Assinatura RSS

Arquivo da categoria: Cinema

Vingadores: Era de Ultron

Publicado em

Eu não li uma única crítica sobre Vingadores: Era de Ultron. Eu não leio nenhuma crítica antes de ver os filmes da Marvel, porque eu não gosto de spoilers. Se você também não gosta, recomendo que só leia este texto após assistir ao filme. Se você já viu o filme e/ou leu inúmeras críticas, peço desculpas por soar repetitiva e extremamente empolgada. Não tenho a pretensão de escrever uma crítica. O que pretendo é registrar algumas das minhas impressões iniciais sobre um dos filmes mais esperados do ano.

Leio quadrinhos desde nova, e por mais que, eventualmente, eu caia na tentação de querer que todos os diálogos existentes nos quadrinhos apareçam, ipsis litteris, na telona, compreendo que história em quadrinho é uma coisa, filme é outra. Justamente por essa peculiaridade, não leio críticas antes de ver os filmes do universo cinematográfico da Marvel. Eu conheço a conceituação dos personagens conforme os quadrinhos, eu conheço inúmeras histórias desses personagens no que tange aos quadrinhos, mas isso não significa que eu vá saber como eles estarão em um filme. São mídias diferentes, logo, são perspectivas diferentes, interpretações diferentes e eu prefiro tomar conhecimento delas no contexto do filme.

Com isso em mente, consegui lidar com as adequações feitas no roteiro do filme para que o Stark, e não o Pym, fosse o responsável pela criação do Ultron. Como o Homem Formiga ainda não foi apresentado nas telonas, a alteração foi extremamente necessária. Nisso, temos o fio condutor da narrativa de Vingadores: Era de Ultron. O robô, feito de adamantium, que deveria se empenhar pela paz mundial, se rebela contra o criador e ameaça a existência da humanidade.  Ainda sobre adequações, não me incomodei com o fato de a conceituação da Feiticeira Escarlate no filme ser diferente daquela que eu conheci nos quadrinhos. Entretanto, acredito que a caracterização da personagem foi prejudicada pelo ritmo acelerado do filme. Quando ela começou a amadurecer, o filme acabou. Por isso, a imagem da Wanda do início do longa, uma explosão de rancor e nada mais, acaba se destacando mais do que a da Wanda como Vingadora.

Dito isso, confesso que eu esperava muito do segundo filme dos Vingadores, mas também sabia que era uma tarefa difícil de ser realizada, pois ele tinha de apresentar novos personagens e continuar a desenvolver os que já tinham sido apresentados tanto no primeiro filme quanto em filmes individuais do universo cinematográfico da Marvel. Vingadores 1 foi a realização de um sonho. Ver os heróis que eu conheci, quando comecei a ler quadrinhos, na tela do cinema realmente foi um acontecimento único. Sentimento que eu compartilho com uma quantidade imensa de leitores de quadrinhos. Leitores que, do segundo filme, esperavam mais, esperavam muito mais. Eu esperava uma boa história. Eu esperava, além de rever meus heróis na telona, uma história que me cativasse. E, com algumas ressalvas, essa história estava lá.

Um dos maiores problemas que o filme apresentou, para mim, foi a edição. Apesar de, para quem acompanha os quadrinhos, o plot do Thor sinalizar para o Ragnarok, no filme ficou bastante desconectado. Confuso, até,  eu diria. Outro problema ocasionado pela edição, é a rapidez com que o Ultron passa de ser um ideal de construção da paz mundial para algo concreto. A transição foi muito rápida e, por isso, um pouco forçada. O mesmo acontece com a concepção do Visão. Aqui, mais uma vez, acho importante mencionar o seguinte: para os leitores de quadrinhos, não há a necessidade de se explicar algo que eles conhecem tão bem quanto o caminho de casa, mas o filme não pode depender dos quadrinhos para existir, ele precisa de uma certa independência.

