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Hoje vai ser diferente (Maria Semple)

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Na Biologia, a Fagocitose corresponde ao processo utilizado pela célula para digerir alimentos sólidos dos quais se alimentará. Um dos agentes do processo é o lisossomo, que contém as enzimas digestivas e, por isso, cuidará de quebrar os alimentos para que a célula possa aproveitar os materiais de que necessita. Na Literatura,  semelhantemente ao processo celular mencionado, o romance é um gênero textual que tende a, de certo modo, se alimentar de outros gêneros, retirando-lhes os excessos para que eles caibam no todo que se intenta apresentar. Nessa analogia, o autor desempenha o papel do lisossomo, ou seja, é aquele que seleciona, dos mais diversos gêneros textuais, elementos de que necessita para criar o romance.

Autor é o termo que, aqui, emprego na concepção de Foucault, para quem a noção de autor é discursiva, isto é, o autor é aquele que tem um conjunto de textos ligados ao seu nome e que tem responsabilidade sobre o que coloca em circulação. Fiz a opção pelo termo autor porque escritor seria todo o indivíduo que escreve. Já o autor tem uma função social melhor delineada, e acredito que Maria Semple se encaixe nesse perfil. E, aqui, amparo-me, mais uma vez, em Foucault, que utilizou o termo “fundadores de discursividade” para designar autores que, mais do que construírem suas obras, ditaram as regras de produção de outros textos. Acredito que a autora em questão, embora tenha publicado apenas dois romances – três, mas o primeiro ainda não foi publicado no Brasil -, tem potencial para isso.

No domínio discursivo da Literatura Ficcional, o tipo textual predominante é o da Narração, que intenciona a imitação da ação pela criação de enredo, personagens, situações, tempos e cenários de forma verossímil. Nas práticas sociais, esse tipo textual tende a se materializar no gênero romance. Entretanto, uma olhada rápida nos romances que ocupam as prateleiras das livrarias evidencia que, dentro de um romance, convivem muitos gêneros. Logo, apesar de as sequências tipológicas predominantes em um romance serem as narrativas, ao entrarmos em contato com textos materializados nesse gênero é possível que encontremos trechos de textos injuntivos, descritivos, entre outros.

Não há gêneros textuais puros, e o romance talvez seja o melhor expoente da forma híbrida com que os gêneros se apresentam. A partir disso, quero utilizar a noção de gêneros híbridos como chave de leitura para escrever o texto em que tentarei, de algum modo, expressar o modo com que me relacionei com Hoje vai ser diferente, novo romance da roteirista e autora Maria Semple.

Hoje vai ser diferente. Hoje estarei presente. Hoje vou olhar no fundo dos olhos de todas as pessoas com quem conversar e vou ouvir com atenção. Hoje vou brincar com Timby. Vou tomar a iniciativa de transar com Joe. Hoje vou sentir orgulho da minha aparência. Vou tomar banho, me vestir bem e só vou usar roupas de ioga para ir à aula de ioga, à qual não vou faltar. Hoje não vou falar palavrão. Não vou falar sobre dinheiro. Hoje vou buscar a simplicidade. Vou exibir uma expressão relaxada e um sorriso. Hoje vou irradiar calma. Bondade e autocontrole abundantes. Hoje vou prestigiar os comerciantes locais. Hoje vou dar o melhor de mim, vou ser a pessoa que sou capaz de ser. Hoje vai ser diferente. (p. 09).

A narrativa começa impactante.  O ponto de vista, inicialmente centrado na primeira pessoa, imprime ao começo de Hoje vai ser diferente um tom intimista, o que se intensifica ao sermos colocados diante de um relato que se assemelha a uma espécie de oração, mas ao mesmo tempo a frases retiradas de um livro de autoajuda e, ainda, semelhante a sentenças em tom de promessa que poderiam ter sido proferidas por uma pessoa que sofre de depressão e trava uma batalha diária para sair da cama. Com um pouco de esforço, também é possível entender o “hoje vai ser diferente”, proferido por Eleanor Flood, do mesmo modo que entendemos o “meu próximo filme vai ser melhor”, lema de Ed Wood, personagem do filme homônimo dirigido por Tim Burton: como um mantra. Assim,  o “hoje vai ser diferente” de Eleanor Flood carrega em si a constatação de que o ontem não foi bom, e que é necessário que ela faça do hoje um dia no qual não irá “andar por aí como um fantasma, mal-humorada e distraída, anuviada e apressada”. (p. 13).

Todas essas nuanças, que somos treinados para capturar ao entrarmos em contato com alguns dos gêneros textuais que perpassam a vida  cotidiana, nos apresentam uma personagem disposta a tomar o controle de sua vida, plano que, como em um episódio de uma série de comédia, é logo frustrado pela avalanche de situações com as quais ela não pretendia lidar, mas das quais não pode mais fugir, nem pelo meio usual de fuga, a poesia. Eleanor faz aulas de leitura poética, mas não para ser poeta, é para tentar organizar suas ideias e escrever um romance de memórias em quadrinhos, para o qual foi contratada há algum tempo.

Ela tem aulas particulares  com o melhor professor de poesia da Universidade de Washington. O poema estudado no dia em que Eleanor decide que será a melhor versão de si  é “A hora do gambá”, de Robert Lowell, considerado o precursor da poesia confessional. Durante a aula, Alonzo, o professor, diz a Eleanor que esse poema “captura o momento em que Robert Lowell reconhece que está começando a entrar em depressão e vai ser internado.” (p. 34). Ele completa o raciocínio dizendo que o poeta John Berryman considerou o poema “uma visão catatônica de terror paralisante” (p. 34). As imagens visuais criadas pelo poema são retomadas ao longo do dia e da narrativa – que mescla o ponto de vista entre primeira e terceira pessoas –  quando Eleanor passa por situações constrangedoras que acabam por evidenciar seu estado de confusão mental. Estado sobre o qual ela fala de modo irônico e com comentários polêmicos e ácidos que, por estabelecerem um diálogo estreito com o tom de humor que perpassa o romance, são suavizados.

Sobre meu constante estado de confusão mental – falta de foco é uma expressão cada vez mais adequada -, permita-me dividi-lo em três categorias: (1) coisas que eu deveria saber, mas nunca aprendi, (2) coisas que prefiro não saber e (3) coisas que sei, mas com as quais acabo ferrando.

Coisas que eu deveria saber, mas nunca aprendi? Diferenciar direita e esquerda. Desculpe, mas é melhor perguntar o caminho para outra pessoa.

Coisas que prefiro não saber? Muitas. O cérebro tem capacidade limitada, principalmente o meu. Então tomei uma decisão administrativa: adotar uma postura agressiva de não me interessar por determinados assuntos, tais como o conflito Israel-Palestina, Lena Dunham, o destino das pinturas roubadas da casa de Isabella Stewart Gardner, o que significa OGM, a preferência de Timby por meias três-quartos cinco minutos atrás na Gap, e identidade de gênero. Se isso limita minha existência humana, eu aceito meu detino com estoicismo.

Hoje em dia a conduta predominante na sociedade parece ser: Eu tenho uma opinião, logo existo. Minha conduta? Eu não tenho opinião, logo sou superior a você.

Coisas que sei, mas com as quais acabo ferrando? Horários. Se tenho um almoço ao meio-dia e meia, escrevo 12h30 na agenda. Mas, nesse meio-tempo, acontece alguma alquimia no meu cérebro e 12h30 se torna 13h.

Seria de se esperar que, chegando ao teatro meia hora depois de abrirem a cortina (doze vezes!), eu teria aprendido a checar e rechecar o horário no ingresso. Mas não. Eu gostaria de saber explicar, mas não consigo. Um dos enigmas da vida. (p. 63).

Eleanor Flood tem quase 50 anos, vive em Seattle, é casada com Joe Wallace – cirurgião -, com quem tem um filho, Timby, de quase 10 anos. Depois de vinte anos de casamento, as coisas se tornaram monótonas e, na maior parte do tempo, Eleanor e Joe vivem como colegas de quarto. Tiram o lixo, fazem as tarefas de casa, levam o filho à escola, fazem piadas, se reafirmam enquanto ateus e não falam sobre o passado. Esse é o cenário apresentado no início do romance que, em um roteiro que segue o arco aristotélico, chamamos de Ato I, no qual temos, em um primeiro momento, a exposição, que cumpre o papel de apresentar os protagonistas, dizer quem eles são, onde vivem, o que fazem, enfim, é o que nos dá o ponto de partida. Após a exposição, entramos na segunda parte do primeiro ato de um roteiro: a oposição.

É nesse ponto que Eleanor Flood realmente sente que seu plano de fazer com que o dia fosse diferente será frustrado. Ela estava em uma de suas aulas de poesia, que teve de ser encerrada às pressas após, pela quarta vez em duas semanas, seu filho, Timby, ter passado mal na escola. Ela buscou o filho, passou com ele na pediatra e foi ao consultório do marido, que não estava lá. A partir de algumas situações e falas da gerente e da recepcionista da clínica em que trabalha o cirurgião, ela percebeu que alguma coisa estava muito errada. No momento em que estamos prestes a conhecer o que, na “Jornada do Herói” de Joseph Campbell é chamado de obstáculo, recebemos uma explicação sobre como foi moldada a personalidade de Eleanor. Essa informação será essencial para compreendermos o porquê de a personagem lidar com as coisas de um modo diferente do esperado.

Uma coisa que acontece quando um de seus pais é  alcoólatra é que você cresce sendo o filho de um alcoólatra. Para quem não tem esse histórico, preste atenção agora e acredite em mim: esse é o principal fator que determina a personalidade de alguém. Não me importo se você só tira nota dez, se casa com um santo, rompe as barreiras de uma profissão dominada por homens, ou se você se reergue de fracasso após fracasso entremeado por breves passagens por seitas e hospícios: se você foi criado por um bêbado, antes de tudo você é o filho adulto de um alcoólatra. Para início de conversa, isso significa que você se culpa por tudo, evita a realidade, não confia nas pessoas, faz o impossível para agradar. Nem todas essas características são ruins: perfeccionismo é o que torna um aluno o melhor da turma; dificuldade para confiar nos outro gera autossuficiência; baixa autoestima pode ser uma excelente motivação; se todo mundo fosse entusiasta da realidade, não haveria arte.

