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Do que é feita uma garota (Caitlin Moran)

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WP_20150819_18_55_28_ProTalvez, eu devesse adotar a postura que Johanna adotava para lidar com as suas inseguranças diante dos outros e falar sobre mim, mas é justamente isso que quero evitar ao escrever sobre Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran. Quando vi o título  que o livro recebeu em português, a primeira coisa em que pensei, foi: “cadê o ponto de interrogação?”. A segunda coisa em que pensei, foi em qual seria a resposta imediata que eu daria se alguém me perguntasse do que é feita uma garota: de insegurança.

O título original do livro, How to build a girl, tem algo que pode sintetizar a semântica do livro: “To build”, verbo que, em português, significa “construir”. A ideia de construção é uma boa chave de leitura para o livro uma vez que ela pode remeter à Simone de Beauvoir. A pergunta que norteou a escrita de O Segundo Sexo é a seguinte: “O que é uma mulher?” A partir dessa pergunta, Beauvoir pensa o gênero sob uma perspectiva existencialista, o que nos dá uma consistente argumentação de que a mulher é construída socialmente (para o bem e para o mal; muito para o mal, se falarmos sobre o processo de socialização a que a mulher é submetida).

Em Do que é feita uma garota, Caitlin Moran faz uma espécie de recorte e atualização do verbo “construir”. No livro,  é abordada a construção social e cultural de uma adolescente pobre e gorda. O processo de construção de Johanna, protagonista do romance, revela e é revelado pelo de construção textual de Caitlin Moran: construção e desconstrução de personagens, de concepções, de tabus, de certezas, enfim.

O estilo de escrita de Caitlin Moran parece partir do pressuposto de que é possível transformar uma lista, de coisas que funcionam e que não funcionam, em um romance. E, quando chega ao fim do livro, o leitor tem a certeza de que é possível. O leitor tem a certeza de que, a partir de um peculiar processo de escrita, o livro simula uma espécie de TOP 5 feito por uma adolescente que tem um senso de humor incrível. Apesar de ser um livro bastante voltado para a  música, relacionamentos e sobre como foi viver nos anos 90, Do que é feita uma garota não é um livro que emula Alta Fidelidade, de Nick Hornby. A tônica do livro de Caitlin Moran é outra.

São os anos 90. Johanna, uma adolescente de 14 anos,  mora em Wolverhampton (Inglaterra) com os pais e os quatro irmãos: Krissi, Lupin e os gêmeos que, no início da narrativa, ainda não haviam sido nomeados, mas que, no fim do livro, receberam os nomes de David e Daniel.  Johanna e sua família vivem em uma moradia popular, se sustentam com benefícios do governo e passam por inúmeras dificuldades financeiras, o que faz com que a comida que eles consomem seja regrada e insuficiente e que regalia seja uma palavra desconhecida por eles. Um dos poucos meios de lazer de que dispõem é de um aparelho de tv alugado.

Por não ter espelho em casa, Johanna não sabe qual é a imagem que passa para o mundo, ou melhor, qual é a imagem que passaria se as pessoas olhassem efetivamente para uma menina de catorze anos de idade, pobre e gorda. Após uma experiência vexatória em um programa de tv em que foi para receber o prêmio por um poema que escreveu para um concurso, Johanna decidiu que precisaria “morrer”, isto é, deixar de ser Johanna Morrigan e construir, do zero, outra pessoa.  Quando o benefício social do qual sua família vivia foi cortado, ela investiu ainda mais na tarefa de ser outra pessoa. Ser alguém que os outros vissem e de quem gostassem. Com isso em mente, ela dá inicio ao processo de construção de Dolly Wilde, pseudônimo  inspirado na “sobrinha de Oscar Wilde. Ela era, tipo assim, uma  lésbica alcoólatra incrível, puta escandalosa, e morreu bem jovem”. (p. 84).

Caitlin Moran.

