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Você teria um minutinho para ouvir a palavra de Jane The Virgin?

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janethevirginImagine que você se chama Jane Gloriana Villanueva (Gina Rodriguez),  tem 23 anos, está terminando a graduação em Inglês, sonha em ser escritora, mas teme não conseguir sobreviver às adversidades da profissão e, por isso, será professora. Por enquanto, você estuda e trabalha como garçonete, no Hotel Marbella. Familiar? Ainda tem mais. Você foi criada em uma família extremamente católica. Sua avó, venezuelana, te fez prometer que não faria sexo antes do casamento, porque essa era a vontade de Deus. Sua mãe, que tinha concepções de vida diferentes das de sua avó, queria ser cantora, e  batalhava por isso, enquanto se relacionava bastante com homens interessantes e não tão interessantes assim. Mas isso é questão de gosto, coisa que se discute, mas não neste post.

Xiomara (Andrea Navedo), mãe de Jane, era uma mulher que gostava de sexo, e não havia problema nisso, mas a mãe dela, Alba (Ivonne Coll), abuela de Jane, havia feito com que ela acreditasse que estava errada. O pai de Jane, bem, você não o conhece, e ela também não, pois sua mãe lhe disse que ele era do exército, e que havia ido embora. Na verdade, ela queria proteger Jane de uma verdade desconfortável. Aos dezesseis anos, Xiomara engravidou do seu namorado de escola. Ele queria que ela abortasse. Desde então, ela optou por deixá-lo fora da vida da filha. Afinal, ele não queria que ela existisse, não é, mesmo? Não, não é. As coisas não são tão simples, e definitivas, assim.

A avó de Jane, católica praticante, teve, como primeira reação, dizer à filha para abortar, mas ela não apenas não o fez como também não mencionou a sugestão à Jane. Ela não queria estragar a imagem que a filha tinha da avó, que, apesar de, nem sempre conseguir unir teoria e prática, era uma grande mulher. Xiomara  também o era, à sua maneira, e do jeito que sabia ser. As mulheres Villanuevas eram maravilhosas, fortes, decididas e unidas.

Nunca se esqueça disso, Jane, mesmo quando descobrir que sua mãe mentiu sobre seu pai. Você também passará por escolhas difíceis, e por situações complicadas. Você é virgem, e está grávida, pois foi inseminada por engano, e o filho não é do seu namorado, que em breve será seu noivo –  o policial Michael Cordero  (Brett Dier)-, é do milionário Rafael Solano (Justin Baldoni), um cara que te beijou há uns cinco anos, pegou seu telefone, e não te ligou. A esposa dele, Petra Solano (Yael Grobglas), viu que o casamento estava desmoronando, então decidiu jogar a última cartada: pediu para descongelar a amostra de esperma dele, e decidiu fazer a inseminação artificial.

Acontece que a médica que faria o procedimento era a irmã do Rafael, Luisa Alver (Yara Martinez), que após descobrir que a esposa a traia, ficou atordoada e, ao invés de fazer o exame de rotina em você e a inseminação na Petra, que estava no consultório ao lado, te inseminou com aquela que era a única amostra de esperma do irmão, que teve câncer e, antes de fazer o tratamento, decidiu congelar o esperma para que pudesse ter filhos no futuro.

Acho que é um bom resumo inicial, a partir daí, é com você. Não, não com Jane, com ela, também, mas especialmente com você que, acredito, nesse ponto já está morrendo de vontade de saber o que acontecerá com: Xiomara, Alba, Jane, Michael, Rafael, Petra e Rogélio De La Vega (Jaime Camil), o pai de Jane. Acredite, ele é um personagem sensacional, e indispensável para a série. Ou seria para a novela?

Jane The Virgin é uma série de comédia dramática que tem o estilo de uma telenovela (é necessário falar sobre Pastiche? Não, não é). Ela é uma adaptação de Juana La Virgen, telenovela venezuelana. E, como o formato da série é telenovelesco, podemos esperar por todos os clichês do gênero, mas não do jeito convencional. Eles são enredados na série de modo irônico, debochado e, claro, extremamente bem-humorado. Os rompantes dramáticos são bem encaixados e, melhor, são bem apresentados pelo narrador, que, sem sombra de dúvidas,  é um dos motivos pelos quais vale a pena assistir à série. A grande sacada do narrador está no fato de que ele antecipa as reações dos espectadores. Quando um momento de tensão se aproxima, ele começa a dizer que está preocupado e, ironicamente, quando a sequência revela algo perigoso, ele diz que não gosta de se gabar, mas estava certo. A identificação do telespectador com o narrador é imediata, e essencial para que se possa compreender a dinâmica da série, que tem muito mais.

orientacao

Apesar de Jane ser virgem, e acreditar na magia do amor, a série não fecha os olhos para outros pontos de vista.  Pelo contrário. A virgindade da protagonista é algo que, em certo ponto, se torna irrelevante, porque a série não gira em torno disso, antes ela se ocupa em mostrar os desdobramentos por que Jane passa no processo de se tornar uma escritora. Nos meandros desse processo estão muitos dos melhores momentos da série. É cativante ver os ensinamentos dos orientadores de Jane na Pós-graduação.

O primeiro orientador foca bastante em ajudá-la a trabalhar partes constituintes do processo criativo. Embora o gênero primordial de escrita escolhido pela Jane seja o Romance, ela parece ficar muito presa em sua própria perspectiva. A partir disso, seu orientador pede que ela escreva três contos: um de ficção histórica, para que ela possa sentir o tempo e o espaço; um de terror, para que ela possa trabalhar o elemento surpresa; e um de ficção científica, para que ela se permita ousar mais, quebrar as regras do gênero.

A segunda orientadora, feminista, faz com que a Jane repense seu estilo de escrita e, com isso, o telespectador é brindado com discussões bem elaboradas – divertidas, não maçantes – sobre o Teste de Bechel, por exemplo; especialmente quando o narrador começa a sublinhar se os momentos da série passam ou não no teste.

Eu disse, ali em cima, que ser escritora é o sonho dela, não disse? Bom, tem mais. Enquanto se torna escritora, ela também se torna mãe, namorada – a quem eu quero enganar? Não é óbvio que há um triângulo amoroso envolvendo Jane, Michael e Rafael? – , professora, entre outros. Voltemos ao ponto de ela se tornar mãe. Eu disse que ela acabou escolhendo ter o bebê? Não disse?  Mateo é uma criança adorável! E isso é tudo o que você saberá sobre ele, até começar a ver a série.

Enquanto Jane ainda não sabia se teria o bebê, discutiu-se sobre o aborto. Afinal, ela fora inseminada por engano. Embora a protagonista não tenha optado por abortar, foi interessante a série realçar que ela tinha uma opção. Embora pareça que eu estraguei a surpresa, você ainda não sabe se a Jane vai dar o bebê para Rafael, o pai, e Petra, a madrasta, criarem. Se eu contar todos os detalhes, para que você verá a série, não é, mesmo? Para conferir se o que eu falei é verdade? Eu ficaria ofendida, se não soubesse que narradores não são tão confiáveis assim.