O bônus de ter um pai bêbado foi que, para sobreviver, eu me tornei estranhamente atenta às mais sutis inflexões e linguagens corporais. Joe chama essa minha percepção aguçada de “poderes de bruxa”.

Para qualquer outra pessoa, “Você voltou!” significaria “Que bom te ver! Quanto tempo”. Mas, para a filha de um alcoólatra com poderes de bruxa, significava: “Joe disse que vocês três estavam viajando”.

E foi nesse momento que meu dia realmente começou. (p. 53-54).

É com o suposto desaparecimento do marido de Eleanor como fio condutor que se desenrolam os segundo e terceiro atos do romance, quase roteiro,  de Maria Semple. Nesse emaranhado de informações, entramos em contato com um complexo exercício metanarrativo: o fazer poético se entrelaça com o fazer quadrinhos, que é entrecortado por memórias fragmentadas, que exibem lembranças episódicas, compostas por sinopses de roteiros de uma Sitcom – série de comédia que se faz a partir da exploração cômica de elementos da vida cotidiana – que fazem parte de roteiros que compõem o que poderíamos chamar de temporada de uma Sitcom, isto é, o romance em seu formato final.

A apropriação do formato de roteiro pelo romance, com o recurso da backstory – o passado da personagem até o momento em que a história começa –  também nos revela, a partir de uma narrativa fracionada, os acontecimentos passados da vida de Eleanor, e o desfecho dos capítulos-episódios, como em uma série de TV, nem sempre é satisfatório, porque eles se encaixam no todo, que ainda está sendo construído; se encaixam no livro de memórias de Eleanor, que está parado há oito anos, como está parada a sua vida, que foi “suspensa” depois que aconteceu uma coisa muito ruim. Descobriremos o que aconteceu de tão ruim ao montarmos o quebra-cabeça formado pelo decorrer da narrativa e pelos desenhos de Eleanor.

Maria Semple: roteirista e autora

No Ato II do romance metamorfoseado em roteiro, para a introdução de novos personagens, há a inserção de uma singela, honesta e sombria graphic novel na tessitura narrativa. Eleanor tem problemas com datas e nomes, por isso, marcou, sem perceber, um almoço com um homem que foi seu estagiário quando ela trabalhava como diretora de animação de uma série de TV, a Looper Wash, série da qual ela foi responsável pela “estética violenta retrô supercolorida” (p. 45). Durante o almoço, a graphic novel veio à tona.

Para apresentar-nos a graphic novel, entra em cena o quadrinista Daniel Clowes, um dos nomes mais impactantes da cena indie/alternativa/underground dos quadrinhos. O gênio que nos brindou com Ghost World foi ficcionalizado por Maria Semple, e, no livro, o personagem que encarna é ele mesmo. Daniel Clowes indica Eleanor, em 2003, ao Prêmio Minerva, dedicado a quadrinistas, pelas ilustrações que ela fizera para “As Garotas Flood”, um apanhado de imagens com palavras que objetivavam capturar lembranças das memórias da infância de Eleanor e da irmã, Ivy. Esse foi o presente de casamento que Eleanor fizera para a irmã. Nas palavras de Daniel Clowes, o da Maria Semple, não o “real”:

Diferentemente de muitas histórias sobre infância, As Garotas Flood soa direta e necessária. Apesar de ser densa com detalhes da época, não é uma viagem nostálgica. O ponto de vista é sincero e nada sentimental. Eleanor Flood consegue difundir imagens agourentas e misteriosas com delicadeza, o que é um talento raro, e estou ansioso para ver mais do trabalho dela. (p. 79).

“As Garotas Flood” funciona, no romance, como uma espécie de framing device, isto é, uma moldura que apresenta elementos importantes da trama. Mais do que quadrinhos dentro de um romance, “As Garotas Flood”é parte essencial do engendramento estético de Hoje vai ser diferente. Antes do aparecimento da graphic novel na trama, a informação de que Eleanor tinha uma irmã não fora fornecida aos leitores. Mesmo depois de, por intermédio das ilustrações da história em quadrinhos em questão, tomarmos conhecimento desse fato, não temos, de imediato, a confirmação de sua vericidade.  Timby, após ler “As Garotas Flood”, comenta com a mãe: “você nunca me contou que tinha uma irmã” (p. 83), e obtém como resposta: “As Garotas Flood é uma obra que representa dois lados de mim – expliquei. – Foi uma experimentação artística. Só isso.” (p. 84). Alguns parágrafos depois, Eleanor, na função de narradora, não de mãe respondendo ao questionamento do filho, confirma: “Para ser clara: eu tenho uma irmã. O nome dela é Ivy” (p. 84).

É então que, com um toque de humor, desponta o processo de elaboração textual predominante no romance: a técnica da inundação, isto é, a autora lança no novelo textual um mar de informações, aparentemente aleatórias, e, então, temos de fazer a articulação entre o que está na superfície e o que está no fundo do mar de palavras. Entre os momentos de exposição de situações absurdas e divertidas, encontramos as pistas que constituem o grande conflito da trama.

Concentramo-nos, durante a maior parte do tempo, no desaparecimento do marido de Eleanor e nas situações que sugerem que ele a traía. Isso, no terceiro ato do romance, revela-se um McGuffin, artifício que, em um livro policial, chamamos de pista falsa. Todos os supostos indícios de que Joe traía a esposa são pistas falsas, criadas por uma faceta da personalidade de Eleanor que a faz cultivar um sentimento de culpa paralisante.  Os motivos que fizeram com que Eleanor se rendesse à inação formam a pedra fundamental dos conflitos que desenvolvem a trama do romance: o rompimento com a irmã. Assim, o que Eleanor chama de “O Truque”, para se referir ao seu modo de lidar com as situações, é, também, uma estratégia narrativa utilizada por Maria Semple para construir seu romance a partir de uma estruturação que se utiliza de elementos de um roteiro.

Sempre que estou em uma situação social com uma pessoa, especialmente quando há algo em jogo, minha ansiedade dispara. Falo depressa. Mudo de assunto de forma inesperada. Faço comentários chocantes. Mas, antes de ir longe demais, retrocedo e exponho minha vulnerabilidade. Se percebo que vou ser criticada, me antecipo e me critico.

(Um psicólogo chamou isso de O Truque. No meio da nossa primeira sessão, ele interrompeu meu blá blá blá e disse que eu tinha tanto medo de ser rejeitada que transformava qualquer interação numa ofensiva de vida ou morte. E que o fato de eu ser tão falastrona me tornava, na opinião dele, intratável. Ele me devolveu o cheque e me desejou sorte.) (p. 85).

Essa estratégia narrativa fica ainda mais interessante quando nos damos conta da irônica associação que se pode fazer entre o sobrenome da protagonista, Flood, e o traço de sua personalidade denominado “O Truque”. Flood é um termo que, em inglês, significa inundar, transbordar. Nas interações intermediadas pela internet, o termo ganhou o status  pejorativo, uma vez que cometer flood seria algo como postar informações sem sentido, sem propósito, com o objetivo de turvar a progressão de uma discussão. Além de serem estratégias utilizadas para desviar a atenção do foco principal, no livro de Maria Semple os momentos de flood  também podem ser entendidos como recursos que suavizam a tensão do que se narra. Por isso, sequências narrativas como a do professor de Poesia de Eleanor que trabalha vendendo peixe em uma Rede de Supermercados, são extremamente divertidas não apenas pela comicidade, mas também por brincarem com a ideia de que professor ganha tão pouco que não consegue viver apenas de lecionar, precisa de profissões adicionais.

Encadeadas entre os obstáculos que Eleanor enfrenta enquanto procura pelo marido, estão passagens narrativas que nos apresentam Ivy, sua irmã mais nova, e o marido, Bucky. Este exerce, no romance, a função de antagonista, já que foi um dos responsáveis pelas irmãs Flood terem se afastado. Esses fragmentos de memória fazem com que tomemos consciência, por meio de situações e personagens pitorescas, dignas de uma Sitcom, de como Ivy conheceu o marido e dos eventos que culminaram no seu afastamento de Eleanor.

(Os próximos parágrafos contêm spoilers, a saber: a revelação detalhada de um dos mistérios do livro. Se quiser manter o suspense, o que recomendo, vá direito para os dois últimos parágrafos).

Depois de Eleanor fazer uma peregrinação por Seattle em busca do  marido, no Ato III ela finalmente o encontra e o clímax do romance, mais do que divertido, é brilhantemente construído. Como passamos os dois primeiros atos procurando pistas de que Eleanor estava sendo traída, acabamos por deixar passar detalhes essenciais, que foram dispostos no texto pela estratégia da inundação/flood. Compramos a ideia de que Eleanor fala muita coisa desnecessária para ocultar o que realmente importa e deixamos passar a principal pista, a informação de que o Papa estaria em Seattle.

Essa informação é inserida no romance por meio de um dos recursos mais consistentes do roteiro: o foreshadowing, que é como se tivéssemos contato com a sombra de um objeto antes de olharmos diretamente para ele. Mostra-se, de maneira sintética, algo que será indispensável para o que acontecerá no clímax ou na resolução da trama. Porém, como isso é feito de modo sutil, muitas vezes a sombra aparece e desaparece em um piscar de olhos, o que impede que consigamos visualizá-la.  Isso acontece em Hoje vai ser diferente quando Eleanor, como quem faz comentários despretensiosos enquanto espera pelo ônibus, diz: “Eu me esqueci de comentar que o Papa ia passar pela cidade? Pois é. Para um tal de Dia Mundial da Juventude. (Não parece um evento inventado pelo Coringa para pegar o Robin?) Sua Santidade celebraria uma missa no estádio dos Seattle Mariners no sábado.” (p. 58).

