossegado, porque a coisa é bem maior do que ele. O problema não é comigo, é algo muito maior, que independe de mim para existir. A incompreensão sobre os pressupostos feministas é o reflexo de uma incompreensão internalizada por meio da insistência do patriarcado de criar pessoas com a visão viciada.

As pessoas estão tão viciadas em ver as coisas de um jeito limitado, que quando são convidadas a terem a visão ampliada, acham que, na verdade, o convite é uma forma que os outros encontraram para cegá-las. Então, como sintoma da neurose, começam a surgir as mais errôneas interpretações. Por exemplo, uma pessoa diz que feministas não gostam de homens. E fica irritadíssima com esses “seres” por eles odiarem uma exímia evidência do processo evolutivo.

Aí aparece uma Feminista paciente e explica que a pessoa está confundindo Feminismo com misandria. O Feminismo não incita o ódio aos homens, a misandria, sim. Além disso, a feminista paciente diz que a misandria não é um movimento organizado, sistemático, ela se manifesta individualmente, mas não coletivamente. Então, quando a Feminista paciente pensa que conseguiu se fazer entender, aparece alguém para dizer que se nós somos feministas, ele pode ser machista. E que, além disso, ele vê muita mulher machista por aí. Aí a Feminista paciente tem de explicar que Feminismo não é o feminino de machismo, e que os termos não são semanticamente equivalentes.

Ela explica, detalhadamente, que o Feminismo se contrapõe ao machismo, sim, mas não tem o intuito de propor uma inversão de papéis. O machismo sustenta a ideia de que o homem seja superior a mulher, e que ela deve se submeter a ele. E o Feminismo postula que homens e mulheres são (deveriam ser) seres humanos dotados de autonomia e não precisam se submeter uns aos outros. E que a existência de mulheres machistas é uma consequência do machismo, e não a causa dele. Ela ainda cita a bell hooks, teórica feminista negra que consegue ser, ao mesmo tempo, apaixonada pela causa feminista (entre outras causas) e extremamente didática. A Feminista paciente diz que no livro “Feminism is for everybody”, bell hooks ressalta que: “o feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, com a exploração sexista e com a opressão”.

A pessoa coloca a mão no queixo e diz que acha que o nome Feminismo deponha contra a causa. E começa a elencar teorias sobre a etimologia da palavra Feminismo para provar o seu ponto de que o nome prega, sim, a superioridade da mulher porque só diz respeito às fêmeas.

A Feminista paciente, de forma cautelosa, começa a falar para a pessoa sobre o contexto do surgimento do Feminismo. Naquela época (como na atual, né?), as mulheres precisavam de um termo que demonstrasse a seguinte afirmação: “somos mulheres, e embora vocês queiram que anulemos nossa individualidade para privilegiarmos os homens, fazemos questão de dizer que não, não somos a sombra de vocês, somos seres de carne e osso, e temos autonomia”. A Feminista paciente ainda diz que, além disso, a insatisfação de uma pessoa com uma palavra não pode apagar todas as coisas boas que o movimento por ela nomeado conquistou. Ela aponta para o fato de que tal incômodo com a palavra Feminismo, mesmo que de maneira inconsciente, acaba por evidenciar um pensamento machista, porque o questionamento passa a ideia de que um movimento que prega a igualdade não deve ter uma clara referência à mulher no nome.

As pessoas que questionam o uso do termo Feminismo para um movimento que prega a igualdade entre as pessoas não questionam o fato de se usar a palavra Homem para representar a humanidade, não é? A Feminista paciente fala, ainda, que, como disse Julieta, personagem da peça “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, “aquilo a que chamamos rosa, teria o mesmo perfume mesmo que lhe déssemos outro nome”. O mesmo acontece com o Feminismo. As lutas por ele empreendidas não deixam de ser legítimas e necessárias por causa do nome Feminismo. O inimigo é o sexismo, não o termo Feminismo.

Aí a pessoa se diz indignada porque, segundo ela, o Feminismo só fala do empoderamento da mulher. E a Feminista paciente diz o que parece óbvio, mas a pessoa com a visão viciada não consegue enxergar: o homem nunca teve a sua autonomia negada, a mulher, por outro lado, não teve a sua reconhecida. Por que o Feminismo vai enfatizar a autonomia do homem se ela já é constituída? O patriarcado assume que a única autonomia válida seja a do homem. O Feminismo luta para que a autonomia da mulher também seja legitimada. A Feminista paciente ainda diz que, como o Feminismo luta pelo fim do sexismo, ele luta, indiretamente, para que o homem não tenha de seguir papéis  pré-determinados como, por exemplo, o de ser o provedor da casa.