Deixemos a desconfiança de lado para voltarmos a falar sobre a série. Jane The Virgin não é uma série que se vende como feminista, mas é mais certeira em discutir questões de gênero do que qualquer textão de Facebook. A série tem a sutileza de apresentar as opções e a coragem de escolher soluções para as quais muita gente torce o nariz. Jane The Virgin é leve ao abordar temas pesadíssimos. A ironia fina costura a trama; e o drama, mesmo cênico, parece natural. Como não ficar encantado pelo pai da Jane, o ator Rogelio De La Vega, uma versão moderna – paródica – do Zorro? Rogelio é extremamente vaidoso, e totalmente conectado: é usuário do Twitter, amigo de celebridades,  e, quando aparece, rouba a cena. Inclusive, ele está presente em um dos momentos mais geniais em que se discutem questões de gênero na série, o  décimo segundo episódio da segunda temporada.

Rogelio grava um episódio de uma telenovela que parece ter sido inspirada em Doctor Who: Tiago através do tempo. (Na verdade, é uma paródia de Quantum Leap, mas Doctor Who é uma referência mais conhecida, isto é, tem na Netflix, e isso, basicamente, é o que importa). O personagem dele, Tiago, viaja para a época do sufrágio. E a ironia é muito sutil, ele se exibe, como primeiro homem feminista, e diz que vai garantir que as mulheres tenham voto, que vai salvá-las. Momentos depois de terminar a gravação da cena, ele chama as atrizes: “venham sufragistas”, e diz que Xiomara, mãe de Jane, aceitou ser a Senhora De La Vega, ao que ela responde: “a não ser que eu queira manter o meu sobrenome”. Ele não gosta da resposta e depois aparece, ironicamente, a inscrição “primeiro homem feminista”, o que exibe uma crítica extremamente bem-humorada à ideia de que certos homens, embora tenham boas intenções e se coloquem como feministas, acabam por reforçar estereótipos de gênero.

Esse é o tom da série que, além de transitar pelas nuances dos romances policiais – crimes, traições, roubos, entre outros –  consegue nos ganhar nos mínimos detalhes, como o fato de os personagens principais estarem sempre com o celular por perto, e se comunicarem por mensagens em boa parte do tempo. Também há referências à cultura Pop, o que nos proporciona momentos divertidíssimos. Na segunda temporada há, por exemplo, menção a famosa regra dos relacionamentos no tempo atual: é necessário esperar o (a) namorado (a) para ver os episódios novos das séries. Por falar nisso, o que você está esperando para começar a ver Jane The Virgin?

 

 

Do que é feita uma garota (Caitlin Moran)

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WP_20150819_18_55_28_ProTalvez, eu devesse adotar a postura que Johanna adotava para lidar com as suas inseguranças diante dos outros e falar sobre mim, mas é justamente isso que quero evitar ao escrever sobre Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran. Quando vi o título  que o livro recebeu em português, a primeira coisa em que pensei, foi: “cadê o ponto de interrogação?”. A segunda coisa em que pensei, foi em qual seria a resposta imediata que eu daria se alguém me perguntasse do que é feita uma garota: de insegurança.

O título original do livro, How to build a girl, tem algo que pode sintetizar a semântica do livro: “To build”, verbo que, em português, significa “construir”. A ideia de construção é uma boa chave de leitura para o livro uma vez que ela pode remeter à Simone de Beauvoir. A pergunta que norteou a escrita de O Segundo Sexo é a seguinte: “O que é uma mulher?” A partir dessa pergunta, Beauvoir pensa o gênero sob uma perspectiva existencialista, o que nos dá uma consistente argumentação de que a mulher é construída socialmente (para o bem e para o mal; muito para o mal, se falarmos sobre o processo de socialização a que a mulher é submetida).

Em Do que é feita uma garota, Caitlin Moran faz uma espécie de recorte e atualização do verbo “construir”. No livro,  é abordada a construção social e cultural de uma adolescente pobre e gorda. O processo de construção de Johanna, protagonista do romance, revela e é revelado pelo de construção textual de Caitlin Moran: construção e desconstrução de personagens, de concepções, de tabus, de certezas, enfim.

O estilo de escrita de Caitlin Moran parece partir do pressuposto de que é possível transformar uma lista, de coisas que funcionam e que não funcionam, em um romance. E, quando chega ao fim do livro, o leitor tem a certeza de que é possível. O leitor tem a certeza de que, a partir de um peculiar processo de escrita, o livro simula uma espécie de TOP 5 feito por uma adolescente que tem um senso de humor incrível. Apesar de ser um livro bastante voltado para a  música, relacionamentos e sobre como foi viver nos anos 90, Do que é feita uma garota não é um livro que emula Alta Fidelidade, de Nick Hornby. A tônica do livro de Caitlin Moran é outra.

São os anos 90. Johanna, uma adolescente de 14 anos,  mora em Wolverhampton (Inglaterra) com os pais e os quatro irmãos: Krissi, Lupin e os gêmeos que, no início da narrativa, ainda não haviam sido nomeados, mas que, no fim do livro, receberam os nomes de David e Daniel.  Johanna e sua família vivem em uma moradia popular, se sustentam com benefícios do governo e passam por inúmeras dificuldades financeiras, o que faz com que a comida que eles consomem seja regrada e insuficiente e que regalia seja uma palavra desconhecida por eles. Um dos poucos meios de lazer de que dispõem é de um aparelho de tv alugado.

Por não ter espelho em casa, Johanna não sabe qual é a imagem que passa para o mundo, ou melhor, qual é a imagem que passaria se as pessoas olhassem efetivamente para uma menina de catorze anos de idade, pobre e gorda. Após uma experiência vexatória em um programa de tv em que foi para receber o prêmio por um poema que escreveu para um concurso, Johanna decidiu que precisaria “morrer”, isto é, deixar de ser Johanna Morrigan e construir, do zero, outra pessoa.  Quando o benefício social do qual sua família vivia foi cortado, ela investiu ainda mais na tarefa de ser outra pessoa. Ser alguém que os outros vissem e de quem gostassem. Com isso em mente, ela dá inicio ao processo de construção de Dolly Wilde, pseudônimo  inspirado na “sobrinha de Oscar Wilde. Ela era, tipo assim, uma  lésbica alcoólatra incrível, puta escandalosa, e morreu bem jovem”. (p. 84).

Caitlin Moran.

Enquanto Johanna passa pelo processo de tentar ser uma pessoa que os outros aceitariam, Caitlin Moran faz um histórico bem humorado e, por vezes, cínico, das mais famosas bandas indie do fim da década de 80 e início da década de 90. Ela pinta um cenário tão fidedigno que, mesmo quem não vivenciou a época em que bandas nos eram apresentadas em fita cassete ou em bares, sente-se nostálgico.

Ao falar sobre Do que é feita uma garota, eu poderia sucumbir ao desejo de dizer que ele exemplifica, com perfeição, o Marxismo. E ele o faz, de maneira brilhante, em diversas passagens, especialmente em um discurso  que tem, como ponto alto, a citação: “Quando as classes médias falam apaixonadamente sobre política, estão discutindo seus privilégios – seus incentivos fiscais e seus investimentos. Quando os pobres falam apaixonadamente sobre política, estão lutando pela sobrevivência.” (p. 196). Contextualmente, o enredo do livro e, de modo especial esse discurso, se situa em um período em que a classe operária da Inglaterra estava sendo massacrada pela gestão da Margaret Thatcher como primeira-ministra. Mas, se tem uma coisa que aprendi, enquanto me construía, é que: pobre é explorado e oprimido em qualquer lugar do mundo.