Eleanor comprou o Seattle Times depois de não ter encontrado o marido no consultório. Ao constatar que ele não estava no local de trabalho, ela se lembrou de que, pela manhã – depois de levar Ioiô, a cadela, para passear e antes do café -,  encontrou seu cônjuge em uma posição inusitada: “Joe curvado sobre a mesa, a testa no jornal, os braços estendidos ao lado da cabeça, como se tivesse sido sentenciado à prisão”. (p. 18). Na hora, ela achou estranho, porque não era um comportamento típico do marido, mas não comentou: “Porta fechada. Fui soltar a coleira de Ioiô. Quando me ergui, meu marido abalado já havia se levantado e sumido no escritório. O que quer que fosse, ele não queria papo. Minha reação? Por mim, tudo bem”. (p. 19). Eleanor acabou se esquecendo disso e só retomou, na memória, a cena do marido curvado sobre a mesa quando não o encontrou no consultório e começou a pensar que estivesse sendo traída.

Ao comprar o jornal, ela procurava por alguma notícia que pudesse ser a responsável pelo comportamento estranho que o marido demonstrara naquela mamãe. Como Joe era ateu, e boa parte do jornal falava sobre o Papa, ela concluiu que não havia nada ali que pudesse tê-lo afetado. Entretanto, mais tarde, quando Eleanor encontrou o marido, ele estava no estádio, se preparando para, junto dos demais membros de sua congregação, cantar para o Papa.

Joe estava com a testa no jornal porque, ao ver a notícia do Papa, se deu conta de que teria de contar à esposa o que estava acontecendo com ele. É hilariante o momento em que Eleanor confronta o marido e ele fala: “Eu descobri a religião” (p. 236). Ela dá a única resposta possível para um ateia: “Como assim, religião? – perguntei. Religião do kettle bell? Religião do Radiohead?” (p. 236). Os acontecimentos que sucedem a revelação são ainda mais divertidos. Os diálogos, banhados por um clima nonsense e ritmados por uma trilha sonora feita a partir de um coral de pessoas cantando para o Papa, assumem um consistente tom humorístico e satírico.

Em Hoje vai ser diferente, ao contrário do que acontece em Cadê você, Bernadette?, depois do plot twist, isto é, da reviravolta, a narrativa não perde o ritmo. No seu livro mais recente, Maria Semple parece ter aperfeiçoado o que começou a fazer no anterior: a criação de um romance a partir do formato de um roteiro de Sitcom. De analogias, poemas, ironias e humor cítrico – com um cheiro irresistível, mas com um sabor, por vezes, amargo – se faz Hoje vai ser diferente e, no processo, a gente se desfaz: em sorrisos, lágrimas, desconforto, digressões e em aplausos.

Comecei este post falando sobre gêneros textuais híbridos. Ao longo do texto, tentei realçar alguns dos elementos característicos de Hoje vai ser diferente, romance escrito por  Maria Semple, que apresentam estruturação comum aos textos pertencentes ao gênero textual roteiro. A partir disso, cabe mencionar que, além de algumas regras de construção previamente determinadas, os gêneros textuais se definem, também, pela situação em que se realizam, o suporte ou canal em que são veiculados e pela instância discursiva a que estão vinculados. Roteiros são escritos para serem filmados, não expostos em livrarias, com capa e divulgação específicas. Por isso, escrever um romance a partir de uma escrita recheada de elementos que se encontram em roteiros, é um traço estilístico da autora, cujas escolhas de escrita realçam o caráter essencialmente híbrido e antropofágico do gênero romance.

 

 

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Você teria um minutinho para ouvir a palavra de Jane The Virgin?

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janethevirginImagine que você se chama Jane Gloriana Villanueva (Gina Rodriguez),  tem 23 anos, está terminando a graduação em Inglês, sonha em ser escritora, mas teme não conseguir sobreviver às adversidades da profissão e, por isso, será professora. Por enquanto, você estuda e trabalha como garçonete, no Hotel Marbella. Familiar? Ainda tem mais. Você foi criada em uma família extremamente católica. Sua avó, venezuelana, te fez prometer que não faria sexo antes do casamento, porque essa era a vontade de Deus. Sua mãe, que tinha concepções de vida diferentes das de sua avó, queria ser cantora, e  batalhava por isso, enquanto se relacionava bastante com homens interessantes e não tão interessantes assim. Mas isso é questão de gosto, coisa que se discute, mas não neste post.

Xiomara (Andrea Navedo), mãe de Jane, era uma mulher que gostava de sexo, e não havia problema nisso, mas a mãe dela, Alba (Ivonne Coll), abuela de Jane, havia feito com que ela acreditasse que estava errada. O pai de Jane, bem, você não o conhece, e ela também não, pois sua mãe lhe disse que ele era do exército, e que havia ido embora. Na verdade, ela queria proteger Jane de uma verdade desconfortável. Aos dezesseis anos, Xiomara engravidou do seu namorado de escola. Ele queria que ela abortasse. Desde então, ela optou por deixá-lo fora da vida da filha. Afinal, ele não queria que ela existisse, não é, mesmo? Não, não é. As coisas não são tão simples, e definitivas, assim.

A avó de Jane, católica praticante, teve, como primeira reação, dizer à filha para abortar, mas ela não apenas não o fez como também não mencionou a sugestão à Jane. Ela não queria estragar a imagem que a filha tinha da avó, que, apesar de, nem sempre conseguir unir teoria e prática, era uma grande mulher. Xiomara  também o era, à sua maneira, e do jeito que sabia ser. As mulheres Villanuevas eram maravilhosas, fortes, decididas e unidas.

Nunca se esqueça disso, Jane, mesmo quando descobrir que sua mãe mentiu sobre seu pai. Você também passará por escolhas difíceis, e por situações complicadas. Você é virgem, e está grávida, pois foi inseminada por engano, e o filho não é do seu namorado, que em breve será seu noivo –  o policial Michael Cordero  (Brett Dier)-, é do milionário Rafael Solano (Justin Baldoni), um cara que te beijou há uns cinco anos, pegou seu telefone, e não te ligou. A esposa dele, Petra Solano (Yael Grobglas), viu que o casamento estava desmoronando, então decidiu jogar a última cartada: pediu para descongelar a amostra de esperma dele, e decidiu fazer a inseminação artificial.

Acontece que a médica que faria o procedimento era a irmã do Rafael, Luisa Alver (Yara Martinez), que após descobrir que a esposa a traia, ficou atordoada e, ao invés de fazer o exame de rotina em você e a inseminação na Petra, que estava no consultório ao lado, te inseminou com aquela que era a única amostra de esperma do irmão, que teve câncer e, antes de fazer o tratamento, decidiu congelar o esperma para que pudesse ter filhos no futuro.

Acho que é um bom resumo inicial, a partir daí, é com você. Não, não com Jane, com ela, também, mas especialmente com você que, acredito, nesse ponto já está morrendo de vontade de saber o que acontecerá com: Xiomara, Alba, Jane, Michael, Rafael, Petra e Rogélio De La Vega (Jaime Camil), o pai de Jane. Acredite, ele é um personagem sensacional, e indispensável para a série. Ou seria para a novela?

Jane The Virgin é uma série de comédia dramática que tem o estilo de uma telenovela (é necessário falar sobre Pastiche? Não, não é). Ela é uma adaptação de Juana La Virgen, telenovela venezuelana. E, como o formato da série é telenovelesco, podemos esperar por todos os clichês do gênero, mas não do jeito convencional. Eles são enredados na série de modo irônico, debochado e, claro, extremamente bem-humorado. Os rompantes dramáticos são bem encaixados e, melhor, são bem apresentados pelo narrador, que, sem sombra de dúvidas,  é um dos motivos pelos quais vale a pena assistir à série. A grande sacada do narrador está no fato de que ele antecipa as reações dos espectadores. Quando um momento de tensão se aproxima, ele começa a dizer que está preocupado e, ironicamente, quando a sequência revela algo perigoso, ele diz que não gosta de se gabar, mas estava certo. A identificação do telespectador com o narrador é imediata, e essencial para que se possa compreender a dinâmica da série, que tem muito mais.

orientacao

Apesar de Jane ser virgem, e acreditar na magia do amor, a série não fecha os olhos para outros pontos de vista.  Pelo contrário. A virgindade da protagonista é algo que, em certo ponto, se torna irrelevante, porque a série não gira em torno disso, antes ela se ocupa em mostrar os desdobramentos por que Jane passa no processo de se tornar uma escritora. Nos meandros desse processo estão muitos dos melhores momentos da série. É cativante ver os ensinamentos dos orientadores de Jane na Pós-graduação.

O primeiro orientador foca bastante em ajudá-la a trabalhar partes constituintes do processo criativo. Embora o gênero primordial de escrita escolhido pela Jane seja o Romance, ela parece ficar muito presa em sua própria perspectiva. A partir disso, seu orientador pede que ela escreva três contos: um de ficção histórica, para que ela possa sentir o tempo e o espaço; um de terror, para que ela possa trabalhar o elemento surpresa; e um de ficção científica, para que ela se permita ousar mais, quebrar as regras do gênero.

A segunda orientadora, feminista, faz com que a Jane repense seu estilo de escrita e, com isso, o telespectador é brindado com discussões bem elaboradas – divertidas, não maçantes – sobre o Teste de Bechel, por exemplo; especialmente quando o narrador começa a sublinhar se os momentos da série passam ou não no teste.

Eu disse, ali em cima, que ser escritora é o sonho dela, não disse? Bom, tem mais. Enquanto se torna escritora, ela também se torna mãe, namorada – a quem eu quero enganar? Não é óbvio que há um triângulo amoroso envolvendo Jane, Michael e Rafael? – , professora, entre outros. Voltemos ao ponto de ela se tornar mãe. Eu disse que ela acabou escolhendo ter o bebê? Não disse?  Mateo é uma criança adorável! E isso é tudo o que você saberá sobre ele, até começar a ver a série.