Muitas pessoas acharam a passagem dos heróis pela casa do Gavião desnecessária. Talvez, seja, mas para quem não tem tanta intimidade com as artimanhas de Nick Fury quanto os leitores de quadrinhos, aquele momento foi importante. Fury precisava de algo para  tentar manter os heróis mais poderosos do mundo juntos. Então, decidiu levá-los para uma casa despida da tecnologia a qual eles tinham acesso no primeiro filme, para que eles pudessem perceber que tinham o principal: vontade. É óbvio que o Fury tinha restaurado a “tecnologia perdida”, como se pode perceber no fim do filme, mas, no momento em que foram para a casa do Gavião, os Vingadores não precisavam de tecnologia, precisavam dialogar, precisam restaurar a fé no que eles poderiam fazer, pois tinham acabado de ser massacrados.

É controverso, também, o romance entre a Viúva e o Hulk. A humanidade estava prestes a ser dizimada, então, qual seria o propósito de se iniciar um relacionamento? É exatamente em tempos de guerra que o amor se faz necessário. O fato de que todos poderiam morrer a qualquer momento fez com que Natasha Romanoff e Bruce Banner percebessem que o amor é urgente. Guimarães Rosa disse, certa vez, que “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.  Efêmeros ou não, os momentos de felicidade valem a pena.  Nessa perspectiva, eu acredito que as piadas, que acontecem durante todo o longa, também sejam importantes. Elas servem ao propósito de quebrar a tensão que perpassa o filme.

E qual seria o motor dessa tensão? Deuses reunidos. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança ou o homem faz Deus à sua imagem e semelhança? Em determinado momento do filme, Wanda diz ao Capitão América: “Ultron não sabe a diferença entre salvar o mundo e destruí-lo, com quem você acha que ele aprendeu?” Ultron é uma criação do Stark. Visão é uma criação do Ultron. Temos a encenação de um conflito que nunca deixa de ser atual. Criatura se revolta contra o criador. Criatura supera o criador. Zeus derrotou o pai. Édipo matou o pai. Ultron, como o Deus do antigo testamento, não sabe lidar com abstrações. Os Vingadores queriam que as guerras cessassem para que pudessem ir para suas casas e terem “vidas normais”. Ultron distorceu isso para: os vingadores precisam ser exterminados. O mundo já foi exterminado antes, é o que Ultron disse, e sintetizou com o exemplo de Noé. Ou seja, os humanos erraram, merecem o extermínio. Ultron nos lembra o Deus do antigo testamento: cruel e birrento.

Visão vem para ser o contraponto. Ele não é apenas uma versão melhorada do Ultron, “seu pai”, ele encarna a ideia de um Deus que se faz homem. Pouco depois de “nascer”, e se desentender com os Vingadores, Visão fica de frente com o espelho. Ele se olha, por alguns segundos, volta para perto do grupo e se desculpa. Primeiro, ele se olha no espelho, se reconhece. Naquele momento, ele ganha o caráter de humano. O ser humano é o único animal que, quando vê o seu reflexo no espelho, sabe que se trata dele, e não de outros animais. Então, quando Visão consegue levantar o Mjölnir, ele assume o status de Deus, ou melhor, de Filho de Deus. Ao longo do filme, com suas ações, tentativa de salvar a humanidade e demonstração de compaixão, ele se assemelha ao Deus do novo testamento, isto é, Jesus Cristo.

No fim do filme, durante a exibição dos créditos, todos os Vingadores aparecem, esculpidos em mármore. O panteão dos Vingadores nos remete ao panteão dos deuses gregos. Mas o filme faz essa jogada o tempo inteiro. São os heróis mais poderosos da terra, e o que faz com que eles entrem em conflito? O seu lado humano. Os sentimentos humanos que eles têm. Durante a batalha, eles são soldados, mas quando não precisam usar os poderes, são crianças brigando pela sua pilha de madeira para cortar.  É por isso que os deuses gregos entravam em conflito. É por isso que os deuses escolheram lados na Guerra de Troia. É, também, por isso, que eu acho bastante justificável a quantidade de socos, martelo voando e escudos na tela. O filme tem muita ação, mas ela não está descolada da trama. A ação exemplifica a trama. São deuses. Todos querem exibir os seus poderes. Deuses são egocêntricos.  Os deuses gregos aproveitavam sua eternidade brigando entre si e, vez ou outra, se relacionavam com humanos, de quem eles invejavam a finitude. Vingadores: Era de Ultron não é apenas um filme sobre heróis lutando contra criaturas em CGI. É um filme sobre deuses sendo deuses.

