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Arquivo da categoria: Ficção

Cadê você, Bernadette? (Maria Semple)

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Embora tenha ouvido falar sobre Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple, em 2013 – época em que, por conhecer a Maria Semple como roteirista de Arrested Development e Mad About You, fiquei bastante interessada pelo livro – só voltei a pensar nele há alguns meses, por causa de Jane The Virgin. Jane, a protagonista da série, adora Cadê você, Bernadette?, sobre o qual comenta no primeiro episódio da terceira temporada. E, no décimo sexto episódio da terceira temporada, a série tem a participação especial de Maria Semple. No episódio, ela é a mediadora de um evento de que a Jane, que está para lançar o seu primeiro romance, participa. Assisti ao episódio há alguns dias e o incômodo de ainda não ter lido Cadê você, Bernadette? falou mais forte. Devorei o livro, em dois dias.

Não sei vocês, mas eu sou da época em que olhávamos para uma imagem cheia de detalhes, com curiosidades à vista, e ficávamos, por alguns minutos, às vezes, segundos, procurando por Wally. Cadê você, Bernadette? é como se tivéssemos 407 páginas, cada uma com um novo cenário, para procurarmos por Wally, ou melhor, por Bernadette.

Bernadette Fox tem cinquenta anos. É casada com Elgin Branch, um gênio da Microsoft, que concentra o trabalho na fase final do Samantha 2, o projeto da sua vida; tem uma filha de quinze anos, Bee, uma adolescente inteligente, e bastante esguia para a sua idade, isto se deve ao fato de ela ter nascido com uma condição cardíaca, passado por quatro cirurgias e, por isso, ter demorado um pouco mais para que seu corpo começasse a se desenvolver.  Bernadette não se dá muito bem com a maioria das pessoas, motivo pelo qual prefere a reclusão à socialização, o que lhe causou inúmeros problemas com as mães da escola em que sua filha estuda, pois elas, algumas em especial, faziam o possível para infernizar a vida da mãe de Bee. Por ter problemas para se relacionar com os outros, Bernadette contratou uma assistente virtual indiana para fazer a maioria das coisas por ela: comprar roupas, reservar lugares em restaurantes para a comemoração de datas importantes, entre outros.

Quando Bee entrega à mãe um boletim escolar irrepreensível, Bernadette se vê diante de uma situação estressante. Ela e o marido prometeram à filha que, se tirasse notas perfeitas do início ao fim do Ensino Fundamental, ela poderia pedir o que quisesse de presente. Bee pediu uma viagem com toda a família para a Antártida. Isso não seria estressante para uma pessoa que não sofresse de uma forte ansiedade social, o que não é o caso de Bernadette. Mesmo com receio, ela aceita a ideia da viagem, e pede à Manjula, sua assistente virtual, que comece a organizar tudo: passagens, roupas, e os demais detalhes. Porém, dois dias antes do Natal, ou seja, no dia da viagem, Bernadette desaparece.

Maria Semple em Jane The Virgin S03E16.

Cadê você Bernadette? é construído a partir de fragmentos. Nenhum fragmento está ali por acaso. A primeira parte dos fragmentos – e-mails, bilhetes, entre outros –  se ocupa de nos apresentar Bernadette.  Na primeira página do livro, somos informados de que ela desapareceu. Mas antes de sabermos mais detalhes sobre isso, contamos com Bernadette em cena. Conhecemos a personagem e suas limitações já de posse da informação de que ela desapareceu. Primeiro, Maria Semple faz com que nos importemos com Bernadette, nos afeiçoemos a ela. Depois, faz com que ela saia de cena, o que nos impulsiona a percorrer as páginas do livro na tentativa de encontrá-la. E, como guia na busca, temos Bee, a doce e inteligente filha de Bernadette, que, enquanto procura pela mãe, preenche algumas das lacunas deixadas pelos bilhetes, e-mails, cartas, fax e demais textos que constituem o romance.

Análogo à profissão de Bernadette, que é arquiteta, o romance parece ser feito com estruturas de encaixe. Quando Bernadette ainda vivia em Los Angeles – vinte anos antes de desaparecer –  e começava a criar, fazer sua mágica, as pessoas não compreendiam bem suas escolhas, seus movimentos, mas depois, quando ela encaixava as coisas, dava forma ao projeto, era possível  visualizar o todo. Assim acontece com o livro. No início, são fornecidas algumas pistas – fragmentos de informações, lançados de modo meio maluco – que não compreendemos bem, e elas são esclarecidas, retorcidas e modificadas ao longo do livro.

O estilo de escrita de Maria Semple, lapidado por uma vasta experiência como roteirista, nos brinda com algo bastante interessante: a narrativa em perspectiva. Somos apresentados às diversas versões das histórias vividas pelos personagens conforme há a alternância da voz narrativa. Até mesmo a versão de uma história, se contada duas vezes por uma mesma pessoa, sofre modificações drásticas na segunda vez em que é contada. E isso fica bastante evidente quando lemos os e-mails que Soo-Lin, assistente administrativa de Elgin Branch, trocava com Audrey Griffin – esta, apresentada como a mãe da Galer Street, escola em que Bee estudava, que mais implicava com Bernadette.