Enquanto Jane ainda não sabia se teria o bebê, discutiu-se sobre o aborto. Afinal, ela fora inseminada por engano. Embora a protagonista não tenha optado por abortar, foi interessante a série realçar que ela tinha uma opção. Embora pareça que eu estraguei a surpresa, você ainda não sabe se a Jane vai dar o bebê para Rafael, o pai, e Petra, a madrasta, criarem. Se eu contar todos os detalhes, para que você verá a série, não é, mesmo? Para conferir se o que eu falei é verdade? Eu ficaria ofendida, se não soubesse que narradores não são tão confiáveis assim.

Deixemos a desconfiança de lado para voltarmos a falar sobre a série. Jane The Virgin não é uma série que se vende como feminista, mas é mais certeira em discutir questões de gênero do que qualquer textão de Facebook. A série tem a sutileza de apresentar as opções e a coragem de escolher soluções para as quais muita gente torce o nariz. Jane The Virgin é leve ao abordar temas pesadíssimos. A ironia fina costura a trama; e o drama, mesmo cênico, parece natural. Como não ficar encantado pelo pai da Jane, o ator Rogelio De La Vega, uma versão moderna – paródica – do Zorro? Rogelio é extremamente vaidoso, e totalmente conectado: é usuário do Twitter, amigo de celebridades,  e, quando aparece, rouba a cena. Inclusive, ele está presente em um dos momentos mais geniais em que se discutem questões de gênero na série, o  décimo segundo episódio da segunda temporada.

Rogelio grava um episódio de uma telenovela que parece ter sido inspirada em Doctor Who: Tiago através do tempo. (Na verdade, é uma paródia de Quantum Leap, mas Doctor Who é uma referência mais conhecida, isto é, tem na Netflix, e isso, basicamente, é o que importa). O personagem dele, Tiago, viaja para a época do sufrágio. E a ironia é muito sutil, ele se exibe, como primeiro homem feminista, e diz que vai garantir que as mulheres tenham voto, que vai salvá-las. Momentos depois de terminar a gravação da cena, ele chama as atrizes: “venham sufragistas”, e diz que Xiomara, mãe de Jane, aceitou ser a Senhora De La Vega, ao que ela responde: “a não ser que eu queira manter o meu sobrenome”. Ele não gosta da resposta e depois aparece, ironicamente, a inscrição “primeiro homem feminista”, o que exibe uma crítica extremamente bem-humorada à ideia de que certos homens, embora tenham boas intenções e se coloquem como feministas, acabam por reforçar estereótipos de gênero.

Esse é o tom da série que, além de transitar pelas nuances dos romances policiais – crimes, traições, roubos, entre outros –  consegue nos ganhar nos mínimos detalhes, como o fato de os personagens principais estarem sempre com o celular por perto, e se comunicarem por mensagens em boa parte do tempo. Também há referências à cultura Pop, o que nos proporciona momentos divertidíssimos. Na segunda temporada há, por exemplo, menção a famosa regra dos relacionamentos no tempo atual: é necessário esperar o (a) namorado (a) para ver os episódios novos das séries. Por falar nisso, o que você está esperando para começar a ver Jane The Virgin?

 

 

A escuridão no fim do túnel (ou: algumas impressões sobre a segunda temporada de Demolidor)

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daredevilseason2teaser-170508Os dois primeiros episódios da segunda temporada de Demolidor são bastante introdutórios. Tem-se um panorama da Cozinha do Inferno após a prisão de Wilson Fisk, e a introdução de uma nova “ameaça”: um assassino implacável, com o diferencial de que, dessa vez, os alvos são pessoas que cometeram crimes.  Nesse contexto, a firma de advocacia Nelson & Murdock pega um novo caso.

O cliente é Grotto, que sobreviveu, o único até aquele momento, a um ataque do desconhecido assassino que assola o bairro nova iorquino em que vivem Karen Page, Foggy e Matt. A promotora Reyes – que encarna o papel de caça aos justiceiros – se dispõe a incluir o sobrevivente no programa de proteção à testemunha, se ele concordar em ajudá-la a encontrar o assassino. Ele concorda, é usado como isca, o plano da promotoria fracassa e começa o terceiro episódio, isto é, a segunda temporada começa efetivamente.

Como anunciei no título deste post, quero compartilhar algumas das impressões que me acompanham após eu ter assistido à segunda temporada de Demolidor. E, para fazê-lo, elegi o terceiro episódio da série, intitulado Para servir e proteger, como chave de leitura. A meu modo de ver, no episódio em questão são apresentadas situações que serão reiteradas e complementadas ao longo da temporada.

demolidzNo início do terceiro episódio, temos uma cena propositalmente borrada, que lembra um devaneio ou remonta lembranças de uma pessoa muito ferida. Na cena, Matt recebe cuidados em um lugar que parece ser uma igreja. No plano seguinte, ele aparece em um telhado, acorrentado. Pouco tempo depois, descobrimos que seu algoz é o assassino – a quem a promotoria, a mídia, a polícia e os civis chamam de Justiceiro – que estava exterminando os criminosos de Hell’s Kitchen. A partir daí, o episódio se desenvolve de um modo fascinante. O Demolidor e o Justiceiro travam um diálogo filosófico que é um dos grandes momentos da temporada e, depois, com o desenrolar dos acontecimentos, temos a magnífica cena da escadaria, que está para a segunda temporada como a cena do corredor está para a primeira.

Mais do que os melhores diálogos e a segunda melhor cena de ação da série, o terceiro episódio funciona como uma espinha dorsal da segunda temporada e sustenta reflexões sobre a figuração dos heróis e vilões, suas motivações, suas dúvidas e suas certezas.  É irresistível a tentação de procurar um elo entre a conversa que Matt e Frank tiveram sobre o que os diferencia e os aproxima e a cena da escada. Frank acredita que assassinar criminosos confessos e não confessos é um trabalho que tem de ser feito, e ele é a pessoa disposta a fazê-lo. Em contrapartida, Matt acredita que tirar a vida não é algo que cabe a quem quer que seja, e que dar uma segunda chance às pessoas é o certo a fazer.

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O campo do simbólico no episódio é muito vasto, por isso elegi dois elementos a partir dos quais podemos começar a pensar a segunda temporada de Demolidor: as correntes presas ao corpo do Matt e a escadaria na qual ele trava um combate. A imagem do Demolidor acorrentado é uma referência direta aos quadrinhos do Justiceiro. E o teor da conversa, na qual Frank disserta sobre a ideologia que o norteia a fazer uso da violência extrema, também é algo presente nos quadrinhos. Só por isso, a cena já seria icônica. E ela traz mais; nos faz encarar o vocábulo “correntes” e a avalanche de discursos que perpassa esse significante. Grosso modo, corrente é o símbolo das relações entre o céu e a terra. Para Platão, há uma “corda luminosa” ao redor do mundo. Ela cumpre o propósito de unir o céu e a terra. Na mesma pegada, sobre a escada paira o simbolismo do problema entre o céu e a terra. No âmbito artístico, vê-se a escada como suporte para a ascensão espiritual.

A oposição entre o céu e a terra é análoga à figura do Demolidor. Mattew Murdock é católico e, como tal, trava batalhas barrocas entre o certo e o errado e, no processo, por vezes é corroído pela culpa. A ideia da escada sustenta a leitura que é chave para a conceituação do Demolidor. Durante o dia, Matt está nos tribunais, defende pessoas conforme os parâmetros da lei. Está no topo, sob o sol, sob a luz, sob os olhares. À noite, ele se transforma no Diabo de Hell’s Kitchen. Vai ao submundo, inferno, do bairro em que vive, esconde-se nas sombras e, a seu modo, combate o crime. O desafio que ele encontra é o de buscar o equilíbrio entre as duas faces da sua personalidade. Na maior parte do tempo, ele não encontra o equilíbrio; por isso, sua firma de advocacia fracassa.

Daredevil-Charlie-Cox1Na segunda temporada da série, a dinâmica do Matt sob holofotes e do Matt sob as sombras pode ser lida a partir do modo com o qual ele se relaciona com Karen Page e com  Elektra Natchios. A primeira, que já havia sido apresentada na temporada anterior, e assim como a segunda, é uma velha conhecida dos leitores de quadrinhos, é muito bem trabalhada nesta temporada.  Seu relacionamento com Matt fica mais no campo do que é “puro”, para usar uma palavra cristã, isto é, do que é  socialmente aceito. Porém, Karen dá a entender que não condena completamente os atos do Justiceiro. Ela diz que sabe que o que ele faz é errado, mas começa a titubear quando admite, com certo receio, que os assassinatos dele podem ter um efeito positivo no que tange à segurança das pessoas que vivem em Hell’s Kitchen.

Por outro lado, quando está com a Elektra, Matt age de modo mais enfático. Ele continua sendo contra métodos de extermínio, mas se permite ser mais direto. O que ele reprime na presença da Karen Page, sai por entre os dedos quando a Elektra está em cena. Esta, em detrimento daquela, mata com uma certa facilidade. Apesar de se distanciar da Elektra dos quadrinhos em diversos aspectos, a da série conserva algumas características inconfundíveis: a perspicácia, a precisão para cumprir as missões às quais é designada, entre outros.