Anúncios

Ruby Sparks

Publicado em

ImageInteressei-me, primeiramente, em assistir ao filme Ruby Sparks mais pela dupla de diretores do que pela sinopse. Quando vi que a direção do filme estaria a cargo de Valerie Faris e Jonathan Dayton, a mesma dupla que dirigiu Pequena Miss Sunshine, imaginei que o filme seria muito bom. Infelizmente, Ruby Sparks ficou bem abaixo das minhas expectativas, mas isso não significa que ele seja um filme ruim. Embora tenha caminhado por direções um tanto quanto questionáveis, no fim das contas, além de ter alguns momentos memoráveis, o filme funciona como uma boa comédia romântica.

A trama do filme gira em torno da história de Calvin (Paul Dano) e Ruby Sparks (Zoe Kazan, que também é a roteirista do longa). Calvin é um escritor famoso, mas sofre da síndrome do segundo romance. No aniversário de dez anos de publicação do seu primeiro romance, percebemos que ele não conseguia começar a escrever o próximo, pois todos os temas sobre os quais começava a refletir pareciam-lhe ruins. Foi então que, a partir de alguns sonhos, ele inventou uma “garota perfeita”, a quem nomeou como Ruby Sparks, e começou a escrever sobre ela. Com a volta da inspiração, Calvin estava vivendo uma “controlada euforia”, até que, um dia, a sua criação ficcional se materializou.

O primeiro ato do filme é brilhante. E, embora eu acredite que, talvez, fosse mais interessante se a Ruby não saísse dos sonhos e das palavras, achei corajosa a manobra de Zoe Kazan (roteirista e protagonista) em tirá-la do sonho em vinte e cinco minutos de filme. Fiquei, sim, querendo mais sonhos, mas a verdade é que a expectativa era a de que, uma hora, Calvin tivesse de viver um pouco na realidade. É fato que uma mulher que só existia nos sonhos e na imaginação se tornar real, se materializar, já é, em si, surreal demais. Entretanto, se superarmos esse ponto, o surreal passa a ser a nossa noção de realidade. Então, a coragem da roteirista, para mim, está em não deixar o aparecimento da personagem no “mundo real” para o fim do filme. O modo como a relação entre Ruby e  Calvin foi trabalhada no mundo real pode não ter sido a melhor escolha, entretanto, trazer a personagem para a realidade não deixa de ser uma atitude corajosa.

O filme está cheio de pistas que nos remetem à disparidade de personalidade existente entre Calvin e Ruby. Bem no início do filme, em um dos primeiros sonhos que Calvin teve com a Ruby, quando ela pergunta-lhe se pode desenhar o cachorro, ele responde “não se aproxime muito, ele tem medo de gente”. Podemos perceber, neste momento, que ao falar sobre o cachorro, Calvin fala sobre si, uma vez que, como é-nos apresentado, ao longo do filme, ele não tem amigos, não se aproxima das pessoas, e fica desconsertado quando tem de falar sobre o que escreve. Em uma conversa com o terapeuta, Calvin reitera a ideia de que o cachorro fica estranho perto de gente. Tal fato,  mais uma vez, evidencia a relação de espelhamento entre o cão e o escritor.