No caso de Soo-Lin, ainda somos presenteados com um momento de “expectativa x realidade” quando ela relata acontecimentos que envolvem Elgin Branch. Primeiro, ela nos conta o que gostaria que tivesse acontecido, mas assumimos que é o que aconteceu, e guardamos essa impressão durante muitas páginas. Depois, quando ela conta como as coisas realmente aconteceram, temos de reinterpretar diversas passagens do livro à luz das novas informações. É como se um material em estado sólido fosse aquecido até ficar líquido, se fundisse a outro e, depois de ser trabalhado, criasse uma nova estrutura.

A experiência de Maria Semple como roteirista de séries também acaba por ser extremamente útil para que possamos ligar as pontas aparentemente soltas do livro. Por exemplo, há um momento em que Bernadette descreve, em um e-mail, uma longa história de como Picolé, a cachorra, que pesa sessenta quilos e baba sem parar, de Bee, ficou presa em um dos armários antigos da casa em que ela, a filha e marido moravam. Em um primeiro momento, não damos muita atenção à história, mas depois, para lá da metade do livro, compreendemos a sua importância.

(O próximo parágrafo contém um grande spoiler, trata-se da revelação de um dos mistérios do livro. Se quiser manter o suspense, o que recomendo, não o leia, vá direito para o parágrafo seguinte).

Quando uma personagem esbarra em uma escada, que usa para ajudar Bernadette a sair pela janela do banheiro antes que  fosse internada em um manicômio, sabemos que aquela escada estava ali porque caiu no momento em que Bee subiu no telhado atrás da mãe, na ocasião em que resgataram a cachorra. Bee já estava dentro do armário e ouviu um barulho vindo de fora: “a escada havia caído e estava atirada sobre o gramado” (p. 51). A trama da cachorra presa no armário foi um artifício narrativo utilizado para colocar a escada no lugar em que ela deveria estar em um dos momentos de maior reviravolta da história.

A narrativa em perspectiva também é bastante interessante para compreendermos o que fez com que Bernadette ficasse cada vez mais reclusa. Na perspectiva narrativa da arquiteta, foi algo bastante doloroso, que ela chama de “Coisa Extremamente Horrorosa” (p.32). Conforme o marido de Bernadette, ela “teve um problema com uma casa que estava construindo e, abruptamente, retirou-se da cena arquitetônica de Los Angeles” (p.114). Ele menciona isso de modo tão corriqueiro, que parece fazer com que a leitura que Bernadette tem dos fatos seja exagerada.

Em uma outra vez que fala sobre o ocorrido, que foi um dos motivos pelos quais ela decidiu se mudar para Seattle, Bernadette conta uma história de infância. Ela ganhou um coelhinho. Algum tempo depois, viajou com os pais, e a empregada, que ficara responsável por cuidar do animal, roubou a prataria da casa e fugiu, deixando o coelhinho sem se alimentar. Quando voltaram de viagem, o animal era só unhas e pelos e, assim que Bernadette abriu a gaiola, “num espasmo de fúria, ele começou a arranhar meu rosto e pescoço. Eu ainda tenho as cicatrizes. Sem ninguém para cuidar dele, o coelho acabou regredindo à selvageria.” (p. 171). Ela conclui: “Foi o que aconteceu comigo em Seattle. Venha até mim, mesmo que seja trazendo amor, e eu vou te estraçalhar de arranhões”. (p.171).

O livro traz respostas convincentes e bem elaboradas para as questões que levanta. Tanto o paradeiro de Bernadette quanto o que fez com que ela abandonasse a profissão de arquiteta são explicados, em algum momento da narrativa. Entretanto, optei por, neste texto, falar o mínimo possível sobre os detalhes do enredo, para manter o suspense.

Em uma carta, Bernadette cita um físico que conheceu, vencedor do nobel, que não parava de falar sobre “universos paralelos”. Em linhas gerais, trata-se de “um conceito da física quântica que diz que tudo que pode acontecer está acontecendo em um infinito número de universos paralelos”. (p.400). A partir disso, estabeleci que, em um universo paralelo, a Coisa Extremamente Horrorosa não aconteceu, Bernadette continuou a trabalhar como arquiteta, e construiu casas excepcionais. Nesse cenário, Bernadette e Elgin não se mudaram para Seattle, e as outras coisas horríveis, que aconteceram antes do nascimento de Bee, não aconteceram. Assim, Bernadette não desapareceu, e Maria Semple escreveu outra história, não Cadê você, Bernadette?

O Sentido de um fim (Julian Barnes)

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osentidodeumfimEu sinto muito frio. Às vezes, tento travar uma disputa com a minha resistência e fico descalça no chão gelado. É um pequeno gesto de rebeldia, que logo abandono, pois o frio me vence e eu não apenas calço os chinelos como também me repreendo por ter pensado que conseguiria lidar melhor com o frio. De modo análogo, algumas lembranças, que enterramos bem fundo, às vezes começam a despontar e, mesmo que saibamos que há um motivo para elas terem estado soterradas por um bom tempo, insistimos em tirá-las de onde estavam e tentar lidar com elas.