De volta à simbologia da escada no terceiro episódio da segunda temporada, pode-se perceber que Frank permanece no alto, terraço, o que pode simbolizar a psicose oriunda do trauma (supostamente) advindo do fato de ele ter tido a família exterminada. Ele está imobilizado, mas dá pra fazer uma leitura com viés psicológico; ele acredita que tem uma missão, ela está cima de quase tudo. Mas o Matt, bem, ele desce. Não apenas do terraço/telhado; ele desce ao seu inferno pessoal, sua consciência. Ele é católico, tem a oposição céu/inferno encrustada na sua formação e tem de lidar com freios morais, correntes metafóricas. Sua sanidade é questionável também, claro, mas ele é mais consciente do que o Frank, que revive/reencena a morte da família diariamente, enquanto, do seu jeito torto, “combate” o crime. Aqui, caberia uma reflexão sobre o estatuto da violência e a incoerência de tentar resolver os problemas da violência por meio de atitudes e leis violentas.

Achei particularmente sublime a ideia de que os dois estavam no “topo” e, quanto mais pessoas o Matt socava, mais ele descia. É como se a linguagem narrativa nos desse a oportunidade de brincar com a ideia de herói. Matt, e qualquer outro herói, não é superior a ninguém por fazer o que faz. Seus pés seguem para o térreo, o chão, onde estão os pés de quaisquer pessoas. Toda aquela sequência da escada foi linda demais. Foi claustrofóbica e, como eu disse, carregada de símbolos. A iluminação, o som, as imagens, enfim.

Como já mencionei, acredito que dê para comentar a segunda temporada da série com base no terceiro episódio, e isso se confirma no nono episódio: Sete minutos no paraíso. O título nos remete à uma brincadeira na qual um menino e uma menina entram em um quarto, fecha-se a porta e, depois de sete minutos, eles são alertados de que o tempo passou. Geralmente, brinca-se disso em festas de adolescentes e se coloca, propositalmente, meninos e meninas que tenham interesse um no outro. O que acontece no quarto durante os sete minutos não precisa ser revelado para as pessoas que permanecem fora dele. No episódio, a ideia de se estar frente a frente com uma pessoa a portas fechadas é vivida por Frank Castle. Ele tem a oportunidade de ficar diante de alguém que pode lhe dar informações sobre Blacksmith, pessoa que supostamente é culpada pela morte da sua família.

O título do episódio nos remete, também, ao paraíso: céu. Além disso, aparece o sete, que é um número significativo e emblemático. Ele corresponde aos sete graus da perfeição, além de ser visto como o símbolo universal de uma totalidade. Entretanto, como boa parte do episódio se passa na cadeia, percebe-se que há um deslocamento do sentido da palavra paraíso. Matt aparece neste episódio em uma situação semelhante à do terceiro episódio. Quando ele se encaminha para o “buraco” da “Fazenda”, com o objetivo de descobrir o que aconteceu com crianças que sumiram, focalizam-se escadas de um jeito que lembra o enquadramento das escadas no terceiro episódio. A pegada da “derrocada” e da “ascensão” é muito forte no episódio também.

E há uma claridade nauseante na cena da cadeia. A luta principal acontece sob luzes fortes, que realçam, de modo claro, os movimentos certeiros de Frank Castle. Luz essa que também enfatiza a figura do Rei do Crime que, sentado à beira do leito do homem que Frank Castle ferira gravemente, saboreia um bife, e diz ao moribundo que os seus pulmões se encherão de sangue. Ele termina o discurso dizendo que só há lugar para um Rei do Crime na prisão. A câmera se afasta e, lá no fundo, como em um túnel, vemos Wilson Fisk em toda a sua majestade. Rei do Crime: nomeado e coroado. É uma cena fantástica.

Algo que me agradou, bastante, na temporada foi a divisão dos episódios em arcos. Os arcos do Justiceiro e da Karen Page foram superiores ao da Elektra, mas talvez isso seja fruto da expectativa. Eu esperava muito do arco dela, e me decepcionei com a maneira com a qual ele foi conduzido nos episódios finais.  Ainda sobre os arcos, acredito que eles sigam uma estrutura de túnel na configuração dos episódios. Quando se está em um túnel, olha-se para frente, para aquela luzinha que tem no fundo dele, o objetivo. Na segunda temporada de Demolidor, cada personagem é conduzida por um túnel distinto e, eventualmente, os túneis se encontram, formam encruzilhadas. E, lá da prisão, Wilson Fisk coordena o encanamento por que passam os dejetos de Hell’s Kitchen. Encanamento que perpassa todos os túneis. Todos os caminhos passam pelo Fisk. Acho que, em termos de roteiro, é uma escolha justa. Arriscada, mas justa. Para ser Rei do Crime, é necessário saber reinar em qualquer lugar.

Não sei se para reforçar – ou forçar – o simbolismo, mas a escuridão que predomina nos episódios é bastante forte também. E aqui, entro num campo bastante pessoal: me incomoda muito. Acho que a escuridão atrapalha a visualização de certas cenas e me pergunto se ela não está lá para disfarçar o fato de que, tirando a cena da escada e a cena da cadeia, as outras foram mal coreografadas. Acredito que os diálogos da segunda temporada sejam melhor empregados do que os da primeira – que, invariavelmente, serviam apenas como ponte para as cenas de luta -, mas isso não significa que eu ache plausível a exibição de cenas de luta confusas.

Ainda sobre as coisas que me incomodaram na série, ressalto os desfechos corridos e ineficientes. A narrativa do Tentáculo (The Hand/A mão)  deixou muito a desejar.  E, nisso, a Elektra foi prejudicada. Já que ela foi posta como o Black Sky – Céu Negro -, deveria ter puxado o desenvolvimento da história do Tentáculo, que era para ser a “grande surpresa” da temporada, mas não passou de uma trama que, por ser mal desenvolvida, tornou-se desinteressante.

Céu Negro foi citado uma vez na história, quando Stick explica ao Matt qual é a batalha que ele travaria, e só voltou a ser mencionado no décimo segundo episódio. Com isso, a Elektra foi bastante descaracterizada. A personagem é ótima. Frank Miller criou uma personagem resistente e complexa. Ela teve uma ascensão brilhante, ao longo da série, mas a pressa dos episódios finais fez com que a personalidade dela fosse condensada, distorcida. A Elektra não é apenas a adaga sai – que, na série foi conseguida de um jeito bastante torto. Entretanto, o último episódio sugere que tanto a trama da Mão quanto a história da personagem Elektra serão retomadas na próxima temporada, o que pode sinalizar para o fato de que as coisas serão melhor explicadas.

Outra resolução que bastante desleixada é a do Blacksmith. Quanto a ele ser o Coronel Ray Schoonover, tudo bem, é plausível – embora, nos quadrinhos, ele seja um Skrull -, o que não funciona é o fato de ele ter sido abatido com muita facilidade. Ele esteve na guerra, é um estrategista, e não teve quase nenhuma reação diante do Frank. Achei que ele ofereceria um pouco mais de resistência.

Ainda sobre o Coronel Ray Schoonover, a casa dele, vista do lado de fora, me lembra muito a atmosfera da casa de The Amityville Horror.  É curioso que quando Stick estava sendo torturado, e teve entalhes de madeira enfiados nas unhas, ele tenha dado uma  risada desesperada e lunática que, associada aos dedos prolongados pelos palitos neles incrustados,  por alguns segundos, fez com que a sua fisionomia se assemelhasse à do Freddy Kruegger, de A hora do pesadelo. Tais fatores me levam a pensar que foram inseridas algumas homenagens ao gênero “Terror” na segunda temporada de Demolidor.

A escuridão no fim do túnel, título do décimo segundo episódio que peguei emprestado para nomear este post, remete a uma postura niilista: não há luz no fim do túnel, há mais escuridão. Mas talvez a grande questão seja descobrir que o túnel não tem fim. Conceitualmente, concebemos o túnel como algo que conecta, por meio da escuridão, uma zona de luz à outra. Ele é o símbolo de todas as travessias. Mas quando se assume que no fim do túnel há mais escuridão, mergulha-se no desespero. Talvez a luz que esteja embaçada pela escuridão seja esta: a ideia da continuidade, da vida, que pode ser um tanto quanto claustrofóbica, mas também pode nos proporcionar momentos de frestas de ar e de esperança. E, mais do que isso, é importante que tenhamos em mente que não é necessário chegarmos ao fim do túnel para que possamos começar a viver. É dentro do túnel que estão a luz e a escuridão, é dentro do túnel que estamos.

 

 

O que Maurício Schütz, Leo Verissimo e Cleonice Machado têm a dizer sobre “Love”, nova série da Netflix

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love20161181318705Em tempos de Netflix, assim que surge uma nova série, a gente precisa maratonar, pra não levar uma cusparada de spoilers na cara. Mas a verdade é que eu não sinto vontade de ver metade das séries que aparecem. Então, quando surge uma série cujo trailer chama a minha atenção, eu pego uma garrafa de café, sento em  frente ao Peeta [neste post, eu posso ser estranha e dizer que cometo o pecado de nomear PC/notebook/whatever] e só saio quando termino de devorar os episódios. Não, eu não sento em frente ao Peeta, porque maratonar série não é algo possível quando se vive em uma cidade e trabalha – oito horas por dia – em outra. Boa parte do meu tempo “livre”, eu passo dentro do ônibus e, quando chego do trabalho, tento ver um episódio por dia. Foi por isso que levei mais de uma semana para ver Love, série que foi disponibilizada na Netflix no dia 19 de fevereiro.

De uma série do Judd Apatow, a gente espera pessoas depressivas, ferradas, fracassadas, e extremamente divertidas. Não conscientemente divertidas, mas acidentalmente. Personagens do Judd Apatow sempre passam pelo crivo do desvio. Não é diferente com os protagonistas de Love: Gus (Paul Rust) e Mickey (Gillian Jacobs). Duas pessoas que se conhecem por acaso, ele paga a conta dela numa “vendinha” para evitar que ela fizesse um escândalo. Sim, o cara tímido, nerd, aparentemente altruísta, conhece uma garota espalhafatosa, exaltada, inteligente, encantadora e assustadora. Não se enganem, nenhum dos dois se manterão nos estereótipos que acabei de descrever. E aí está o motor da série, que não segue a fórmula de comédias românticas.