Diferentemente da incolor e monótona vida de Calvin, Ruby, já nos primeiros sonhos, aparece tendo o sol como pano de fundo. Talvez a metáfora seja óbvia, mas, mesmo assim, não perde a sua beleza. Ruby aparece na vida de Calvin para fazer com que  ela fique mais colorida. A casa de Calvin é muito “clean”. O branco predomina, e, quando Ruby entra em cena com suas roupas cheias de cor, mesmo depois que  já “saiu” dos sonhos, o clima de um ambiente proveniente do mundo dos sonhos permanece. Isso fica bem visível quando ela aparece, no topo de uma escada, com um vestido azul e uma meia calça roxa. Ela contrasta com aquele ambiente muito branco.

Conforme o dicionário de símbolos, o azul é o caminho do infinito, no qual o real se transforma no imaginário. Azul, também, é a cor do pássaro da felicidade. Talvez, as asas do pássaro demonstrem não apenas a liberdade, mas também o fato de que a felicidade seja algo um tanto quando fugidio. Nesse campo de significação, Ruby também pode, conforme um dos significados atribuídos ao azul, reforçar o ambiente do sobrenatural, já que o azul é a cor do sonho. Até os quadros pintados por Ruby contrastam com a casa, toda branca, tal qual a folha que aparece na máquina de escrever de Calvin, no início do filme. Casa branca, folha em branco, vida em branco. E Ruby vem preencher tudo isso, com suas cores.

Calvin é apresentado como um personagem chato, indisposto, impenetrável, o que pode apontar para um mecanismo de defesa adotado por quem tem dificuldade de se relacionar. Ele não permite que ninguém entre em sua vida porque não sabe como  lidar com os outros. Nos momentos em que Calvin está na terapia, é terrível contemplar a sua existência. Talvez isso se deva ao fato de que se alguém tem de ser destacado na história, esse alguém é a Ruby. Isso remonta o exercício que o escritor faz para sair do enfoque do seu texto e deixar suas personagens reinarem. O que tem de ser visualizado e amado, na obra, não é o escritor, mas o que ele criou. Entretanto, essa mesma ideia de criação, em determinados momentos do filme, faz com que Calvin abuse do complexo de Deus para com Ruby, “sua” criatura.

Os melhores momentos do filme se passam na casa do Calvin. A ideia de casa aponta para uma zona de conforto que, de certo modo, pode nos colocar diante do útero. Desse modo, o ponto alto do filme é o da gestação da história, o que até fica interessante se pensarmos que depois que um filho nasce, não se sabe os rumos que ele pode tomar. Enquanto ele está sendo gerado, podemos sonhar as coisas mais lindas para ele, mas, quando ele nasce,  as coisas caminham em outra direção.

Ainda sobre a ideia da zona de conforto, é interessante perceber que há muito de psicanálise em Ruby Sparks. Um dos sinais mais claros dessa presença pode ser visto quando os personagens do filme ficam na posição fetal por diversas vezes: Calvin, quando está na terapia; Ruby, quando se sente “miserável sem a presença do Calvin”; e Calvin, novamente, quase no fim do filme.

Talvez um dos maiores méritos do tom psicanalítico conferido ao filme seja o de evidenciar, por meio de imagens, o que Lacan já nos ensinou por meio das palavras: quando o indivíduo entra em contato com o seu objeto de desejo, não há a satisfação, há um colapso. É o que acontece com Calvin. Quando a Ruby estava só no nível da fantasia, ela era a namorada perfeita, mas quando ela se tornou real, ele não suportou perder o controle que acreditava ter sobre ela; não suportou a ideia de que há uma diferença abismal entre a mulher idealizada e a mulher real.

Top Livros

Os melhores livros gratis

Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Laura Conrado

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

blog.antonioxerxenesky.com/

Just another WordPress.com site

C A S M U R R O S

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Blog da Cosac Naify

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Blog da Companhia das Letras

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

uma feminista cansada

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Le Sales Blog - Tudo Sobre Nada

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

.:Hellfire Club:.

Um pandemônio.

Posfácio

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Clara Averbuck

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Escreva Lola Escreva

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Apesar da Linguagem

Destrinchando literatura

Aielicram

Para falar sobre tudo, ou quase tudo

Alindalë

A Música da Alinde