É o que objetiva fazer Antony Webster, Tony, que, mais do que narrador-personagem, é narrador-protagonista de O Sentido de um fim, romance Julian Barnes, publicado no Brasil pela editora Rocco em 2013. No processo, embora tente calçar os sapatos e aquecer os pés, ele se dá conta de que não há mais sapatos, há apenas chão e, se quiser que os pés não congelem, precisa andar, sem parar, pelos caminhos da memória e passar muitas vezes pelo mesmo lugar, para se manter aquecido por algumas lembranças aproximadas que o tempo deformou em certeza (p.06).

Quando li o título O sentido de um fim, vencedor do Prêmio Man Booker 2011, acho que, por um certo condicionamento social, pensei imediatamente que se tratava do fim de um relacionamento amoroso. Ao começar a ler o livro, também pensei nisso durante um tempo, até perceber que o título era mais filosófico, e ambíguo, do que aparentava ser, o que, de certo modo, é um anúncio do que podemos encontrar na narrativa, sobre a qual não conseguirei falar sem spoilers. Uma vez que as inquietações sobre as quais pretendo falar estão intrinsecamente ligadas às particularidades do enredo da obra, acho interessante que as pessoas só terminem de ler este texto após a leitura do livro.

Ainda sobre o título, destaco a coincidência da tradução, literal, de The Sense Of an Ending que, intencionalmente ou não, acaba por brincar com a sonoridade da palavra “Fim” para, de antemão, nos dizer, de modo poético, filosófico e triste sobre o suicídio do personagem Adrian Finn, cuja pronúncia do sobrenome é “fim”. Mas esse é um comentário descompromissado, daqueles que a gente faz por se achar inteligente em fazer associações esdrúxulas ao invés de falar sobre o que realmente importa.

O cenário do narrado em O sentido de um fim começa a ser construído no ambiente escolar. Nessa etapa, a rememoração ganha contornos de um filme do  John Hughes co-dirigido por Richard Linklater. O tom da narrativa é nostálgico, constrangedor e, talvez, exatamente por isso, muito divertido. Somos, então, apresentados ao quarteto formado por Tony, Colin, Alex e Adrian. Este começou a estudar na mesma escola em que aqueles bem depois, mas, ao contrário de Colin e Alex, permaneceu na vida de Tony e na história que nos é contada.

A jornada rememorativa de Tony fica mais evidente quando ele recebe 500 libras, que lhes foram deixadas em testamento pela mãe de uma mulher que namorara há quatro décadas, e o aviso de que a falecida também lhe deixara outra coisa, a saber: o diário de Adrian, que suicidou aos 22 anos. Enquanto se articula para reaver o diário, que estava sob os cuidados de sua ex-namorada, Verônica Mary Ford, Tony nos brinda com fragmentos de memória que, ao serem retrabalhados, reescritos e reorganizados nos ajudam a construir uma história.

No tempo da enunciação de O Sentido de um fim,  Tony Webster está na casa dos sessenta anos, e busca elaborar acontecimentos de mais de quarenta anos, procura inferir ações passadas a partir de estados mentais do presente (p. 32). Apesar de alguns dados claros sobre a vida do protagonista, como: ter se casado, tido uma filha, se divorciado e ser aposentado, muitas das lembranças narradas saem propositalmente borradas pelo tempo. Ao tomar como ponto de partida a tinta dos borrões, o narrador nos convida para presenciar a reescrita das suas lembranças e, em última e principal análise, da sua vida.

Para isso, ele faz um exercício de rememoração que gira, quase sempre, em órbita do seu relacionamento com o amigo da época de colégio, Adrian Finn, e com ex-namorada com quem se envolveu nos primeiros anos da faculdade, Verônica Mary Ford. Pouco tempo após o rompimento do relacionamento com Tony, Verônica começou a namorar Adrian. À época, este enviou uma carta àquele, falando sobre o namoro e perguntando se isso afetaria a amizade deles. No primeiro momento, Tony não quis demonstrar o descontentamento, e mandou, como resposta, um cartão postal com palavras inofensivas.

Depois, ele decidiu se dizer como sentia e, dominado pela mágoa, enviou uma carta cheia de xingamentos: classificou a inteligência, a lógica, e a racionalidade de Adrian como pedantismo; falou maus bocados de Verônica e  sugeriu que Adrian perguntasse à mãe da namorada como ela realmente era. Tony não teve mais notícias dos dois até que, por intermédio dos amigos em comum que tivera com Adrian no Colégio, soube que ele cometera suicídio.