Mas o livro não é apenas isso (e quem me conhece sabe o quanto é doloroso para mim dizer “apenas isso” sobre algo relacionado a Marx e a Luta de Classes), é um romance de formação de toda uma geração: a dos apaixonados por música, sobretudo, por música indie (minha banda preferida é Pixies; isso diz muita coisa sobre mim). A da formação de pessoas que, como não tinham acesso à internet e/ou dinheiro para ir a shows, liam nomes de bandas enquanto folheavam sorrateiramente as páginas de revistas sobre música nas bancas. (Estou falando novamente sobre Luta de Classes? Estou, mas já vou parar). Geração das pessoas que, como Johanna e eu, aprenderam tudo nos livros – no caso das bandas, nas revistas – e, por isso, não sabiam pronunciar as palavras corretamente.

Mas o processo de ser uma garota é cheio de percalços. Às vezes, enquanto se constrói, a pessoa também se destrói. Foi o que aconteceu com a Johanna durante a sua passagem de Johanna Morrigan para Dolly Wilde, quando ela começou a escrever sobre bandas para uma revista especializada em música e conheceu gente que pertencia a um mundo bem diferente daquele em que fora criada. “Então o que você faz quando se constrói – e se dá conta de que você se construiu com as peças erradas? Você rasga tudo e começa de novo. Esse é o trabalho dos anos de adolescência – construir e rasgar e construir de novo, repetidas vezes, infinitamente”. (p. 363).

Eu diria que se construir, se rasgar e se construir de novo, não é o trabalho dos anos de adolescência, mas de toda a vida. A diferença é que, em teoria, adultos sabem que é possível começar de novo, e adolescentes sofrem um pouco mais até que consigam se dar conta disso, mas eles têm o que muitos adultos desaprenderam a ter: senso de humor. O humor da Johanna é um dos pontos altos de Do que é feita uma garota, mas não dá para esperar menos de uma personagem criada por Caitlin Moran – que no seu primeiro livro, Como ser mulher, fez um manifesto feminista recheado de bom humor.

Quando terminei de ler o livro, voltei ao meu questionamento inicial: Do que é feita uma garota? De medo, de insegurança, de dor, de constrangimentos – se você for uma garota pobre, de mais constrangimentos do que se pode suportar, você pensará, ao anoitecer, quando tentar fazer com que todas as dificuldades advindas da sua classe social saiam nas lágrimas que molharão o seu travesseiro. (Eu ainda acho que escrevi o texto sem falar sobre mim; pretendo manter essa ilusão).

Mas uma garota também é feita de desejos, de esperanças e de sonhos. Como Johanna, acredito na música, na alegria, em falar demais e na bondade humana. Acredito, sobretudo, na escrita, por ela ser, a meu ver, uma ferramenta política, social e artística que tem a capacidade de transformar os sonhos de uma garota pobre em realidade e, em uma análise mais ampla, em revolução.

Nashville

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nashville-serie-official-poster-30julho2012Tenho uma certa dificuldade em estabelecer uma conexão forte com as pessoas sem conhecê-las bem. Preciso conhecê-las para amá-las. Processo semelhante, mas não tão importante, acontece no que tange às séries de  televisão. Preciso que elas me mostrem um motivo para amá-las, um motivo para eu saber que elas são importantes para mim. E o motivo pode ser desde uma citação de um livro que gosto até o ativismo de algum personagem.

Quando vi a chamada de Nashville, no canal Sony, confesso que o meu interesse inicial em acompanhar a série foi fruto da minha paixão pela música Country. As protagonistas, por meio da edição da chamada, pareciam um tanto quanto esvaziadas, superficiais. Decidi que veria o piloto da série por causa do amor que tenho pela música. Queria ver, mesmo que só pela tv, a Music City. Eu não perderia a chance de ver o lendário Ryman Auditorium.  Mas eu também queria ver a arquitetura clássica de Nashville.

O piloto de Nashville é bem simples e nos mostra, sem rodeios, a premissa da série.  Rayna James (Connie Britton, de American Horror Story) é uma lenda viva do Country. Mas depois de vinte anos de sucesso, a carreira da cantora começa a declinar. Ela ainda é respeitada, adorada, mas não enche mais shows como antes. Não emplaca sucessos nas paradas musicais como fizera outrora. Paralelamente à crise da carreira, Rayna tem de lidar com o seu casamento com Teddy Conrad (Eric Close) e com a criação das duas filhas.

O casamento dos dois parecia ser perfeito. Rayna tinha sua carreira, suas turnês, enfim, a fama. Era uma boa mãe e estava presente Nasvhille-Queen-of-Countrysempre que podia. E Teddy era um pai adorável. Mas o pai de Rayna, Lamar Wyatt (Powers Boothe), com quem ela sempre tivera um relacionamento dificílimo, de posse do poder que tinha na cidade, acabou escolhendo o genro Teddy como seu candidato a prefeito para enfrentar Coleman Carlisle (Robert Wisdom). Tal decisão, além de irritar Rayna, que já havia prometido apoio ao candidato Coleman, acabou por abrir novas feridas no âmbito familiar da cantora Country.

A partir do anúncio das duas candidaturas, começa-se a desenterrar quaisquer detalhes sobre a vida dos candidatos, o que pode fazer com que coisas que aparentemente eram sólidas, como o casamento de Teddy e Rayna, acabem desmoronando. E, aqui, acho que a série  ganha um ponto com o telespectador. Não vemos um processo eleitoral sujo apenas por parte de quem se esperaria,  Teddy (que funciona, de certo modo, como marionete do sogro, que é um poderosíssimo político), mas também do candidato que, inicialmente, tem a simpatia de todos, Coleman Carlisle. Acho interessante que a série não se agarre em estereótipos que sugerem que, em uma disputa política, temos um vilão e um mocinho. Antes, ela procura relativizar as coisas, procura mostrar que os jogos de poder envolvendo o processo político são mais complexos do que se pode imaginar.

Nashville1Ao mesmo tempo em que a carreira de Rayna James sofre um declínio, a de Juliette Barnes (Hayden Panettiere, de Heroes) está em plena ascensão. O público da jovem cantora de música Country é composto, majoritariamente, por adolescentes, o que acaba por colocar em cheque o seu talento, uma vez que ela pode ser apenas o fruto do delírio de uma febre adolescente. Para provar que a sua carreira não será meteórica, Juliette Barnes faz o que for possível, até mesmo tentar esconder a sua origem pobre e ignorar a existência da mãe, dependente química, que já fez com que a cantora passasse por situações um tanto quanto ruins. Inicialmente, pode-se pensar que Juliette seja uma insensível, por tratar a mãe de maneira tão rude. Entretanto, no decorrer dos episódios, a personagem vai sendo apresentada com toda a sua complexidade e descobrimos que a maneira com a qual ela trata a mãe e as outras pessoas é o reflexo da maneira cruel com que ela foi tratada pelo mundo. A aparente falta de educação de Juliette é um mecanismo de defesa. Ela procura manter as pessoas afastadas, porque quando elas estiveram próximas, a feriram muito.

Rayna e Juliette têm uma relação ruim. Apesar de serem artistas da mesma gravadora, elas não se entendem e, sempre que se encontram, têm a certeza de que devem ficar o mais longe possível uma da outra. Entre as duas, está o talentosíssimo guitarrista Deacon Clayborne (Charles Esten), tio de Scarlett O’Connor (Clare Bowen). Junto com  Gunnar Scott (Sam Palladio), Scarlett acaba se tornando uma importante compositora.