Há um caminhão de situações constrangedoras na série.  Há um balaio de expectativas criadas e soterradas. Há uma infinidade de palavras ásperas, de comportamento grosseiro, egoísta, entre outros na série. Mas isso não é privilégio de comédias românticas. Viver é enfrentar e desviar de constrangimentos mil, é ferir e se ferir. Viver é sentir medo em boa parte do tempo. A vida adulta nada tem a ver com não sentir medo. Adultos sentem medo, sentem pavor, mas a diferença é que eles sabem que, mesmo com medo, precisam continuar.  Às vezes, continuam sozinhos; às vezes, acompanhados. Prefiro este modo àquele.

É por isso que, para continuar a falar sobre a série, escolhi chamar dois queridos amigos: Leo Verissimo [Nunca errei a escrita de Verissimo, porque amo o Luis Fernando Verissimo, e sempre soube que não tem acento. Também não tem acento em “Leo”, que é nome, não apelido] e Maurício Schütz [eu não sei se tem o trequinho – ¨ – no “u” de Schutz. Nunca perguntei, mas agora surgiu a dúvida. Minduim, por favor, me diga se tem o trequinho no “u”. Eu nunca te pedi nada, Minduim, TEM O TREQUINHO NO U DO SEU NOME? Acento em Mauricio, eu espero que não tenha. Se tiver, escrevo o seu nome errado há quase uma década].

Tem circulado no Facebook uma brincadeira de séries. Série que mudou sua vida, série preferida, série que você indica, entre outros. Um dos amigos em questão, fez a lista. Fui lá comentar e, em um dos posts, perguntei se ele havia começado a ver Love. Os comentários que seguem foram retirados, com a autorização dos dois [quando vocês curtiram o comentário em que falei que compilaria os posts para um texto do Livros Legendados vocês deram a autorização, não foi? NÃO FOI? MENINOS, CÊS TÃO ME OUVINDO?], da conversa que tivemos, ao longo da semana passada, sobre a série.  Se vocês, como eu, têm problemas com spoilers, não leiam. Mas já aviso: vocês vão perder análises bonitinhas e constrangedoras de uma série que tem uma das visões mais realistas e devastadoras sobre relacionamentos.

Eu: Cê [Leo] chegou a dar uma olhada em “Love”, nova série da Netflix? Tô recomendando pra todo mundo (e só vi três episódios). A série é como um álbum, cheio de retratos que servem como um registro não do que o amor deveria ser, mas de como ele, em muitos casos, é. Então a gente começa a folhear o álbum e se depara com momentos bonitos, constrangedores, desesperadores, enfim, com um tanto de plásticos do álbum vazios, espaços que deveriam ter sido preenchidos pela negociação das diferenças gritantes para que o relacionamento amoroso funcionasse. (NETFLIX, QUE TAL ME CONTRATAR PRA FAZER REVIEW DAS SUAS SÉRIES?).

Leo: go make lasagna with your mom and leave us alone! tinha começado a ver hoje, o primeiro episódio é meio qq coisa mas no segundo já fica bem legal.

Eu: Sim, a partir do segundo, a coisa engrena. O primeiro causa estranhamento, aí a gente sente vontade de ver o segundo para descobrir o porquê do estranhamento.

 

Alguns dias depois…

Eu: Cê tá em qual episódio? Queria comentar um trem do oitavo e do nono, mas pode ser spoiler.

Leo: vi tudo.

Eu: Já que você viu: EU FIQUEI MUITO PUTA COM O GUS NO OITAVO E NO NOVO EPISÓDIOS [não terminei de ver o nono episódio, tô vendo o Galo, mas quando terminar, imagino que ficarei com mais raiva que já tô]. E também fiquei puta com a Mickey manipuladora sendo escrota com a Bertie [adoro a Bertie].

Leo: acho que ele agiu de um jeito bem difícil de empatizar mesmo, mas sei lá, faz parte, na vida real todo mundo é meio escroto também e tal.

Eu: Mas é aí que tá: porra, não é normal ser escroto daquele jeito, caralho. Não é normal. É real, mas não normal. Não deveria ser naturalizado. Sei lá, fico meio puta. [lembrando que: Mickey também é escrota com as pessoas, manipuladora da porra. Mas foi foda].

Eu: O comentário ficou sem nexo porque o Galo fez gol, aí eu me perdi e não disse o que eu não sei mais que iria dizer. hahahahah.

Leo: haha se é normal ou não eu não sei, mas…

Leo: acho que o ponto é que a ex-namorada dele tava certa, ele é ‘fake nice’ e cheio dos problema. Na hora eu achei meio esquisito, mas acho que ali a série mostrou que ia ser diferente de comédia romântica e tal. Menos relações são dificeis pq ~circunstâncias~ e mais são dificeis pq é todo mundo meio zuado.

Leo: but I afraid maybe this is girls all over again.

Eu: PORRA, ERA ISSO QUE EU QUERIA FALAR ANTES DE PERDER O FIO DA MEADA POR CAUSA DO GOL. ESSA PORRA VAI VIRAR GIRLS. JÁ VIROU. E EU NÃO DOU CONTA DESSA PORRA.

Leo: acho que não vai virar girls não.

Eu: Faço miçanga com drama, desculpa. Mas sei lá. Sim, é todo o mundo meio [muito] zuado. Mas… [acho que meus comentários não saem – dessa vez, foi o gol de empate – porque eu super tenho receio de fazer certos comentários nos posts alheios e o povo achar ruim por se identificar fortemente com o que eu tô comentando/criticando. Por exemplo: eu falaria um tanto de treco {que poderia soar ofensivo} e completaria com: “e não diga que a solução pras pessoas não se machucarem tanto é relacionamento aberto, porque eu vou mandar enfiar o relacionamento aberto no cu. E eu não tô enchendo o saco da galera que tá em relacionamento aberto. Todo mundo sabe o que funciona e tal. Só quero dizer que essa parada de as pessoas ferrarem umas com as outras acontece em qualquer relacionamento, porque não é a quantidade de pessoas com as quais se relaciona que está em jogo, é como você se relaciona consigo e com seja lá quantas pessoas, whatever.”]

Eu: Gus é um cara que rejeita qualquer coisa que saia do script [daí é super normal que ele e a Mickey só tenham se conhecido por causa daquele contexto específico. Em outros termos, eles não se encontrariam em um local de lazer, por exemplo, porque têm concepções diferentes do que é se divertir]. A Mickey rejeita qualquer coisa que esteja no script. Só isso aí já é motivo para a coisa ser infinitamente complicada. Só que acaba havendo uma inversão [um gancho genial]: Gus acaba sendo O ESCROTO, o que ele não parecia ser, e a Mickey acaba sendo A ESCROTIZADA [e ela super fazia o tipo de quem era escrota com todos, como a gente vê naquela festa da amiga dela e talz]. E quando isso acontece, eu meio que perco a boa vontade e paro de tentar entender as peculiaridades de cada um e começo a me estressar com o Gus.

Eis que chega o Minduim. Ele traz café e posts bastantes interessantes para a “Mesa-redonda sobre Love“. [Como vocês poderão perceber, ele traz a certeza de que sou a única dos três que desrespeita as normas de escrita internética. Eu não consigo deixar de sair botando letra maiúscula em tudo, mesmo sabendo que não se faz isso na internet. Aliás, eu também sei que caixa-alta, na internet, significa grito e, ainda assim, não consigo deixar de usar. SIGAM O EXEMPLO DO MINDUIM E DO LEO E NÃO DESISTAM DE MIM].

Maurício: mickey tá sendo a escrotizada, mas ela é bem escrota ainda e, principalmente, muito auto-envolvida. e acho que é isso que faz ela meio sabotar a relação dela com o gus, ela imediatamente transformou a relação dos dois num pathos necessário na vida dela, precisando que isso dê certo. e isso só amplificou as babaquices do gus.

ao mesmo tempo, eu curto que esse desespero dela por contato humaniza ela muito mais do que ele – ele com certeza saiu de babaca na história, merecendo, mas ele também caiu numa situação meio foda, ele é o projeto do ‘nice guy’ que vai salvar ela.

e eu naturalmente me identifico mais com a pessoa em casa stalkeando compulsivamente a outra

Ao contrário de mim, Minduim não sai escrevendo um tanto de coisa sem parágrafo. Até pensei em tirar o espaço entre as frases dele, mas sei que ele detesta blocos enormes de texto.

Leo: vê o décimo e a gente fala mais

Maurício: (apertei enter sem querer, ops)

Leo: a wild maurício appears!

Leo: mas é, concordo com tudo.

Eu: Vou comentar seu post, Minduim, mas, primeiro: PUTA QUE PARIU [PONTO DE EXCLAMAÇÃO, meu teclado tá pifando e o ponto de exclamação não funciona]. Quando vi outra pessoa, sem ser o Leo, comentando, pensei: “caralho, alguém ficou ofendido com algum comentário torto que fiz”. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Leo: (a gente devia ter um podcast)

Maurício: eu ouviria vocês, nem que só pra descobrir se a cleo fala tanto quanto escreve.

Ao invés de dizer: “que mané ouviria, você também PARTICIPARIA”, lá fui eu escrever textão pra confirmar que falo muito.

Eu: ahahah o pior é que falo. Há uma caralhada de tempo, lembro de o povo da Valinor ficar me enchendo o saco para entrar no skype e tal. Aí que eu entrei. E aí que eu falo muito, e falo rápido e, dizem, meu sotaque é muito carregado [mas eu nem acho que tenho sotaque; sério]. Então que, um dia, depois de algum tempo que eu tava falando sem parar, algum usuário do fórum, que nem lembro mais quem é, disse: “agora eu entendo o fato de a Cléo usar uma foto da Lorelai como avatar”. hahahahah

Não satisfeita, fui lá e escrevi outro comentário enorme.