Na carta que escreveu para o encarregado do inquérito do suicídio que cometeria, Adrian deixou uma explicação filosófica, o que era condizente com o que ele acreditava. Para ele,

a vida é um presente concedido sem que a pessoa o tenha pedido; que a pessoa que pensa tem o dever filosófico de examinar tanto a natureza da vida quanto as condições que vêm com ela; e que se esta pessoa decide renunciar ao presente que ninguém pediu, ela tem o dever moral e humano de colocar em prática as consequências desta decisão. (p. 34).

A justificativa lógica para o suicídio de Adrian é passivamente aceita pelo narrador e, também, pelos leitores, até a segunda parte do livro, quando depois de quarenta anos de afastamento, Verônica acaba voltando à vida de Tony por se recusar a lhe entregar o diário de Adrian.  As informações, a conta-gotas, que Verônica fornece ao narrador, por intermédio de e-mails ou durante os ríspidos encontros que tiveram, começam a fazer com que ele questione a maneira com que se lembrava de muitas coisas e, mais do que isso, faz com que ele comece a questionar  suas certezas.

Quase no fim do livro, começam a surgir respostas para alguns dos questionamentos que perpassam a segunda parte da narrativa. Mas essas respostas são, em seguida, refutadas, por outras respostas que mais parecem novos questionamentos. Por exemplo, há um momento em que o narrador acredita que Verônica teve um filho de Adrian. Enquanto dura essa crença, ele começa a pensar que Adrian não suicidou por uma questão de coerência, mas por não ter conseguido lidar com a gravidez da namorada.

E essa certeza permanece durante algum tempo, até que Verônica diz que o homem cujo nome é homônimo ao de seu namorado, é seu irmão. Nesse ponto, tanto a memória do narrador quanto a nossa começa a construir outro caminho e, acredito, o mais próximo de de que poderemos chegar de uma suposta verdade. Tony conclui que, ter engravidado a mãe da namorada, foi o motivo real para o suicídio de Adrian.

Embora essa pareça ser a conclusão lógica, devemos levar em conta que o narrador não é confiável. Isso fica bem claro quando ele fala sobre como foi o término com Verônica: Por exemplo, “Depois que terminamos, ela dormiu comigo” pode ser facilmente substituído por “Depois que ela dormiu comigo, eu terminei com ela”. (p.32). A maneira com a qual ele dispõe as palavras, corresponde ao efeito de sentido que ele pretende causar. E, ao assumir que pode ter se comportado com Verônica como um garoto inexperiente, ele busca passar ao leitor a impressão de que pretende fazer um relato justo. O rearranjo das palavras pode alterar significativamente o sentido de um discurso e, no caso em questão,  pode alterar as memórias que costuram a narrativa.

Ao longo da trama, por diversas vezes, o narrador antes de fazer uma citação, pergunta: “quem foi que disse” o que ele mencionará a seguir. Quem foi que disse que a memória é o que nós achamos que tínhamos esquecido? E devia ser óbvio para nós que o tempo não age como um fixador, e sim como um solvente. (p. 43). Mais do que um marcador conversacional, o “quem foi que disse” é um recurso narrativo que cumpre o papel de reiterar que, no tribunal da verdade, a memória não é uma testemunha confiável, pois pode ser, parcial ou integralmente, dissolvida pelo tempo.

A parir disso, pode-se dizer que a proposital unificação que o narrador faz entre o conceito de  “História” e “história”, é mais  do que um indício de que, de certo modo, durante toda a sua vida, ele tentou se igualar intelectualmente à Adrian, que colocava em cheque a definição oficial de História ao plantar a semente da dúvida na objetividade do historiador; é um sinal de que ele pretende, tal qual um historiador, colocar a sua versão dos fatos diante de nós, leitores. Tony Webster é graduado em História. Logo, sua opção por emaranhar os sentidos de História e história não é aleatória, e uma estratégia narrativa adotada pelo autor para desenvolver o enredo.

Nessa linha de raciocínio, no primeiro parágrafo, há a construção de uma espécie de metáfora de antecipação ou, em uma leitura mais abrangente, poderíamos considerar o primeiro parágrafo como uma metonímia do enredo, uma parte que significa o todo, uma parte que alegoriza o todo. É como se tivéssemos um parágrafo-ementa. Mas só conseguimos compreendê-lo como tal após o término da leitura.

Eu me lembro, em ordem aleatória: — do brilho da face interna de um pulso; — do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro; — de gotas de esperma girando em volta de um ralo, antes de serem tragadas e descerem pelo cano de uma casa alta; — de um rio correndo sem sentido contra a corrente, o movimento das águas iluminado por meia dúzia de lanternas em perseguição; — de outro rio, largo e cinzento, a direção da sua corrente disfarçada por um vento forte agitando a superfície; — da água do banho já fria por trás de uma porta trancada. (p.06)

Quando somos surpreendidos pelos relatos finais do livro, sentimo-nos impelidos a revisitar o que o narrador contou. Assim, começamos a questionar o que, durante a leitura, aceitamos como normal. A começar pela imagem do brilho da face interna de um pulso. Isso sintetiza o início do relato do narrador, pois virar o relógio para a face interna do pulso era um ritual que ele e seus amigos da época do colégio faziam. A próxima lembrança elencada, a  do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro. (p.06) diz respeito a algo que só pensaremos com mais cuidado quase no fim da narrativa.