A pessoa diz que o Feminismo é muito cheio de regras absurdas, como a ideia de que a mulher não pode exercer os serviços domésticos. E, mais absurda ainda, conforme a pessoa, é a história de que o homem deve ajudar a mulher com os serviços domésticos que, bem, são de responsabilidade dela. A Feminista paciente diz que o Feminismo não tem mandamentos, tem posicionamentos, e nenhum deles diz que a mulher não pode se dedicar aos serviços domésticos, embora o Feminismo problematize, sim, até que ponto os serviços domésticos – sejam eles remunerados ou não – são opção e até que ponto são imposição (a maioria das mulheres que trabalha como empregada doméstica é negra; isso não merece uma reflexão apurada sobre racismo, machismo e a distribuição de renda no Brasil?).

O Feminismo defende que a mulher tenha o direito de escolha. Se a escolha da mulher for a de se dedicar às atividades domésticas, está tudo bem. O que não está bem é o fato de a mulher ser diminuída por realizar afazeres domésticos. É isso que o Feminismo questiona: a ideia de a mulher ser diminuída pelas suas escolhas. Se a mulher optar por trabalhar com atividades domésticas (em sua própria casa ou prestando serviços a outrem), que ela seja respeitada. Se a mulher optar por trabalhar em outros âmbitos (seja em profissões que necessitam de formação acadêmica ou não), que ela seja respeitada por isso.

A Feminista paciente ainda diz que não existe isso de serviços domésticos serem destinados à mulher e que essa história de o homem “ajudar” a mulher nos serviços domésticos é algo muito medíocre; porque homem fazer serviço doméstico não é prestar um favor à mulher; dizer que isso é ajudar a mulher, é assumir que trabalhos domésticos sejam função dela, e tentar posar de altruísta. O homem fazer serviços domésticos não é altruísmo, ele não está ajudando a mulher a realizar um serviço que é inerente à condição feminina, porque não existe isso de que “arrumar casa e cozinhar” seja trabalho para mulher, isso é função dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres. Logo, uma maneira mais justa de se lidar com a situação, é adotar a divisão, igualitária, na hora de se realizar as tarefas domésticas.

Então a pessoa, meio enraivecida, como se tivesse presenciado uma injustiça, diz que já que a mulher quer direitos iguais, terá de recusar bebida gratuita nos bares e, além disso, terá de recusar quando lhe disserem que ela paga menos para entrar em boates, bares, entre outros lugares. A Feminista paciente explica que “Ladie’s Nights” é um falso privilégio; é uma das manifestações do dito “lobo em pele de cordeiro”. As mulheres não são privilegiadas por pagarem menos e terem bebidas liberadas, elas são usadas como “iscas” para atraírem o público masculino que, por vezes, acaba por ignorar quando a mulher diz NÃO. Esses homens pensam que o fato de a mulher ter ingerido bebida alcoólica sem pagar por ela e estar desacompanhada em algum lugar (e, aqui, não falo apenas do âmbito que engloba os bares, as boates, as baladas, enfim), é o mesmo que estar usando uma placa que diz: EU SOU UM BELO PEDAÇO DE CARNE. COMA-ME.

Então a Feminista paciente pensa que a pessoa começou a construir uma visão menos deturpada do Feminismo. E a pessoa aparece com o “argumento” de que tem mulher que não se dá ao respeito, que sai transando com todo mundo, então o homem tem de puxar a rédea dela. Além disso, diz a pessoa: “há mulheres que usam roupas escandalosas e depois não sabem por que são estupradas”. A Feminista paciente, além de dizer que é ofensiva a ideia de comparar uma mulher a uma égua, que precisa andar a partir dos comandos de um homem, volta a falar sobre a questão da autonomia, de que ninguém tem o direito de ditar regras sobre como o outro deve viver, sobre como o outro deve pautar a sua vida sexual, sobre o seu corpo, enfim (sim, a Feminista paciente fica um bom tempo explicando que o feminismo  defende o direito de escolha da mulher sobre o seu corpo e, por isso, tem como uma de suas lutas a descriminalização do aborto, para que a mulher possa escolher se vai ou não prosseguir com uma gravidez). A Feminista paciente diz, com convicção, que nós somos seres de desejo, e que negar isso, é negar a nossa constituição humana.