Deacon foi o grande amor de Rayna. E Rayna ainda é o grande amor de Deacon. E os atores que interpretam esses personagens têm CHARLES ESTENuma química incrível. Antes mesmo que fosse pronunciada qualquer coisa sobre o passado dos dois, eu percebi que havia algo mais do que uma relação entre cantora e musicista entre eles. No início da carreira de Rayna, ela e Deacon formavam um casal invejável. Estavam apaixonados pela música e um pelo outro. E, disso, surgiram belas canções. Entretanto, Deacon acabou se envolvendo com drogas e, depois de um acontecimento que quase lhe custou a vida, foi para a reabilitação. Rayna decidiu seguir a vida. Conheceu e se casou com Teddy. Teve duas filhas. E ainda tinha um grande apreço por Deacon. Os dois se diziam amigos. Mas a química entre eles sempre sugeriu algo mais.

Mesmo com todo o seu talento, Deacon nunca tentou carreira solo. Ele acabou escolhendo ficar ao lado de Rayna, no palco. Não dá para dizer que foi uma escolha completamente acertada, entretanto, quando vemos os dois personagens juntos, conseguimos compreender que alguma coisa, muito forte, existe entre eles. Coisa que ganha belos acordes no segundo episódio da série, quando Rayna e Deacon, com uma química inquestionável, cantam a belíssima No One Will Ever Love You:

Além do roteiro redondinho, o figurino perfeito, a trilha sonora precisa, os cenários lindos e toda química entre os personagens, Nashville ganhou muitos pontos comigo por algumas de suas personagens terem uma pegada feminista. Rayna escolheu sua carreira de cantora mesmo contra a vontade do  pai, um político muito influente que (quase) sempre conseguia o que queria. Rayna escolheu ser cantora, mãe, esposa, enfim, ela tomou as rédeas de sua vida. E, mesmo que tenha nascido em uma família de classe alta, não abriu mão da sua autonomia na hora de escolher os caminhos por que trilhar.

Juliette, que não pôde usufruir da mesma sorte de Rayna, teve de conviver com as dificuldades que a pobreza lhe impôs desde bem nova. Como não podia contar com a mãe para lhe sustentar, quando garota, ela acabava por ter de roubar para conseguir se alimentar. Depois de adulta, por mais moralmente questionáveis que possam ser suas ações, Juliette faz as suas próprias escolhas. A cantora não abre mão da sua autonomia, porque foi por causa dela que ela conseguiu o sucesso na vida artística.

Outra personagem de Nashville que se destaca pela sua força, é Scarlett O’Connor. Ela foi para Nashville viver com o namorado, que, desde novo, tentava o sucesso com uma banda. Ao chegar lá, a moça foi trabalhar como garçonete, e sempre apoiava o namorado. Contudo, ela não recebia o mesmo apoio por parte dele. Quando conseguiu um contrato de compositora, ela viu o quão egoísta o namorado era e, depois de alguns episódios lamentáveis protagonizados por ele, ela acabou por abandoná-lo. Por ser tanto física quanto psicologicamente sensível, a personagem pode passar uma impressão de fraqueza. Entretanto, sensibilidade não é sinônimo de fragilidade. Scarlett não é frágil, ela é forte, admirável e, o mais importante, faz as suas próprias escolhas.

Em síntese, Nashville é uma série um tanto quanto promissora. Espero que ela mantenha o bom ritmo dos primeiros oito episódios e consiga se firmar a ponto de garantir uma segunda temporada, porque seus personagens, a música Country, e os fãs da série merecem que o show continue.

Feminismo legendado

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Sou feminista. Já disse isso, inúmeras vezes, para meus familiares, meus amigos, e para quem mais eu encontro pelos caminhos que tenho percorrido. Acho importante me assumir como feminista, e faço isso sempre. E também acho importante contribuir para que outras pessoas percam o medo de se assumirem como feministas e, para isso, é imprescindível que elas saibam um pouco mais sobre o Feminismo.

O nome deste blog, “Livros Legendados”, poderia ser resumido, de maneira simplista, como uma tentativa de explicar os livros que leio. Mas, como já anunciei, no post inicial, o meu intuito não é o de explicar os livros que leio, mas de falar sobre as impressões que tive a partir da leitura dos referidos livros. A legenda, aqui, não está na função de traduzir uma língua, mas de traduzir impressões. A partir do meu lugar de fala (mulher, feminista, apaixonada por literatura, professora, entre outros), eu proponho uma interpretação para os livros que leio.

Na esteira do que faço com os livros, neste post quero sugerir interpretações, ou melhor, expor as minhas impressões, sobre alguns pontos do Feminismo. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, nem de fazer uma tese sobre cada um dos pontos abordados. (Aliás, peço desculpas, de antemão, para o caso de algumas explicações parecerem um pouco simplistas. Se for o caso, posso indicar, nos comentários, livros que sejam mais específicos e direcionados aos temas aqui abordados.) O que pretendo é compartilhar com as pessoas algumas coisas que me fizeram enxergar o movimento feminista como um importante aparato de reflexão sobre os males que o sexismo instaura no mundo. Além disso, quero pontuar que mais do que nos levar a refletir sobre o sexismo, o Feminismo nos ajuda a combatê-lo.

Quero começar dizendo que estou cansada. Estou tão cansada de falar a mesma coisa durante todos os dias da minha vida, que se não acreditasse que o Feminismo fosse uma importante ferramenta para a construção de caminhos mais aceitáveis, eu largaria os béts. Sou uma feminista cansada. Cansada de tentar explicar, em todos os ambientes (“reais” e virtuais; o dualismo é simplista, mas vocês entenderam a ideia) que, não, nós, feministas, não padecemos de um mal que nos tira o senso de humor. Nós escolhemos não usar o senso de humor para validar preconceitos.

A incompreensão é tão grande que eu, com a minha mente de professora, chego a pensar que a minha didática seja péssima. E isso me deixa absurdamente deprimida. Então, eu começo a refletir melhor, e mando o ego ficar sossegado, porque a coisa é bem maior do que ele. O problema não é comigo, é algo muito maior, que independe de mim para existir. A incompreensão sobre os pressupostos feministas é o reflexo de uma incompreensão internalizada por meio da insistência do patriarcado de criar pessoas com a visão viciada.

As pessoas estão tão viciadas em ver as coisas de um jeito limitado, que quando são convidadas a terem a visão ampliada, acham que, na verdade, o convite é uma forma que os outros encontraram para cegá-las. Então, como sintoma da neurose, começam a surgir as mais errôneas interpretações. Por exemplo, uma pessoa diz que feministas não gostam de homens. E fica irritadíssima com esses “seres” por eles odiarem uma exímia evidência do processo evolutivo.

Aí aparece uma Feminista paciente e explica que a pessoa está confundindo Feminismo com misandria. O Feminismo não incita o ódio aos homens, a misandria, sim. Além disso, a feminista paciente diz que a misandria não é um movimento organizado, sistemático, ela se manifesta individualmente, mas não coletivamente. Então, quando a Feminista paciente pensa que conseguiu se fazer entender, aparece alguém para dizer que se nós somos feministas, ele pode ser machista. E que, além disso, ele vê muita mulher machista por aí. Aí a Feminista paciente tem de explicar que Feminismo não é o feminino de machismo, e que os termos não são semanticamente equivalentes.