Eu: Gente, mas faz mais de meia hora que eu disse que comentaria o treco que o Minduim falou [eu tava terminando de ver o nono episódio. Nossa, passei muita raiva.]. E a coisa passa por aí, mesmo: Mickey é escrota [já falei três vezes que ela é escrota com a Bertie e que eu gosto da Bertie, mas falarei mais uma vez, gente, eu preciso falar, EU PRECISO.], Gus assume o estereótipo do “nice guy”, mesmo, o que não dá muita chance para ele: a gente compra a ideia de que ele vai salvar a Mickey [essa porra é inconsciente. Racionalmente, a gente sabe que isso de salvar não funciona e coisa e tal], e, não concebe a ideia de ele ser menos do que a gente esperava que ele fosse. Tipo aquele episódio da Mágica lá. Gus é a pessoa mais fantástica do mundo no restaurante. Muito fofo ele pedir o treco lá por causa do molho que ela queria.

Em compensação, no trem de mágica, ele não dá espaço para a dissonância. Eu sei, eu entendo, é meio involuntário. A intenção dele foi ótima. Ele adora mágica, e queria compartilhar isso com a Mickey, mas ela não gosta de mágica, e tem uma concepção bastante diferente do que é mágico [confesso que, embora eu goste de mágica, estou com a Mickey nessa de a mulher que tava na entrada, fascinada com a coisa toda, era a verdadeira mágica da parada toda]. Tudo bem, até aí, tava ok. Mas na hora do casaco [nossa, gente, para. Eu sinto frio o tempo inteiro, pô, super quase senti frio quando a Mickey tava reclamando do frio hahaha], ele culpou a Mickey por ela sentir frio. Tá, ela deu show, haha, mas o ponto nem é esse: ele ficou puto com ela por ela não ter a reação que ele esperava.

Repito: Mickey é manipuladora, escrota, e tudo o mais. Mas a gente sente empatia por ela quando ela assume que ferra tudo, e que vai ferrar tudo mais uma vez, como sempre faz. Precisa que dê certo, porque nada mais dá certo [minha filha, não tem como isso funcionar]. E ela não vai se debruçar sobre os motivos de nada mais dar certo. Não vai. Tentará o caminho “fácil”. E, sobre o Gus, lançamos expectativas inatingíveis, mas ele ultrapassa os limites nos episódios 8 e 9. Não sei se ele vai recuperar meu afeto [meu Deus + um ponto de exclamação], acho difícil. Fiquei bem puta com ele no nono episódio.

NOSSA, EU QUASE ME PROMETI QUE NÃO ESCREVERIA MUITO. AINDA BEM QUE NÃO PROMETI. DESCULPA. VOU VER O DÉCIMO EPISÓDIO.

No dia seguinte [03 de março]:

Maurício: eu curto que ele tenha feito isso, haha. é algo que torna mais difícil de lidar com o personagem, mas essa inversão das minhas expectativas pros papéis deles eu acho bem interessante

e eu concordo em geral com o que rolou no magic castle, foi meio uma sequência de erros — mas ela foi bastante cínica, também, em nenhum momento tentando entender o que atrai ele na mágica (e ele não tentando entender a reação dela à mulher, etc); a treta com o casaco eu culpo a administração do lugar, mesmo haha. e acho que ele ficou mais irritado por se constranger num lugar que ele gosta do que pelo frio? algo assim

(não sei se parece, mas eu curto mais a mickey, as únicas coisas que ela faz que me irritam mesmo são as babaquices com a bertie [que eu adoro], o resto eu acho ambos meio coerentemente idiotas).

No dia seguinte [04 de março]:

Eu: Só vi o décimo episódio ontem. Eu queria ter visto na quarta, mas fui ver o jogo do Corinthians. [Desculpa, gente, eu gosto de futebol.]

“Eu curto que ele tenha feito isso”: se numa mesa de bar estivéssemos, este seria o momento em que eu daria um tapa na mesa haha e, depois que todo mundo arregalasse os olhos, eu diria: “o pior é que eu também acho que foi fundamental para quebrar a expectativa”.

E eu acho que também já comentei isso em alguma parte do tanto de trem que falei anteriormente: a passagem do Gus “fofo” para o Gus “escroto” e da Mickey “escrota” para a Mickey “escrotizada” [não dá pra dizer que ela se tornou fofa, na verdade, nem dá pra dizer que o Gus se tornou escroto. É bastante visível, já no primeiro episódio, que o cara era um poço de rancor; isso só foi se desenvolvendo, ao longo dos episódios, com os gatilhos certos] é o que faz a série andar.

A Mickey quebrando a cara com o Gus é um enorme: APOSTEI NO CAVALO ERRADO. Mas relacionamento é isso: apostar no cavalo errado é essencial para a coisa funcionar. A gente aposta nas expectativas que cria, e elas, quase sempre, são projeções, ou seja, cavalos errados. Só depois que elas são desfeitas, é que a coisa começa a funcionar [ou degringolar] efetivamente.

No fim das contas, se o Gus não tivesse feito o que fez no oitavo e no novo episódios [claramente, não superei, hahaha], a série continuaria a reiterar, por inteiro, a fórmula da comédia romântica. Ele fez merda, como qualquer ser humano é passível de fazer, mas a gente não o via como um ser humano, né? Ele era o cara legal que faria com que a Mickey se acertasse no amor. Agora ele é um cara humano, que é capaz de fazer tanta [ou mais] merda quanto a Mickey. Então vamos ver se os dois são capazes de lidar com isso.

P.S.: Sim, eu sei que você gosta da Mickey. hahaha E eu também já comentei que minha raivinha dela é pelo que ela faz com a Bertie. Sou team Bertie. E fiquei muito puta com a Mickey por causa do trem do gato. E mais puta ainda porque ela falou pra Bertie não se impor naquele dia, que era um dia difícil. QUANDO QUE A BERTIE SE IMPÔS? NOSSA, MICKEY. PORRA, MICKEY [PONTO DE EXCLAMAÇÃO].

E o Leo aparece para enfatizar algo importante.

Leo: não vai virar girls!!!

Eu: ASSIM SEJA [PONTO DE EXCLAMAÇÃO]. EU GOSTEI TANTO DE “LOVE”, QUE NÃO SUPORTARIA O GOLPE DE A SÉRIE VIRAR “GIRLS”, QUE EU DETESTO.

Leo: que esquisito todo mundo concordando nessa thread.

Eu: Nós três somos uns fofos. hahahaha.

Minduim decidiu reforçar a ideia do tapa na mesa e, de quebra, quis semear a discórdia, mas nós três somos muito fofos. hahaha

Maurício: acho que o momento tapa na mesa ia ser quando eu dissesse que, apesar de achar babaca e um erro o que o gus fez no oitavo e nono, eu não acho assim horrível. ele preferiu a relação mais fácil/simples – e ele e a mickey tavam num momento bastante inicial, que é em geral mais maleável. a covardia dele em lidar com isso é que eu acho horrível, mesmo

(criei discórdia???)

só comentei da mickey porque pode parecer que eu tô relativizando as babaquices do gus; mas eu gosto dela exatamente porque ela é mais complicada.

Maurício: não acho que vire girls. love tem uma narrativa mais definida. girls no começo era mais retrato da geração, não tinha tanto interesse em arco – e foi a introdução de narrativas mais clássicas (?) que complicou minha relação com a série, enfim.

Eu: Além do tapa na mesa, eu viraria um copo de cerveja, ficaria muito vermelha, suspiraria fundo [já tô me perdendo na gradação. Aproveito o momento para dizer que o não uso de parênteses é pelo mesmo motivo do não uso de ponto de exclamação: teclado ferrado] e começaria a xingar o Gus: UM COVARDE DA PORRA. NOSSA, UM COVARDE. QUE FICOU SÓ CHAMANDO A MICKEY DE ESTRANHA, DIZENDO QUE “AI, EU ESPERAVA QUE VOCÊ NÃO FOSSE UMA MULHER COMO AS OUTRAS, MAS VOCÊ ESTÁ SURTANDO COMO AS OUTRAS, E NÃO SAI DO MEU PÉ E”… NOSSA, GENTE, QUE RAIVA DO GUS.

[aí eu me daria conta de que estava exaltada e sentaria]. Acho ruim ele ter reagido como reagiu. Não falou com a Mickey que: “ok, eu senti vontade de transar com a [não lembro o nome], transei.”. Mas ele prefere fazer aquele mesmo jogo insano de jogar a culpa nos outros e não assumir que fez o que sentiu vontade de fazer, o que desejou.

Prefere ignorar as mensagens da Mickey. Prefere fingir que a coisa não existe, o que resultou naquela cena patética no set. VOLTA, GUS MALUCO-DIVERTIDO QUE PROMOVEU UMA LINDA METALINGUAGEM AO DEFENESTRAR BLU-RAY PELA JANELA DO CARRO. [Gus recuperou um pouquinho do meu afeto com a sacada do Woody Allen, no último episódio. hahahahah]

E eu gosto/tenho medo da Mickey-stalker-ou-eu-vi-você-falando-no-instagram-que-precisava-de-comida-e-apareci-no-local-em-que-nos-encontramos-pela-primeira-vez. HAHAHAHAHAHAHAHAHA

E foi então que surgiu a brilhante ideia para este post no Livros Legendados [o que deve ter externado o meu desejo de escrever um post para o BuzzFeed]:

Eu: Se virar Girls [não virará], não promoveremos um festival de lindos e surtados posts para comentar a segunda temporada. Vocês até promoverão, mas eu não participarei, porque cês sabem que eu não gosto de Girls. E meu caso nem é como o de vocês, que curtiam a série no início. Eu não gostei do início, e continuei a ver, mas não gostei.

Por falar nos nossos posts, eu bem que podia compilar isso tudo num post para o “livros legendados” bem no estilo: uma série em três vozes. Ficaria divertido, tipo um post-mesa-redonda. Mas tô com muita preguiça de postar no blog.

Leo: eu obviamente me identifico bem mais com a maluquice da mickey tb.