A Feminista paciente aproveita para dizer que quando falamos que alguém não se dá ao respeito, estamos repetindo um discurso sem saber como ele foi construído. Dizer que uma mulher não se dá ao respeito, é querer tolher a autonomia dessa mulher, porque partimos do pressuposto de que ela deve andar conforme as nossas regras, conforme o que acreditamos ser o “certo”. E isso é o mesmo que postular que a mulher deve desconhecer o seu próprio corpo, desconhecer e ignorar os seus desejos, ignorar a busca pelo prazer. Em síntese, é dizer que a mulher deve se anular. Além disso, a Feminista paciente postula que dizer que uma mulher foi estuprada por estar usando roupas curtas é uma das mais cruéis falácias propagadas pela cultura do estupro. Isso é transformar a vítima em ré.  A Feminista paciente conclui dizendo que quando o assunto é respeito, não deve haver um “se”.

Então a pessoa fica em silêncio por alguns segundos e dispara que sente vergonha pelas mulheres que usam roupas curtas porque isso é se desvalorizar, é desvalorizar a todas as mulheres. A Feminista paciente diz, de coração, que não sente vergonha pelas mulheres que usam roupas curtas; ela sente é orgulho por ver as mulheres se sentindo bem com a roupa que escolheram, não com a roupa que o patriarcado fez com que muitas mulheres acreditassem que fosse a única opção. A Feminista paciente ainda enfatiza que jamais aceitará conservadorismo em pele de Feminismo.

A pessoa diz que não é conservadora, mas acha horrível ver/escutar mulher xingar palavrão. A Feminista paciente pergunta se a pessoa se incomoda quando vê/escuta homem falar palavrão, e ela responde que não, o problema é quando mulher pensa que é homem e sai usando um linguajar chulo. A Feminista paciente diz que se a pessoa tivesse falado que não gosta de ver quaisquer pessoas, independentemente de gênero, falando palavrão, ela respeitaria, embora acredite que esta postura seja um tanto quanto conservadora. Mas quando a pessoa disse que o problema está no fato de mulher falar palavrão, ela assumiu uma postura machista, porque assumiu que o direito de extravasar, por meio do uso de palavrões, seja algo exclusivo do homem.

A Feminista paciente deixou bem claro que acha tranquilo, sim, o ato de se falar palavrão se for para extravasar, mas, em momento nenhum apoia o slut shaming, que é, em linhas gerais, quando se chama a mulher de puta. As pessoas fazem isso da forma mais cruel possível. Chamam mulheres de putas porque elas usam roupas curtas. Chamam mulheres de putas/piranhas e derivados por elas não terem medo de falarem sobre sexualidade, sobre vida sexual, entre outros. Em suma, slut shaming é julgar o caráter de uma mulher por um motivo aleatório e, para tanto, usar um xingamento de cunho sexual.

A pessoa tenta mudar o rumo da prosa e menciona que conhece uma mulher que diz que não é feminista, é feminina. A Feminista paciente diz que o raciocínio da tal mulher parece estar confuso, porque o Feminismo luta para que as mulheres sejam o que elas quiserem ser, para que elas sejam livres. Então, em momento algum, o Feminismo pretende “masculinizar” as mulheres. O que ele propõe é uma reflexão sobre os papéis de gênero, sobre o que se postula “ser coisa de homem” e “ser coisa de mulher”, ou seja, ele propõe uma reelaboração dos conceitos de “feminino” e “masculino”, mas não para por aí, o Feminismo também se atenta para a questões que envolvem pessoas transgênero.

A Feminista paciente diz que o Feminismo propõe que pensemos sobre como as imposições de papéis de gêneros são prejudiciais à constituição das pessoas como sujeitos. Mas o Feminismo jamais vai dizer para uma mulher não usar maquiagem ou não usar salto. Ele vai dizer para a mulher que ela tem uma escolha: se ela quiser, pode usar salto, mas se não quiser, não precisa usar, mesmo que se sinta desconfortável, porque disseram-lhe que mulher só fica elegante de salto. O Feminismo vai dizer que uma mulher pode usar maquiagem, se isso faz com que ela se sinta bem, mas se ela não quiser usar, não precisa, porque a ideia de que a maquiagem faz com que a mulher fique bonita é uma imposição de padrões de beleza que oprimem, e, portanto, devem ser repensados.