Antes de sabermos que a mãe de Verônica teve um caso com Adrian, encaramos como inocente a interação entre ela e Tony quando ele fora passar um fim de semana na casa dos pais da namorada. A lembrança da frigideira na pia faz referência ao momento em que a Senhora Ford preparava o café da manhã do namorado da filha. As gotas de esperma na pia também fazem referência ao fim de semana mencionado; trata-se de Tony ter se masturbado antes de ir dormir.

A menção  ao movimento das águas iluminado por meia dúzia de lanternas faz referência a uma das memórias a que o narrador mais volta, a de quando ele testemunhou a Serven bore, que  é um fenômeno que ocorre no Sudoeste da Inglaterra. Não compreendo todos os meandros do fenômeno, mas, grosso modo, é algo que acontece quando a maré se move para dentro do canal de Bristol, que tem o formato de um funil, e do estatuário do rio Serven, e a água se concentra em diversas ondas. Na primeira vez que o fato é contado, o narrador diz que estava sozinho. Posteriormente, ele diz que Verônica, estava com ele. Qual das duas versões realmente aconteceu, não se sabe.

E então, temos uma menção sutil a um dos acontecimentos mais rememorados ao longo da história: o suicídio de Adrian, que trancou o banheiro e se matou em uma banheira. É interessante notar que o narrador, no parágrafo seguinte, faz questão de pontuar que essa lembrança não é de algo que ele viu ou vivenciou, já que Adrian estava sozinho quando se matou – e, na época em que isso aconteceu, os dois já não se falavam mais -,  mas é algo que faz parte da sua história e, de certo modo, acaba por fazer parte da pessoa que ele se tornou: Este último não é algo que eu vi de verdade, mas o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu. (p.06).

Com essa afirmação, é como se o narrador nos alertasse para o fato de que ao contar suas lembranças, ele pode criar coisas que não aconteceram, e também pode sublimar coisas que efetivamente aconteceram, mas não nos damos conta disso até que terminemos de ler o livro. Inicialmente, aceitamos a fala apenas como um indício de que a memória é falha, nada mais. No desconhecimento do todo, acabamos por encarar como simples a interpretação que o narrador faz do sorriso da mãe de Verônica.  Quando Tony conta de como se despediu dos pais da então namorada, após passar um fim de semana na casa deles, ressalta que, após o Senhor Ford fazer uma piada, e dizer à esposa para conferir as colheres, ela não respondeu, apenas sorriu para mim, quase como se compartilhássemos um segredo. (p. 23).

Outro fragmento aparentemente simples, mas que cobrimos com um sentido menos ingênuo após as peças do quebra-cabeça serem colocadas na mesa, o que acontece na segunda parte do livro, é  a maneira com a qual o narrador disse que a mãe de Verônica se despediu dele:

Quando o Sr. Ford engrenou o carro e acelerou, eu acenei e ela respondeu, embora não do jeito que as pessoas costumam fazer, com a palma da mão levantada, mas com uma espécie de gesto horizontal na altura da cintura. Eu desejei ter conversado mais com ela. (p. 23).

Depois de sabermos que a Senhora Ford dormiu com Adrian, acabamos por assumir que o narrador falar que ela se despediu dele não do jeito que as pessoas costumam fazer seja um eufemismo para dizer que ela estava se insinuando para ele e, desse modo, ele acaba por plantar algumas dúvidas no campo das incongruências da memória. Há a sugestão de que o narrador também poderia ter dormido com a mãe de Verônica. Também há a possibilidade de a sugestão de que a senhora Ford demonstrou interesse nele seja apenas um jeito  de dizer que não era tão surpreendente assim ela ter se relacionado sexualmente com Adrian, então namorado da filha, pois já havia tentado – ou conseguido? – fazê-lo com o namorado anterior de Verônica.

O caso de Adrian com a mãe da Verônica não se sustentaria apenas como uma consequência de, na carta raivosa que Tony mandou ao ex-amigo quando soube que ele e a ex-namorada estavam juntos, ter sugerido que a mãe da ex- sabia que ela não foi uma boa namorada. Para isso, é importante sugerir que a Senhora Ford já teve a intenção de se relacionar com o namorado anterior da filha.

E as coisas começam a se encaixar, efetivamente, nas últimas páginas do livro, quando Tony se vê diante da relevação de que a mãe do filho que ele pensou ser de Verônica com Adrian era a Senhora Ford. A descoberta nos leva a compreender outro episódio. Quando, em um dos e-mails que troca com Tony, Verônica diz que o pai começou a beber muito e faleceu há 35 anos, apenas cinco depois da morte de Adrian, não dei muita atenção. Mas quando o narrador nos diz que a mãe da Verônica teve um filho com Adrian há quarenta anos, a informação começa a ter uma razão de ser. Após a traição, que resultou numa gravidez, o marido começou a beber desenfreadamente, o que danificou o esôfago e causou sua morte.