Aproveitei o gancho da maluquice.

Eu: Já que estamos falando sobre a maluquice da Mickey, posso ser maluca e perguntar se, quando eu falei em “um festival de posts lindos e surtados”, ficou claro que “surtados” não é para os posts de vocês, mas para os meus? Desculpa, gente, eu sei que é bem claro que eu sou a surtada de nós três e tal, mas o campo comunicativo é cheio de encruzilhadas, e uma palavra-ruído pode comprometer todo um processo de comunicação.

Maurício: haha mas com tudo que você escreveu eu concordo, foram as coisas que eu achei escrotas nele.

Maurício: e acho que a minha ideia favorita da série são as festas fazendo música tema pra filmes, queria que fosse real.

Eu: O lance das festas rendeu menos um ponto pra Mickey. Fiquei triste quando ela desdenhou das festas em que Gus e os amigos faziam música-tema para diversos filmes. Eu achei a ideia genial. Eu gargalhava vendo aquilo. Claramente a minha concepção de diversão não bate com a da Mickey.

O que fica disso tudo é que, quando Leo, Minduim e eu estivermos juntos em uma mesa de bar, vamos fazer um oceano de músicas temáticas para filmes, bater a mão na mesa, e gargalhar. E o mais importante: vamos gargalhar com “hahaha”, porque gargalhar com “kkkk” não é algo que se faça.

Update: Maurício respondeu à pergunta sobre o trequinho no “u” de Schütz, e o acento em Maurício. Eu escrevia o nome dele errado há quase uma década [ele disse que escreveu de qualquer jeito no FB, e eu apenas reproduzia a escrita que estava lá]. Isso significa que, sim, eu atualizei tudo, inclusive o título, mas deixarei a pergunta lá, porque ela é bonitinha.

 

 

Nashville

Publicado em

nashville-serie-official-poster-30julho2012Tenho uma certa dificuldade em estabelecer uma conexão forte com as pessoas sem conhecê-las bem. Preciso conhecê-las para amá-las. Processo semelhante, mas não tão importante, acontece no que tange às séries de  televisão. Preciso que elas me mostrem um motivo para amá-las, um motivo para eu saber que elas são importantes para mim. E o motivo pode ser desde uma citação de um livro que gosto até o ativismo de algum personagem.

Quando vi a chamada de Nashville, no canal Sony, confesso que o meu interesse inicial em acompanhar a série foi fruto da minha paixão pela música Country. As protagonistas, por meio da edição da chamada, pareciam um tanto quanto esvaziadas, superficiais. Decidi que veria o piloto da série por causa do amor que tenho pela música. Queria ver, mesmo que só pela tv, a Music City. Eu não perderia a chance de ver o lendário Ryman Auditorium.  Mas eu também queria ver a arquitetura clássica de Nashville.

O piloto de Nashville é bem simples e nos mostra, sem rodeios, a premissa da série.  Rayna James (Connie Britton, de American Horror Story) é uma lenda viva do Country. Mas depois de vinte anos de sucesso, a carreira da cantora começa a declinar. Ela ainda é respeitada, adorada, mas não enche mais shows como antes. Não emplaca sucessos nas paradas musicais como fizera outrora. Paralelamente à crise da carreira, Rayna tem de lidar com o seu casamento com Teddy Conrad (Eric Close) e com a criação das duas filhas.

O casamento dos dois parecia ser perfeito. Rayna tinha sua carreira, suas turnês, enfim, a fama. Era uma boa mãe e estava presente Nasvhille-Queen-of-Countrysempre que podia. E Teddy era um pai adorável. Mas o pai de Rayna, Lamar Wyatt (Powers Boothe), com quem ela sempre tivera um relacionamento dificílimo, de posse do poder que tinha na cidade, acabou escolhendo o genro Teddy como seu candidato a prefeito para enfrentar Coleman Carlisle (Robert Wisdom). Tal decisão, além de irritar Rayna, que já havia prometido apoio ao candidato Coleman, acabou por abrir novas feridas no âmbito familiar da cantora Country.

A partir do anúncio das duas candidaturas, começa-se a desenterrar quaisquer detalhes sobre a vida dos candidatos, o que pode fazer com que coisas que aparentemente eram sólidas, como o casamento de Teddy e Rayna, acabem desmoronando. E, aqui, acho que a série  ganha um ponto com o telespectador. Não vemos um processo eleitoral sujo apenas por parte de quem se esperaria,  Teddy (que funciona, de certo modo, como marionete do sogro, que é um poderosíssimo político), mas também do candidato que, inicialmente, tem a simpatia de todos, Coleman Carlisle. Acho interessante que a série não se agarre em estereótipos que sugerem que, em uma disputa política, temos um vilão e um mocinho. Antes, ela procura relativizar as coisas, procura mostrar que os jogos de poder envolvendo o processo político são mais complexos do que se pode imaginar.

Nashville1Ao mesmo tempo em que a carreira de Rayna James sofre um declínio, a de Juliette Barnes (Hayden Panettiere, de Heroes) está em plena ascensão. O público da jovem cantora de música Country é composto, majoritariamente, por adolescentes, o que acaba por colocar em cheque o seu talento, uma vez que ela pode ser apenas o fruto do delírio de uma febre adolescente. Para provar que a sua carreira não será meteórica, Juliette Barnes faz o que for possível, até mesmo tentar esconder a sua origem pobre e ignorar a existência da mãe, dependente química, que já fez com que a cantora passasse por situações um tanto quanto ruins. Inicialmente, pode-se pensar que Juliette seja uma insensível, por tratar a mãe de maneira tão rude. Entretanto, no decorrer dos episódios, a personagem vai sendo apresentada com toda a sua complexidade e descobrimos que a maneira com a qual ela trata a mãe e as outras pessoas é o reflexo da maneira cruel com que ela foi tratada pelo mundo. A aparente falta de educação de Juliette é um mecanismo de defesa. Ela procura manter as pessoas afastadas, porque quando elas estiveram próximas, a feriram muito.

Rayna e Juliette têm uma relação ruim. Apesar de serem artistas da mesma gravadora, elas não se entendem e, sempre que se encontram, têm a certeza de que devem ficar o mais longe possível uma da outra. Entre as duas, está o talentosíssimo guitarrista Deacon Clayborne (Charles Esten), tio de Scarlett O’Connor (Clare Bowen). Junto com  Gunnar Scott (Sam Palladio), Scarlett acaba se tornando uma importante compositora.

Deacon foi o grande amor de Rayna. E Rayna ainda é o grande amor de Deacon. E os atores que interpretam esses personagens têm CHARLES ESTENuma química incrível. Antes mesmo que fosse pronunciada qualquer coisa sobre o passado dos dois, eu percebi que havia algo mais do que uma relação entre cantora e musicista entre eles. No início da carreira de Rayna, ela e Deacon formavam um casal invejável. Estavam apaixonados pela música e um pelo outro. E, disso, surgiram belas canções. Entretanto, Deacon acabou se envolvendo com drogas e, depois de um acontecimento que quase lhe custou a vida, foi para a reabilitação. Rayna decidiu seguir a vida. Conheceu e se casou com Teddy. Teve duas filhas. E ainda tinha um grande apreço por Deacon. Os dois se diziam amigos. Mas a química entre eles sempre sugeriu algo mais.

Mesmo com todo o seu talento, Deacon nunca tentou carreira solo. Ele acabou escolhendo ficar ao lado de Rayna, no palco. Não dá para dizer que foi uma escolha completamente acertada, entretanto, quando vemos os dois personagens juntos, conseguimos compreender que alguma coisa, muito forte, existe entre eles. Coisa que ganha belos acordes no segundo episódio da série, quando Rayna e Deacon, com uma química inquestionável, cantam a belíssima No One Will Ever Love You:

Além do roteiro redondinho, o figurino perfeito, a trilha sonora precisa, os cenários lindos e toda química entre os personagens, Nashville ganhou muitos pontos comigo por algumas de suas personagens terem uma pegada feminista. Rayna escolheu sua carreira de cantora mesmo contra a vontade do  pai, um político muito influente que (quase) sempre conseguia o que queria. Rayna escolheu ser cantora, mãe, esposa, enfim, ela tomou as rédeas de sua vida. E, mesmo que tenha nascido em uma família de classe alta, não abriu mão da sua autonomia na hora de escolher os caminhos por que trilhar.

Juliette, que não pôde usufruir da mesma sorte de Rayna, teve de conviver com as dificuldades que a pobreza lhe impôs desde bem nova. Como não podia contar com a mãe para lhe sustentar, quando garota, ela acabava por ter de roubar para conseguir se alimentar. Depois de adulta, por mais moralmente questionáveis que possam ser suas ações, Juliette faz as suas próprias escolhas. A cantora não abre mão da sua autonomia, porque foi por causa dela que ela conseguiu o sucesso na vida artística.

Outra personagem de Nashville que se destaca pela sua força, é Scarlett O’Connor. Ela foi para Nashville viver com o namorado, que, desde novo, tentava o sucesso com uma banda. Ao chegar lá, a moça foi trabalhar como garçonete, e sempre apoiava o namorado. Contudo, ela não recebia o mesmo apoio por parte dele. Quando conseguiu um contrato de compositora, ela viu o quão egoísta o namorado era e, depois de alguns episódios lamentáveis protagonizados por ele, ela acabou por abandoná-lo. Por ser tanto física quanto psicologicamente sensível, a personagem pode passar uma impressão de fraqueza. Entretanto, sensibilidade não é sinônimo de fragilidade. Scarlett não é frágil, ela é forte, admirável e, o mais importante, faz as suas próprias escolhas.

Em síntese, Nashville é uma série um tanto quanto promissora. Espero que ela mantenha o bom ritmo dos primeiros oito episódios e consiga se firmar a ponto de garantir uma segunda temporada, porque seus personagens, a música Country, e os fãs da série merecem que o show continue.

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