Ela explica, detalhadamente, que o Feminismo se contrapõe ao machismo, sim, mas não tem o intuito de propor uma inversão de papéis. O machismo sustenta a ideia de que o homem seja superior a mulher, e que ela deve se submeter a ele. E o Feminismo postula que homens e mulheres são (deveriam ser) seres humanos dotados de autonomia e não precisam se submeter uns aos outros. E que a existência de mulheres machistas é uma consequência do machismo, e não a causa dele. Ela ainda cita a bell hooks, teórica feminista negra que consegue ser, ao mesmo tempo, apaixonada pela causa feminista (entre outras causas) e extremamente didática. A Feminista paciente diz que no livro “Feminism is for everybody”, bell hooks ressalta que: “o feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, com a exploração sexista e com a opressão”.

A pessoa coloca a mão no queixo e diz que acha que o nome Feminismo deponha contra a causa. E começa a elencar teorias sobre a etimologia da palavra Feminismo para provar o seu ponto de que o nome prega, sim, a superioridade da mulher porque só diz respeito às fêmeas.

A Feminista paciente, de forma cautelosa, começa a falar para a pessoa sobre o contexto do surgimento do Feminismo. Naquela época (como na atual, né?), as mulheres precisavam de um termo que demonstrasse a seguinte afirmação: “somos mulheres, e embora vocês queiram que anulemos nossa individualidade para privilegiarmos os homens, fazemos questão de dizer que não, não somos a sombra de vocês, somos seres de carne e osso, e temos autonomia”. A Feminista paciente ainda diz que, além disso, a insatisfação de uma pessoa com uma palavra não pode apagar todas as coisas boas que o movimento por ela nomeado conquistou. Ela aponta para o fato de que tal incômodo com a palavra Feminismo, mesmo que de maneira inconsciente, acaba por evidenciar um pensamento machista, porque o questionamento passa a ideia de que um movimento que prega a igualdade não deve ter uma clara referência à mulher no nome.

As pessoas que questionam o uso do termo Feminismo para um movimento que prega a igualdade entre as pessoas não questionam o fato de se usar a palavra Homem para representar a humanidade, não é? A Feminista paciente fala, ainda, que, como disse Julieta, personagem da peça “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, “aquilo a que chamamos rosa, teria o mesmo perfume mesmo que lhe déssemos outro nome”. O mesmo acontece com o Feminismo. As lutas por ele empreendidas não deixam de ser legítimas e necessárias por causa do nome Feminismo. O inimigo é o sexismo, não o termo Feminismo.

Aí a pessoa se diz indignada porque, segundo ela, o Feminismo só fala do empoderamento da mulher. E a Feminista paciente diz o que parece óbvio, mas a pessoa com a visão viciada não consegue enxergar: o homem nunca teve a sua autonomia negada, a mulher, por outro lado, não teve a sua reconhecida. Por que o Feminismo vai enfatizar a autonomia do homem se ela já é constituída? O patriarcado assume que a única autonomia válida seja a do homem. O Feminismo luta para que a autonomia da mulher também seja legitimada. A Feminista paciente ainda diz que, como o Feminismo luta pelo fim do sexismo, ele luta, indiretamente, para que o homem não tenha de seguir papéis  pré-determinados como, por exemplo, o de ser o provedor da casa.

A pessoa diz que o Feminismo é muito cheio de regras absurdas, como a ideia de que a mulher não pode exercer os serviços domésticos. E, mais absurda ainda, conforme a pessoa, é a história de que o homem deve ajudar a mulher com os serviços domésticos que, bem, são de responsabilidade dela. A Feminista paciente diz que o Feminismo não tem mandamentos, tem posicionamentos, e nenhum deles diz que a mulher não pode se dedicar aos serviços domésticos, embora o Feminismo problematize, sim, até que ponto os serviços domésticos – sejam eles remunerados ou não – são opção e até que ponto são imposição (a maioria das mulheres que trabalha como empregada doméstica é negra; isso não merece uma reflexão apurada sobre racismo, machismo e a distribuição de renda no Brasil?).

O Feminismo defende que a mulher tenha o direito de escolha. Se a escolha da mulher for a de se dedicar às atividades domésticas, está tudo bem. O que não está bem é o fato de a mulher ser diminuída por realizar afazeres domésticos. É isso que o Feminismo questiona: a ideia de a mulher ser diminuída pelas suas escolhas. Se a mulher optar por trabalhar com atividades domésticas (em sua própria casa ou prestando serviços a outrem), que ela seja respeitada. Se a mulher optar por trabalhar em outros âmbitos (seja em profissões que necessitam de formação acadêmica ou não), que ela seja respeitada por isso.

A Feminista paciente ainda diz que não existe isso de serviços domésticos serem destinados à mulher e que essa história de o homem “ajudar” a mulher nos serviços domésticos é algo muito medíocre; porque homem fazer serviço doméstico não é prestar um favor à mulher; dizer que isso é ajudar a mulher, é assumir que trabalhos domésticos sejam função dela, e tentar posar de altruísta. O homem fazer serviços domésticos não é altruísmo, ele não está ajudando a mulher a realizar um serviço que é inerente à condição feminina, porque não existe isso de que “arrumar casa e cozinhar” seja trabalho para mulher, isso é função dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres. Logo, uma maneira mais justa de se lidar com a situação, é adotar a divisão, igualitária, na hora de se realizar as tarefas domésticas.

Então a pessoa, meio enraivecida, como se tivesse presenciado uma injustiça, diz que já que a mulher quer direitos iguais, terá de recusar bebida gratuita nos bares e, além disso, terá de recusar quando lhe disserem que ela paga menos para entrar em boates, bares, entre outros lugares. A Feminista paciente explica que “Ladie’s Nights” é um falso privilégio; é uma das manifestações do dito “lobo em pele de cordeiro”. As mulheres não são privilegiadas por pagarem menos e terem bebidas liberadas, elas são usadas como “iscas” para atraírem o público masculino que, por vezes, acaba por ignorar quando a mulher diz NÃO. Esses homens pensam que o fato de a mulher ter ingerido bebida alcoólica sem pagar por ela e estar desacompanhada em algum lugar (e, aqui, não falo apenas do âmbito que engloba os bares, as boates, as baladas, enfim), é o mesmo que estar usando uma placa que diz: EU SOU UM BELO PEDAÇO DE CARNE. COMA-ME.

Então a Feminista paciente pensa que a pessoa começou a construir uma visão menos deturpada do Feminismo. E a pessoa aparece com o “argumento” de que tem mulher que não se dá ao respeito, que sai transando com todo mundo, então o homem tem de puxar a rédea dela. Além disso, diz a pessoa: “há mulheres que usam roupas escandalosas e depois não sabem por que são estupradas”. A Feminista paciente, além de dizer que é ofensiva a ideia de comparar uma mulher a uma égua, que precisa andar a partir dos comandos de um homem, volta a falar sobre a questão da autonomia, de que ninguém tem o direito de ditar regras sobre como o outro deve viver, sobre como o outro deve pautar a sua vida sexual, sobre o seu corpo, enfim (sim, a Feminista paciente fica um bom tempo explicando que o feminismo  defende o direito de escolha da mulher sobre o seu corpo e, por isso, tem como uma de suas lutas a descriminalização do aborto, para que a mulher possa escolher se vai ou não prosseguir com uma gravidez). A Feminista paciente diz, com convicção, que nós somos seres de desejo, e que negar isso, é negar a nossa constituição humana.