Ainda no campo das dúvidas implantadas pela descoberta do provável caso da Senhora Ford com Adrian, ganha contornos mais acentuados o narrador ter falado que a sua primeira vez não aconteceu com Verônica.

Eu não era exatamente virgem, caso você esteja se perguntando. Contando com a escola e a universidade, eu tive alguns episódios instrutivos, cuja excitação foi maior do que a marca que eles deixaram. (p.18).

Assim, o conselho da Senhora Ford: não deixe Verônica fazer gato e sapato de você (p.22), acaba por instaurar uma ambiguidade discursiva: ou ela apenas estava preocupada com aquele rapaz inocente ou ela estava desqualificando a filha por outro motivo. Da primeira vez em que o episódio foi mencionado, achei que tivesse sido um comentário normal, coisa que um adulto diria a um jovem inexperiente. E, àquela altura, também não duvidei de que Verônica, o pai e o irmão haviam saído enquanto sozinhos o namorado ainda dormia sob a desculpa de que ele não gostava de acordar cedo. A Senhora Ford disse que essa foi a justificativa de Verônica para não acordá-lo. Mas teria, mesmo, Verônica falado isso?

Além disso, a expressão “episódios instrutivos” não se encaixa no campo semântico das expressões que, geralmente, são usadas para se referir ao fato de um jovem fazer sexo com uma mulher mais velha? Talvez a minha interpretação esteja pendendo para esse lado por eu querer acreditar que o narrador não mencionaria a frigideira na pia e os espermas na pia sem uma maior pretensão. E, aqui, não acredito que a pretensão seja a de afirmar que Tony e a Senhora Ford tenham se relacionado sexualmente, mas sim a de sugerir que isso seria possível. Afinal, fazer literatura não é exatamente se debruçar sobre o que efetivamente acontece, mas trabalhar a partir do que pode acontecer. E fazer o leitor acreditar nisso é indispensável para que o pacto ficcional efetivamente aconteça.

Apesar de inquietante, o fim do livro sugere uma resolução, ainda que não pacífica, para as principais questões apresentadas. Mas não dá para esperar a afirmação de uma verdade. Afinal, a verdade, tal qual a memória, pode ser uma coisa feita de retalhos e remendos. Assim, o modo como Adrian definiu “História” quando estava no colégio, também é útil para definirmos O sentido de um fim: é uma narrativa  fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação. (p.14).

Qual é a sua profissão? (Gillian Flynn)

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qual é a sua profissãoEu não parei de bater punhetas porque não era boa nisso. Parei de bater punhetas porque era a melhor. (p.65).

Não é todo o mundo que inicia um texto com uma frase assim  e tem a certeza de que, depois dela, o leitor não abandonará o texto. Não é todo o mundo que pode colocar uma frase dessas como início de uma novela e fazer com que o resto dê certo. Não é todo o mundo, é a Gillian Flynn, autora que conheci há alguns anos, quando li o maravilhoso Garota Exemplar. Desde então, procuro devorar toda e qualquer coisa escrita por ela. Quase toda. Sempre deixo algo “por ler” reservado para os os momentos em que a sensação de “não tenho nada para ler” decidir me atingir.

Qual é a sua profissão? foi publicado originalmente em uma coletânea, organizada por George R.R. Martin e Gardner Dozois, que, no Brasil, saiu com o título: O Príncipe de Westeros e outras histórias. Mas eu fiquei sabendo da existência da novela por causa deste post. (Obrigada, Anica!).

A novela, narrada em primeira pessoa, tem início com uma breve recapitulação da história da narradora, que cresceu pedindo esmolas e acabou por trabalhar batendo punheta para os mais diversos homens, vindos dos mais inusitados lugares, nos fundos de um lugar chamado “Palmas Espirituais”.  No tempo em que a novela se inicia, a narradora trabalha como vidente, pois adquirira LER, o que a impossibilitara de exercer o trabalho anterior com eficiência. Entretanto, ela ainda atende alguns dos seus clientes preferidos; um deles, com o qual discutia livros de terror.

Foi por causa da  profissão de vidente que ela conheceu Susan Burke, personagem responsável por transportar o leitor do ambiente cômico: local de trabalho de uma vidente que bate punheta nas horas vagas,  para o cenário de um filme de terror: uma casa antiga e que, segundo a dona, era mal-assombrada. Susan procurou a vidente por acreditar que a casa em que morava com o filho e o enteado estava influenciando, negativamente, o comportamento do enteado. Miles, de 15 anos, tinha um comportamento estranho que, segundo ela, se intensificou após a família ter se mudado para a mansão Carterhook.  O nome da mansão é bastante sugestivo. O “hook” nos remete à sonoridade de “look” que, por sua vez, nos conduz ao “Hotel Overlook”, de O iluminado, um dos clássicos do terror.

Ao chegar à casa de Susan, a narradora –  consciente de que era uma fraude, mas ávida por estender seu mercado de trabalho para o campo imobiliário –  que já havia arquitetado um plano para fazer uma “purificação” da mansão em doze meses, é surpreendida pela decoração vitoriana da casa.