A pessoa dá um sorriso de “agora, vou te colocar entre a cruz e a espada” e diz que não compreende a falta de coerência das feministas que criticam o “Lingerie Day” e acham normal aquele bando de mulher desfilando de sutiã pelas ruas na “Marcha das Vadias”. A Feminista paciente faz toda uma explanação sobre o fato de que uma das coisas interessantes do Feminismo é que ele não é linear. Ela diz que o Feminismo não tem um posicionamento único, canônico, sobre inúmeras questões; ele tem tendências diversas, ele é um movimento plural. As tendências feministas que se opõem ao “Lingerie Day” o fazem com base na ideia de que neste evento, a mulher é objetificada, está ali para receber um “selo de qualidade”, para ser “comprada” pelo homem que melhor puder bancar as melhores lingeries, que, claro, são as únicas coisas das quais uma mulher precisa, é tudo o que uma mulher precisa para ser mulher, para ser completa, né? (a Feminista paciente pede para explicar que foi irônica). Já na Marcha das Vadias, a mulher está utilizando o corpo como forma de protesto. E antes que a pessoa comece a questionar o uso do nome “vadias”, a Feminista paciente diz que o nome é usado de forma irônica, ressignificada, não para diminuir as mulheres como ocorre quando se faz slut shaming.

A pessoa diz que ainda acha isso tudo muito estranho e que só falta a feminista dizer que acha certo mulher com mulher ou homem com homem, o que é um absurdo, porque Deus fez a mulher para o homem, e não para outra mulher.

A Feminista paciente diz que o fato de a pessoa achar tudo muito estranho é um reflexo do sexismo, do sexismo institucionalizado, que chamamos de patriarcado. Ele não abre possibilidades para além do postulado por um conjunto de regras tiradas de sabe-se-lá-onde que vestem um falso manto de organização para perpetuarem a opressão. A Feminista paciente diz que, no início da conversa, falou a palavra autonomia. A Feminista paciente diz que, como já mencionou anteriormente, o Feminismo não abre mão da ideia da autonomia. Logo, dizer que uma pessoa não deve ter autonomia sobre a sua orientação sexual não é algo que seja razoável; é bastante questionável, na verdade.

A pessoa diz que a Feminista paciente é muito conivente com coisas erradas, e que se tem uma coisa que ela não poderá negar é o fato de que mulheres que questionam muito não arrumam marido, porque nenhum homem aguenta mulher buzinando na orelha dele.

A Feminista paciente começa a ficar impaciente, e diz que, quando descobriu que podia questionar, a mulher também descobriu que, se não quisesse, não precisava se casar, porque descobriu que, mais do que encontrar um parceiro, importava-lhe se encontrar. E, de posse de um conhecimento sobre si, seu corpo, sua sexualidade, sua inteligência, enfim, a mulher concluiu que, se quisesse se casar, e um homem dissesse que, para isso, ela teria de ficar mais calada, ela não se casaria com esse homem, porque não precisava de alguém lhe dizendo como deveria agir.

A pessoa diz que, com esse tom, a Feminista paciente (que, neste momento já se metamorfoseou em Feminista impaciente) não vai angariar simpatizantes para a sua causa, que ela deve falar de maneira mais suave. A pessoa ainda fala, como se estivesse ministrando uma aula sobre planetas e mitologia, que homens são de Marte, e mulheres são de Vênus. Ela se demora em dizer que Marte é o deus da guerra, e que Vênus é a deusa do amor. E que homens têm de, naturalmente, serem a voz forte, a voz da guerra, e mulheres serem uma voz que transmita amor, paz.

A Feminista impaciente diz que a pessoa deixou claro que, em momento algum, tinha a intenção de se tornar simpatizante da causa feminista, e isso não tem nada a ver com o tom das explicações. A pessoa não tinha a intenção de se tornar uma simpatizante da causa feminista porque, durante toda a conversa, demonstrou resistência a um dos baluartes do Feminismo: a autonomia. Quando se reconhece a autonomia da mulher, não se postula que ela tem de ser dócil, que ela não pode dizer tal coisa, que ela não pode se vestir de tal maneira, que ela não pode se comportar de tal maneira. Reconhecer a autonomia de uma mulher é compreender e respeitar o fato de que ela faz as suas próprias escolhas, e isso inclui usar o tom que achar necessário para falar. A Feminista impaciente diz, quase como em um grito de libertação, que mulheres não são de Vênus, são de onde quiserem ser.

Ainda não entenderam o porquê de eu estar cansada? Estou cansada dessa incompreensão premeditada, dessa incompreensão-escudo, dessa incompreensão que visa à manutenção do modelo patriarcal, que reduz a mulher a um ser desprovido de vontades, de desejos, de direito de escolha, enfim, que reduz a mulher a um não ser,  desprovido de autonomia. Estou cansada do machismo. Eu estou cansada, mas, como falei no início deste texto, eu não largo os béts porque acredito que o Feminismo seja uma ferramenta que nos permita desencavar, das montanhas de empecilhos colocados pelo patriarcado, a autonomia.

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