A Feminista paciente aproveita para dizer que quando falamos que alguém não se dá ao respeito, estamos repetindo um discurso sem saber como ele foi construído. Dizer que uma mulher não se dá ao respeito, é querer tolher a autonomia dessa mulher, porque partimos do pressuposto de que ela deve andar conforme as nossas regras, conforme o que acreditamos ser o “certo”. E isso é o mesmo que postular que a mulher deve desconhecer o seu próprio corpo, desconhecer e ignorar os seus desejos, ignorar a busca pelo prazer. Em síntese, é dizer que a mulher deve se anular. Além disso, a Feminista paciente postula que dizer que uma mulher foi estuprada por estar usando roupas curtas é uma das mais cruéis falácias propagadas pela cultura do estupro. Isso é transformar a vítima em ré.  A Feminista paciente conclui dizendo que quando o assunto é respeito, não deve haver um “se”.

Então a pessoa fica em silêncio por alguns segundos e dispara que sente vergonha pelas mulheres que usam roupas curtas porque isso é se desvalorizar, é desvalorizar a todas as mulheres. A Feminista paciente diz, de coração, que não sente vergonha pelas mulheres que usam roupas curtas; ela sente é orgulho por ver as mulheres se sentindo bem com a roupa que escolheram, não com a roupa que o patriarcado fez com que muitas mulheres acreditassem que fosse a única opção. A Feminista paciente ainda enfatiza que jamais aceitará conservadorismo em pele de Feminismo.

A pessoa diz que não é conservadora, mas acha horrível ver/escutar mulher xingar palavrão. A Feminista paciente pergunta se a pessoa se incomoda quando vê/escuta homem falar palavrão, e ela responde que não, o problema é quando mulher pensa que é homem e sai usando um linguajar chulo. A Feminista paciente diz que se a pessoa tivesse falado que não gosta de ver quaisquer pessoas, independentemente de gênero, falando palavrão, ela respeitaria, embora acredite que esta postura seja um tanto quanto conservadora. Mas quando a pessoa disse que o problema está no fato de mulher falar palavrão, ela assumiu uma postura machista, porque assumiu que o direito de extravasar, por meio do uso de palavrões, seja algo exclusivo do homem.

A Feminista paciente deixou bem claro que acha tranquilo, sim, o ato de se falar palavrão se for para extravasar, mas, em momento nenhum apoia o slut shaming, que é, em linhas gerais, quando se chama a mulher de puta. As pessoas fazem isso da forma mais cruel possível. Chamam mulheres de putas porque elas usam roupas curtas. Chamam mulheres de putas/piranhas e derivados por elas não terem medo de falarem sobre sexualidade, sobre vida sexual, entre outros. Em suma, slut shaming é julgar o caráter de uma mulher por um motivo aleatório e, para tanto, usar um xingamento de cunho sexual.

A pessoa tenta mudar o rumo da prosa e menciona que conhece uma mulher que diz que não é feminista, é feminina. A Feminista paciente diz que o raciocínio da tal mulher parece estar confuso, porque o Feminismo luta para que as mulheres sejam o que elas quiserem ser, para que elas sejam livres. Então, em momento algum, o Feminismo pretende “masculinizar” as mulheres. O que ele propõe é uma reflexão sobre os papéis de gênero, sobre o que se postula “ser coisa de homem” e “ser coisa de mulher”, ou seja, ele propõe uma reelaboração dos conceitos de “feminino” e “masculino”, mas não para por aí, o Feminismo também se atenta para a questões que envolvem pessoas transgênero.

A Feminista paciente diz que o Feminismo propõe que pensemos sobre como as imposições de papéis de gêneros são prejudiciais à constituição das pessoas como sujeitos. Mas o Feminismo jamais vai dizer para uma mulher não usar maquiagem ou não usar salto. Ele vai dizer para a mulher que ela tem uma escolha: se ela quiser, pode usar salto, mas se não quiser, não precisa usar, mesmo que se sinta desconfortável, porque disseram-lhe que mulher só fica elegante de salto. O Feminismo vai dizer que uma mulher pode usar maquiagem, se isso faz com que ela se sinta bem, mas se ela não quiser usar, não precisa, porque a ideia de que a maquiagem faz com que a mulher fique bonita é uma imposição de padrões de beleza que oprimem, e, portanto, devem ser repensados.

A pessoa dá um sorriso de “agora, vou te colocar entre a cruz e a espada” e diz que não compreende a falta de coerência das feministas que criticam o “Lingerie Day” e acham normal aquele bando de mulher desfilando de sutiã pelas ruas na “Marcha das Vadias”. A Feminista paciente faz toda uma explanação sobre o fato de que uma das coisas interessantes do Feminismo é que ele não é linear. Ela diz que o Feminismo não tem um posicionamento único, canônico, sobre inúmeras questões; ele tem tendências diversas, ele é um movimento plural. As tendências feministas que se opõem ao “Lingerie Day” o fazem com base na ideia de que neste evento, a mulher é objetificada, está ali para receber um “selo de qualidade”, para ser “comprada” pelo homem que melhor puder bancar as melhores lingeries, que, claro, são as únicas coisas das quais uma mulher precisa, é tudo o que uma mulher precisa para ser mulher, para ser completa, né? (a Feminista paciente pede para explicar que foi irônica). Já na Marcha das Vadias, a mulher está utilizando o corpo como forma de protesto. E antes que a pessoa comece a questionar o uso do nome “vadias”, a Feminista paciente diz que o nome é usado de forma irônica, ressignificada, não para diminuir as mulheres como ocorre quando se faz slut shaming.

A pessoa diz que ainda acha isso tudo muito estranho e que só falta a feminista dizer que acha certo mulher com mulher ou homem com homem, o que é um absurdo, porque Deus fez a mulher para o homem, e não para outra mulher.

A Feminista paciente diz que o fato de a pessoa achar tudo muito estranho é um reflexo do sexismo, do sexismo institucionalizado, que chamamos de patriarcado. Ele não abre possibilidades para além do postulado por um conjunto de regras tiradas de sabe-se-lá-onde que vestem um falso manto de organização para perpetuarem a opressão. A Feminista paciente diz que, no início da conversa, falou a palavra autonomia. A Feminista paciente diz que, como já mencionou anteriormente, o Feminismo não abre mão da ideia da autonomia. Logo, dizer que uma pessoa não deve ter autonomia sobre a sua orientação sexual não é algo que seja razoável; é bastante questionável, na verdade.

A pessoa diz que a Feminista paciente é muito conivente com coisas erradas, e que se tem uma coisa que ela não poderá negar é o fato de que mulheres que questionam muito não arrumam marido, porque nenhum homem aguenta mulher buzinando na orelha dele.

A Feminista paciente começa a ficar impaciente, e diz que, quando descobriu que podia questionar, a mulher também descobriu que, se não quisesse, não precisava se casar, porque descobriu que, mais do que encontrar um parceiro, importava-lhe se encontrar. E, de posse de um conhecimento sobre si, seu corpo, sua sexualidade, sua inteligência, enfim, a mulher concluiu que, se quisesse se casar, e um homem dissesse que, para isso, ela teria de ficar mais calada, ela não se casaria com esse homem, porque não precisava de alguém lhe dizendo como deveria agir.