Observei a casa. Ela me observou de volta, através de janelas longas e malignas, tão altas que uma criança poderia ficar de pé no peitoril. E havia uma. Vi o comprimento de seu corpo magro: calça cinza, suéter preto, gravata marrom perfeitamente amarrada ao pescoço. Um emaranhado de cabelos escuros cobrindo os olhos. Em seguida, um borrão súbito, ele saltou e desapareceu por trás das pesadas cortinas de brocado. (p.73)

Pode-se fazer uma analogia entre a pessoa que observava a narradora da janela – Miles – e o texto ficcional. A pessoa que aparece na janela é o texto visível, é o que impulsiona o leitor a se embrenhar texto adentro. Ele só faz o movimento de entrar no texto porque a pessoa desce da janela e desaparece. Fazer com que o personagem desça da janela é uma estratégia narrativa que não apenas instiga o leitor a perseguir a suposta pessoa como a colocar em cheque a sua capacidade de observação (realmente tinha alguém na janela?).  A partir desse momento, o leitor sente que precisa entrar na casa-texto.

A casa era composta por uma decoração mista: vitoriana por fora, moderna por dentro. Quando o leitor acompanha a narradora e entra na casa, ou seja, no texto, espera ver elementos que corroborem a caracterização externa, mas não é o que vê. Dentro da casa, a arquitetura moderna tenta extirpar os principais traços vitorianos da mansão.

A constituição da novela é perpassada pelo duplo, como a própria decoração da mansão sugere. É notável, e paradoxal, a descrença da vidente em coisas sobrenaturais e a crença de Susan no fato de que a casa tinha alguma coisa que afetava o comportamento do enteado. A vidente acreditava que o comportamento agressivo e imprudente de Miles nada mais era do que a manifestação das agruras por que passam os adolescentes. Já a dona da casa acreditava que o enteado estava determinado a matá-la e também a matar o irmão mais novo, a quem já havia ameaçado.

A novela começa a engrenar, efetivamente, quando a narradora, por intermédio de uma pesquisa na internet, descobre que a mansão Carterhook antes de ser a residência da família Burke, fora palco de acontecimentos sobrenaturais que culminaram com o sangrento extermínio de uma família. Então acontece a suspensão da descrença, o que é essencial para que todas as pistas dadas anteriormente comecem, efetivamente, a fazer sentido. Entre as pistas, pode-se destacar a recorrência do uso de verbos no Imperativo, tão característicos de livros e filmes de terror. Sempre aparecem personagens para dizer que as pessoas não devem ou devem fazer algo, e se os avisos são ignorados, as consequências costumam ser desastrosas.

— Eu espero que você saia e não volte. Para o seu bem. — Ele sorriu para nós duas. — Este é um assunto de família. Não concorda, mamãe? (p.76 – grifo meu).

Verbos no Imperativo denotam ordens, mas também avisos. É como se a exortação fosse uma estratégia textual de que o autor dispõe para dizer ao personagem: Cuidado, você é personagem de um Thriller e vai se dar mal. E o leitor de Thriller espera, ansiosamente, pelo momento em que os protagonistas ignorarão os avisos, porque essa transgressão é indispensável para o desenrolar da história.

A partir do momento em que a narradora começa a acreditar que a casa está mal-assombrada e decide sair correndo daquele lugar, a novela tem a sua primeira reviravolta e, quando começa-se a digeri-la, tem outra. O texto faz o seguinte movimento: quando o leitor acredita que a autora conduz a narrativa em uma direção, ela a desvia para outra. E se ele acredita que não há a possibilidade de uma história que começa com uma mulher batendo punheta e passa para uma mansão mal-assombrada funcionar, sugiro que ele acredite em Gillian Flynn. Eu acredito.

 

 

Freud, me tira dessa! (Laura Conrado)

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Freud-me-tira-dessaQuando comentei com a Laura Conrado que estava lendo “Freud, me tira dessa!”, ela ficou feliz e apreensiva. Ela logo me disse: “você é exigente”. Na hora, achei graça, porque, certamente, ela estava se referindo, inconscientemente, ao período no qual trabalhamos juntas. Naquela época, ela criava os textos e eu tinha a ingrata função de revisá-los. Não que eu tivesse muita coisa para corrigir, porque ela realmente tem uma intimidade muito grande com as palavras, mas sempre deixamos passar alguma coisa, não é?

Nunca fui uma leitora de Chick-Lit. Não por preconceito ou algo do tipo, a questão é que, talvez, nunca tenha chegado um Chick-Lit às minhas mãos quando eu estava procurando, avidamente, por um livro. Como, então, cheguei a “Freud, me tira dessa!”? Primeiramente, porque sou amiga da autora, e queria conhecer sua escrita literária; a jornalística, eu já tive o prazer de conhecer e de aprovar, mas a literária ainda era uma incógnita para mim. E outra coisa que fez com que eu me interessasse pelo livro foi o título. Gosto muito de Psicanálise, não como uma estudiosa, mas como uma curiosa. Leio artigos, livros e vejo palestras referentes à Psicanálise. Então, um livro chamado “Freud, me tira dessa”, chamou a minha atenção quase que imediatamente. Quando li o referido livro, ele ainda não tinha vencido o prêmio de melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Laurinha, toda animada, com o merecido prêmio de Melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Laurinha, toda animada, com o merecido prêmio de Melhor Chick-Lit Nacional de 2012.