Enquanto Johanna passa pelo processo de tentar ser uma pessoa que os outros aceitariam, Caitlin Moran faz um histórico bem humorado e, por vezes, cínico, das mais famosas bandas indie do fim da década de 80 e início da década de 90. Ela pinta um cenário tão fidedigno que, mesmo quem não vivenciou a época em que bandas nos eram apresentadas em fita cassete ou em bares, sente-se nostálgico.

Ao falar sobre Do que é feita uma garota, eu poderia sucumbir ao desejo de dizer que ele exemplifica, com perfeição, o Marxismo. E ele o faz, de maneira brilhante, em diversas passagens, especialmente em um discurso  que tem, como ponto alto, a citação: “Quando as classes médias falam apaixonadamente sobre política, estão discutindo seus privilégios – seus incentivos fiscais e seus investimentos. Quando os pobres falam apaixonadamente sobre política, estão lutando pela sobrevivência.” (p. 196). Contextualmente, o enredo do livro e, de modo especial esse discurso, se situa em um período em que a classe operária da Inglaterra estava sendo massacrada pela gestão da Margaret Thatcher como primeira-ministra. Mas, se tem uma coisa que aprendi, enquanto me construía, é que: pobre é explorado e oprimido em qualquer lugar do mundo.

Mas o livro não é apenas isso (e quem me conhece sabe o quanto é doloroso para mim dizer “apenas isso” sobre algo relacionado a Marx e a Luta de Classes), é um romance de formação de toda uma geração: a dos apaixonados por música, sobretudo, por música indie (minha banda preferida é Pixies; isso diz muita coisa sobre mim). A da formação de pessoas que, como não tinham acesso à internet e/ou dinheiro para ir a shows, liam nomes de bandas enquanto folheavam sorrateiramente as páginas de revistas sobre música nas bancas. (Estou falando novamente sobre Luta de Classes? Estou, mas já vou parar). Geração das pessoas que, como Johanna e eu, aprenderam tudo nos livros – no caso das bandas, nas revistas – e, por isso, não sabiam pronunciar as palavras corretamente.

Mas o processo de ser uma garota é cheio de percalços. Às vezes, enquanto se constrói, a pessoa também se destrói. Foi o que aconteceu com a Johanna durante a sua passagem de Johanna Morrigan para Dolly Wilde, quando ela começou a escrever sobre bandas para uma revista especializada em música e conheceu gente que pertencia a um mundo bem diferente daquele em que fora criada. “Então o que você faz quando se constrói – e se dá conta de que você se construiu com as peças erradas? Você rasga tudo e começa de novo. Esse é o trabalho dos anos de adolescência – construir e rasgar e construir de novo, repetidas vezes, infinitamente”. (p. 363).

Eu diria que se construir, se rasgar e se construir de novo, não é o trabalho dos anos de adolescência, mas de toda a vida. A diferença é que, em teoria, adultos sabem que é possível começar de novo, e adolescentes sofrem um pouco mais até que consigam se dar conta disso, mas eles têm o que muitos adultos desaprenderam a ter: senso de humor. O humor da Johanna é um dos pontos altos de Do que é feita uma garota, mas não dá para esperar menos de uma personagem criada por Caitlin Moran – que no seu primeiro livro, Como ser mulher, fez um manifesto feminista recheado de bom humor.

Quando terminei de ler o livro, voltei ao meu questionamento inicial: Do que é feita uma garota? De medo, de insegurança, de dor, de constrangimentos – se você for uma garota pobre, de mais constrangimentos do que se pode suportar, você pensará, ao anoitecer, quando tentar fazer com que todas as dificuldades advindas da sua classe social saiam nas lágrimas que molharão o seu travesseiro. (Eu ainda acho que escrevi o texto sem falar sobre mim; pretendo manter essa ilusão).

Mas uma garota também é feita de desejos, de esperanças e de sonhos. Como Johanna, acredito na música, na alegria, em falar demais e na bondade humana. Acredito, sobretudo, na escrita, por ela ser, a meu ver, uma ferramenta política, social e artística que tem a capacidade de transformar os sonhos de uma garota pobre em realidade e, em uma análise mais ampla, em revolução.

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