A pessoa diz que, com esse tom, a Feminista paciente (que, neste momento já se metamorfoseou em Feminista impaciente) não vai angariar simpatizantes para a sua causa, que ela deve falar de maneira mais suave. A pessoa ainda fala, como se estivesse ministrando uma aula sobre planetas e mitologia, que homens são de Marte, e mulheres são de Vênus. Ela se demora em dizer que Marte é o deus da guerra, e que Vênus é a deusa do amor. E que homens têm de, naturalmente, serem a voz forte, a voz da guerra, e mulheres serem uma voz que transmita amor, paz.

A Feminista impaciente diz que a pessoa deixou claro que, em momento algum, tinha a intenção de se tornar simpatizante da causa feminista, e isso não tem nada a ver com o tom das explicações. A pessoa não tinha a intenção de se tornar uma simpatizante da causa feminista porque, durante toda a conversa, demonstrou resistência a um dos baluartes do Feminismo: a autonomia. Quando se reconhece a autonomia da mulher, não se postula que ela tem de ser dócil, que ela não pode dizer tal coisa, que ela não pode se vestir de tal maneira, que ela não pode se comportar de tal maneira. Reconhecer a autonomia de uma mulher é compreender e respeitar o fato de que ela faz as suas próprias escolhas, e isso inclui usar o tom que achar necessário para falar. A Feminista impaciente diz, quase como em um grito de libertação, que mulheres não são de Vênus, são de onde quiserem ser.

Ainda não entenderam o porquê de eu estar cansada? Estou cansada dessa incompreensão premeditada, dessa incompreensão-escudo, dessa incompreensão que visa à manutenção do modelo patriarcal, que reduz a mulher a um ser desprovido de vontades, de desejos, de direito de escolha, enfim, que reduz a mulher a um não ser,  desprovido de autonomia. Estou cansada do machismo. Eu estou cansada, mas, como falei no início deste texto, eu não largo os béts porque acredito que o Feminismo seja uma ferramenta que nos permita desencavar, das montanhas de empecilhos colocados pelo patriarcado, a autonomia.

Jogos Vorazes (Suzanne Collins)

Publicado em

A pagadora de promessas

Sou muito grata à literatura. Ela salvou a minha vida de todas as maneiras que poderia salvar. Compreendam, eu não disse que a literatura É salvadora, eu disse que ela pode salvar, e eu me considero um exemplo disso. Não entrarei em detalhes, porque não quero me desviar do foco deste texto, mas eu precisava situar a importância da literatura na minha vida, antes de prosseguir.

Além de tudo o que fez por mim – me apresentar outros mundos, me levar a lugares nos quais jamais colocarei os pés, entre outros (muitos outros!) – a literatura me reservou uma surpresa: ela me deu amigos. Não por acaso, mantenho, no facebook, dois álbuns bem específicos: um para os amigos que conheci por causa de Harry Potter e um para os amigos que conheci por causa da obra de Tolkien. Com Jogos Vorazes, a situação foi diferente. Não fiz amigos por causa da série escrita por Suzanne Collins, conheci a série por causa de amigos. Mesmo que o texto fique repetitivo, preciso ressaltar que são amigos que fiz por causa da literatura e, dessa vez, quem intermediou o processo foi o fórum Meia Palavra.

Adoro amigo oculto. E quando começamos com essa brincadeira, no Meia Palavra, fiquei empolgadíssima. Por questões que não vêm ao caso, não pude participar do amigo oculto do dia do amigo. Fiquei bem triste em não poder participar, porque eu realmente gosto da brincadeira. Gosto da oportunidade de socialização que ela proporciona, entre outros. Algumas pessoas que também participaram das edições anteriores de amigo oculto do fórum também ficaram tristes pela minha ausência na última edição.

Em um belo dia, um funcionário dos correios entregou um pacote na minha casa. Quando abri o pacote, descobri que 11 amigos,  nove (a Anica e a Bel eu conheci no fórum Valinor) dos quais conheci no fórum Meia Palavra – a saber: Abylos, Anica, Carol Acunha, Gabriel, Gigio, Bel, Maníaca do Miojo, Calib, Marci, Mavericco e Paulinha – tinham preparado um livrinho, com mensagens lindas, para mim, e me enviaram a trilogia Jogos Vorazes. Eu fiquei tão comovida que antes de conseguir entrar no fórum para agradecê-los, tive de esperar um tempo.

Eu já tinha ouvido falar sobre Jogos Vorazes, claro. Mas os comentários que eu ouvia sobre o livro eram substancialmente feitos por parte dos meus amigos que falava sobre o fato de a premissa de Jogos Vorazes lembrar Battle Royale, que eu já li e gosto bastante. Pouco antes de a adaptação cinematográfica do livro de Collins ser lançada, uma amiga, que as pessoas que frequentam o fórum Valinor e/ou o fórum Meia Palavra conhecem como Ceinwyn, me falou que não conseguia parar de se lembrar de mim, quando leu o livro. Segundo ela, eu era a Katniss – protagonista do livro.

Quando perguntei o porquê de tal afirmação, ela logo foi falando que a Katniss era uma mulher forte, que não conhecia o significado da palavra “desistir”, e que era uma mulher independente, admirável, apaixonante.  E comentou, ainda, que outras características da personagem foram decisivas para que ela se lembrasse de mim. Katniss é impulsiva e ranzinza. Pronto. Eu estava convencida de que teria de ler o livro. Passei por ele, na livraria, por diversas vezes, mas não pude adquiri-lo. Eu sempre dizia, mentalmente “fica para a próxima!”.

O meu desejo de ler a obra aumentou quando Tuca publicou, no blog do Meia Palavra, o texto “Jogos Vorazes e o feminismo”.  Então vocês podem imaginar o quão feliz fiquei quando os onze amigos, que mencionei no início do texto, para compensar o fato de eu não ter podido participar do amigo oculto, me presentearam com a trilogia. Na ocasião, prometi-lhes que resenharia os três livros e, agora, que terminei de ler os três livros, começo a cumprir a minha promessa.

Que comece a resenha!

 Image
O foco narrativo de Jogos Vorazes é centrado na primeira pessoa. Tomamos conhecimento dos fatos a partir do olhar de Katniss Everdeen, uma jovem de 16 anos que cuida da sua família desde antes de completar 12 anos. Quando o pai de Katniss faleceu, vítima de uma explosão na mina em que trabalhava – o Distrito 12, lugar em que a adolescente vive, tem como especialidade a produção de carvão – ela se viu obrigada a descobrir maneiras de garantir a sobrevivência da mãe – que entrou em depressão após a morte do marido – e da irmã mais nova.

As três passaram fome, até que a irmã mais velha, vendo a irmã que amava literamente morrer de fome, decide quebrar regras e se lançar em busca de meios de sobrevivência. Foi assim que Katniss acabou se tornando uma especialista na arte de caçar, o que era um dos seus principais trunfos para se manter viva durante a realização dos Jogos Vorazes. E impulsionada pela necessidade de aprender a caçar, Katniss conheceu Gale, o seu melhor amigo que, assim como ela, perdeu o pai na explosão que houve na mina e também tinha de garantir a subsistência da família.