Antes de começar a falar do enredo do livro, vou ser um pouquinho “exigente”, mas isso é só para que eu fique com a minha consciência tranquila. Deixe-me explicar melhor. Eu realmente acredito que deslizes ortográficos não comprometam a qualidade de uma obra, mas deixar de apontar a existência deles compromete a minha posição como resenhista. São coisas simples, como, por exemplo, a repetição de algumas palavras, que podem ser facilmente corrigidas pela responsável editorial em uma próxima edição do romance.

Agora, vamos ao que realmente interessa. No começo da leitura de “Freud, me tira dessa!”, já me identifiquei com a protagonista, Catarina, porque ela foi apresentada com toda a complexidade que é característica intrínseca aos seres humanos. O livro, que é narrado em primeira pessoa, começa com a protagonista “levando um fora” de um colega de trabalho com quem estava saindo. Ela teve de ouvir aquela velha história que tem, mais ou menos, o mesmo núcleo: “você é legal, é divertida, é uma excelente amiga, mas…”.

Catarina tem uma personalidade forte, e uma impulsividade que deixaria a pessoa mais impulsiva do mundo intrigada. Mas Catarina tem, antes de tudo, uma imensa dificuldade de gerenciar as suas emoções, o que acaba fazendo com que ela acredite que esteja destinada ao fracasso amoroso.

Catarina estava tão fragilizada emocionalmente que se poderia computar a quantidade de vezes que ela explodia, durante o dia. Depois do rompimento relatado no início do livro, ela foi a Divinópolis, visitar a família e tentar se recuperar do fato de, mais uma vez, sentir-se frustrada com a vida amorosa. Chegando lá, ela acabou se desentendendo com a irmã. Foi então que, ao conversar com uma prima, sentiu vontade de fazer psicoterapia.

Este coração já passou do prazo de validade, por isso, só gosto de cara errado.

Este coração já passou do prazo de validade, por isso, só gosto de cara errado.

Decidida a não amolar os amigos com o que chamava de “solteirice”, Catarina decidiu procurar ajuda profissional para lidar com a sua dificuldade em manter um relacionamento saudável. De maneira bem-humorada, ela dizia que “queria desativar o botão que repelia bons partidos e relações maduras. Sabia que tinha esse botão na cabeça.” (p.31) Por mais que se esforçasse para ter um relacionamento duradouro, Catarina sentia que sempre que permitia que os outros a conhecessem um pouco mais, acabava ficando sozinha e completamente exposta.

O enredo do livro se desenvolve a partir das sessões de psicoterapia às quais Catarina se submete, mas não fica apenas nisso. As sessões dividem o cenário narrativo com o ambiente de trabalho de Catarina e os locais de lazer que ela frequenta. A partir do processo de conhecimento de si que a Catarina passa, os leitores são apresentados à sua família, seus amigos, seu local de trabalho, entre outros.

E, à medida que Catarina começa a conseguir se enxergar, se conhecer, ela para de ser o seu próprio veneno e começa a ser a sua cura. O conhecer-se é o melhor caminho para se curar. Assim, mais do que torcer para que a Cat ficasse com o seu psicanalista, por quem havia se apaixonado durante as sessões de psicoterapia, eu confesso que torcia para que ela aprendesse a se relacionar consigo para compreender o modo como se relacionava com os outros.

Eu torcia para que Catarina percebesse que se relacionar é ficar exposto, deixar que os outros nos vejam como somos, e, quando eles não gostarem do que virem, sabermos lidar com isso da maneira mais digna possível. Mesmo que essa maneira seja, durante um dia, comer uma panela de brigadeiro e ouvir músicas depressivas e, no dia seguinte, seguir em frente.

Apesar de ter uma pegada existencial, o livro de Laura Conrado não é complicado. A autora adota o uso de uma linguagem simples e a tempera com uma pitada de humor que faz com que as complexidades do processo de cura pela fala não sejam vistas como fardos, mas sim como construtivas.

As estratégias narrativas de “Freud, me tira dessa!” contribuem para que, às vezes, pensemos que estamos lendo não um livro, mas o diário da Catarina. A escritora consegue imprimir um tom intimista ao texto de tal forma que o concomitantemente ao processo psicoterápico de Catarina, o leitor passa por uma autoanálise. Por se identificar com diversos aspectos da vida da protagonista, o leitor, ao mesmo tempo em que torce para que ela se cure, almeja, ardentemente, que quando o livro terminar, ele também encontre ferramentas para se curar. E anseia, então, que Freud o tire dessa!

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