“- Senhoras e senhores, está aberta a septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes!” (p. 162). Na realidade, os Jogos Vorazes já haviam começado há muito tempo, bem antes de o apresentador dos jogos anunciar o suposto início da septuagésima quarta edição da competição. O fato de os 13 distritos constituintes de Panem – um país que nos apresenta uma realidade pra lá de distópica – terem empreendido uma revolta contra a Capital já demonstra isso. A instituição dos Jogos Vorazes, como maneira de fazer com que os moradores dos distritos se lembrem de como pode ser doloroso se revoltar contra a Capital, é uma maneira de reencenar a voracidade com a qual a Capital devorava, dia após dia, as forças das pessoas dos 12 distritos que ainda restaram depois da revolta.

Na abertura da Colheita – cerimônia na qual os tributos de cada distrito que participarão dos Jogos Vorazes são escolhidos – o prefeito disserta sobre como os jogos surgiram:

Ele conta a história de Panem, o país que se ergueu das cinzas de um lugar que no passado foi chamado de América do Norte. Ele lista os desastres, as secas, as tempestades, os incêndios, a elevação no nível dos mares que engoliu uma grande quantidade de terra, a guerra brutal pelo pouco que havia restado. O resultado foi Panem, uma resplandecente Capital de treze distritos unidos que trouxe paz e prosperidade a seus cidadãos. Então vieram os Dias Escuros, o levante dos distritos contra a Capital. Doze foram derrotados, o décimo terceiro foi obliterado. O Tratado da Traição nos deu novas leis para garantir a paz e, como uma lembrança anual de que os Dias Escuros jamais deveriam se repetir, também nos deu os Jogos Vorazes (COLLINS, 2010, p. 24).

Todo o discurso de que os distritos deveriam ser gratos à Capital por terem recebido o “perdão”, proferido pelo prefeito do distrito 12 e pelos demais responsáveis pela realização dos jogos, nos remete, imediatamente, ao clássico livro de George Orwell: 1984. É impossível, ao nos familiarizarmos com o enredo de Jogos Vorazes, não nos lembrarmos desse clássico da literatura, especialmente quando nos deparamos, no livro de Collins, com a vigilância a qual a Capital submete os 12 distritos. Não seria exagero se adaptássemos uma irônica frase daquele livro “O grande irmão zela por ti” para : “A Capital zela por ti”.

E a ideia de que as pessoas são vigiadas o tempo todo – quem não leu 1984, pode se lembrar da dinâmica do Big Brother Brasil, porque os moldes da competição são o de um reality show – é reiterada durante todo o livro, perpassada, claro, por um discurso crítico. Lembro-me, bem, de uma fala de Katniss, no início do livro, sobre a discrepância entre as cercas que “protegiam” o distrito no qual ela residia e a falta de alimentos para as pessoas do distrito: “Distrito 12, onde você pode morrer de fome em segurança”. (p.12).
As regras dos Jogos Vorazes são simples, embora extremamente cruéis:

Como punição pelo levante, cada um dos doze distritos deve fornecer uma garota e um garoto – chamados tributos – para participarem. Os vinte e quatro tributos serão aprisionados em uma vasta arena a céu aberto que pode conter qualquer coisa: de um deserto em chamas a um descampado congelado. Por várias semanas os competidores deverão lutar até a morte. O último tributo restante será o vencedor. (COLLINS, 2010, p. 24-25).

Ao ver que a irmã, de doze anos, havia sido escolhida como o tributo feminino do Distrito 12, Katniss, imediatamente, se ofereceu para substituí-la como tributo. Peeta Mellark, o filho do padeiro, foi o tributo masculino sorteado para representar o Distrito 12 nos Jogos Vorazes.

O enredo é simples, a trama é simples, mas, nem por isso, deixa de ser interessante. Na primeira parte do livro, temos, além do sorteio dos nomes, a preparação dos 24 tributos – dois de cada Distrito – para os jogos. Embora, inicialmente, a ideia da preparação possa passar a impressão de que a narrativa fica arrastada, o que acontece, na realidade, é o contrário. Durante a primeira parte do livro ganhamos a rica oportunidade de conhecermos um pouco mais sobre Katniss e Peeta e, então, começamos a organizar o que sentimos por eles. Eu já gostei da Katniss desde as primeiras páginas do livro, mas sei que outros leitores demoram um pouco mais para se conectarem aos personagens das obras que leem. Quanto a Peeta, arrisco dizer que ele é um dos personagens mais adoráveis da literatura.

Na primeira parte do livro, assim como o trem que  conduz  os tributos do Distrito 12 à Capital, a narrativa tem um ritmo acelerado. O leitor tem de se preparar para digerir uma quantidade imensa de informações, assim como os personagens, que estão sendo apresentados ao mundo que conheciam apenas pela televisão. Quando os jogos, efetivamente, começam, o leitor já está habituado ao ritmo da narrativa, e, de certa forma, pede para que a dinâmica permaneça a mesma.

Um dos méritos da escrita de Collins está em conseguir manter o ritmo da narrativa mesmo quando os dois tributos do Distrito 12 não estão contracenando. Embora eu esteja falando de cenas enunciativas, o uso da palavra contracenar tem o intuito de ressaltar o caráter audiovisual da escrita da autora, porque o leitor, de certa forma, assume o papel de telespectador dos Jogos Vorazes. E as várias intervenções que Katniss faz, durante a narrativa, para imaginar como as pessoas dos distritos estão reagindo diante dos acontecimentos, instala os leitores em um lugar no qual eles se tornam integrantes dos distritos.

Ter Peeta em cena é interessante para que o leitor seja premiado com alguns momentos de humor, e com a sugestão de um romance, o que é um refresco em meio a tanta tensão ocasionada pelos jogos. Mas não tê-lo faz com que criemos uma expectativa acerca dele. Começamos a conjecturar acerca de quando ele reaparecerá. E mais, começamos a questionar qual será a atitude de Katniss quando ele aparecer.

Quando Katniss está sozinha, temos mais momentos reflexivos, o que é normal por ela se tratar de uma narradora protagonista, mas nem por isso, a narrativa fica arrastada. Entre os momentos de reflexão de Katniss, é interessante destacar aquele no qual ela, ao olhar para a lua cheia, começa a questionar se a lua que vê, na arena em que são disputados os Jogos Vorazes, é real ou é apenas uma projeção arquitetada pelos organizadores dos Jogos. Ela deseja, ardentemente, que seja real. Que seja algo a que ela pudesse se “agarrar no mundo surreal da arena, onde a autenticidade de tudo deve ser colocada em xeque”. (p. 332). Esse momento fez com que eu me lembrasse do filme O show de Truman, no qual o mundo que Truman acredita ser real não passa de um cenário de um reality show.

Enquanto Suzanne Collins luta com as palavras, para a constituição de Jogos Vorazes, os 24 tributos lutam para se manterem vivos. Os holofotes, assim como Haymitch – a única pessoa do distrito 12 que conseguiu vencer os Jogos Vorazes e que, agora, é mentor – estão centrados em Peeta e Katniss, os tributos do Distrito 12, mas nem por isso os demais tributos deixam de ser importantes para o enredo. Pelo contrário. Ao me embebedar das palavras que Gandalf utilizou para se referir a Gollum em O Senhor dos Anéis, posso dizer que todos os tributos têm um “papel a desempenhar” nos Jogos Vorazes.

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