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O Sentido de um fim (Julian Barnes)

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osentidodeumfimEu sinto muito frio. Às vezes, tento travar uma disputa com a minha resistência e fico descalça no chão gelado. É um pequeno gesto de rebeldia, que logo abandono, pois o frio me vence e eu não apenas calço os chinelos como também me repreendo por ter pensado que conseguiria lidar melhor com o frio. De modo análogo, algumas lembranças, que enterramos bem fundo, às vezes começam a despontar e, mesmo que saibamos que há um motivo para elas terem estado soterradas por um bom tempo, insistimos em tirá-las de onde estavam e tentar lidar com elas.

É o que objetiva fazer Antony Webster, Tony, que, mais do que narrador-personagem, é narrador-protagonista de O Sentido de um fim, romance Julian Barnes, publicado no Brasil pela editora Rocco em 2013. No processo, embora tente calçar os sapatos e aquecer os pés, ele se dá conta de que não há mais sapatos, há apenas chão e, se quiser que os pés não congelem, precisa andar, sem parar, pelos caminhos da memória e passar muitas vezes pelo mesmo lugar, para se manter aquecido por algumas lembranças aproximadas que o tempo deformou em certeza (p.06).

Quando li o título O sentido de um fim, vencedor do Prêmio Man Booker 2011, acho que, por um certo condicionamento social, pensei imediatamente que se tratava do fim de um relacionamento amoroso. Ao começar a ler o livro, também pensei nisso durante um tempo, até perceber que o título era mais filosófico, e ambíguo, do que aparentava ser, o que, de certo modo, é um anúncio do que podemos encontrar na narrativa, sobre a qual não conseguirei falar sem spoilers. Uma vez que as inquietações sobre as quais pretendo falar estão intrinsecamente ligadas às particularidades do enredo da obra, acho interessante que as pessoas só terminem de ler este texto após a leitura do livro.

Ainda sobre o título, destaco a coincidência da tradução, literal, de The Sense Of an Ending que, intencionalmente ou não, acaba por brincar com a sonoridade da palavra “Fim” para, de antemão, nos dizer, de modo poético, filosófico e triste sobre o suicídio do personagem Adrian Finn, cuja pronúncia do sobrenome é “fim”. Mas esse é um comentário descompromissado, daqueles que a gente faz por se achar inteligente em fazer associações esdrúxulas ao invés de falar sobre o que realmente importa.

O cenário do narrado em O sentido de um fim começa a ser construído no ambiente escolar. Nessa etapa, a rememoração ganha contornos de um filme do  John Hughes co-dirigido por Richard Linklater. O tom da narrativa é nostálgico, constrangedor e, talvez, exatamente por isso, muito divertido. Somos, então, apresentados ao quarteto formado por Tony, Colin, Alex e Adrian. Este começou a estudar na mesma escola em que aqueles bem depois, mas, ao contrário de Colin e Alex, permaneceu na vida de Tony e na história que nos é contada.

A jornada rememorativa de Tony fica mais evidente quando ele recebe 500 libras, que lhes foram deixadas em testamento pela mãe de uma mulher que namorara há quatro décadas, e o aviso de que a falecida também lhe deixara outra coisa, a saber: o diário de Adrian, que suicidou aos 22 anos. Enquanto se articula para reaver o diário, que estava sob os cuidados de sua ex-namorada, Verônica Mary Ford, Tony nos brinda com fragmentos de memória que, ao serem retrabalhados, reescritos e reorganizados nos ajudam a construir uma história.

No tempo da enunciação de O Sentido de um fim,  Tony Webster está na casa dos sessenta anos, e busca elaborar acontecimentos de mais de quarenta anos, procura inferir ações passadas a partir de estados mentais do presente (p. 32). Apesar de alguns dados claros sobre a vida do protagonista, como: ter se casado, tido uma filha, se divorciado e ser aposentado, muitas das lembranças narradas saem propositalmente borradas pelo tempo. Ao tomar como ponto de partida a tinta dos borrões, o narrador nos convida para presenciar a reescrita das suas lembranças e, em última e principal análise, da sua vida.

Para isso, ele faz um exercício de rememoração que gira, quase sempre, em órbita do seu relacionamento com o amigo da época de colégio, Adrian Finn, e com ex-namorada com quem se envolveu nos primeiros anos da faculdade, Verônica Mary Ford. Pouco tempo após o rompimento do relacionamento com Tony, Verônica começou a namorar Adrian. À época, este enviou uma carta àquele, falando sobre o namoro e perguntando se isso afetaria a amizade deles. No primeiro momento, Tony não quis demonstrar o descontentamento, e mandou, como resposta, um cartão postal com palavras inofensivas.

Depois, ele decidiu se dizer como sentia e, dominado pela mágoa, enviou uma carta cheia de xingamentos: classificou a inteligência, a lógica, e a racionalidade de Adrian como pedantismo; falou maus bocados de Verônica e  sugeriu que Adrian perguntasse à mãe da namorada como ela realmente era. Tony não teve mais notícias dos dois até que, por intermédio dos amigos em comum que tivera com Adrian no Colégio, soube que ele cometera suicídio.

Na carta que escreveu para o encarregado do inquérito do suicídio que cometeria, Adrian deixou uma explicação filosófica, o que era condizente com o que ele acreditava. Para ele,

a vida é um presente concedido sem que a pessoa o tenha pedido; que a pessoa que pensa tem o dever filosófico de examinar tanto a natureza da vida quanto as condições que vêm com ela; e que se esta pessoa decide renunciar ao presente que ninguém pediu, ela tem o dever moral e humano de colocar em prática as consequências desta decisão. (p. 34).

A justificativa lógica para o suicídio de Adrian é passivamente aceita pelo narrador e, também, pelos leitores, até a segunda parte do livro, quando depois de quarenta anos de afastamento, Verônica acaba voltando à vida de Tony por se recusar a lhe entregar o diário de Adrian.  As informações, a conta-gotas, que Verônica fornece ao narrador, por intermédio de e-mails ou durante os ríspidos encontros que tiveram, começam a fazer com que ele questione a maneira com que se lembrava de muitas coisas e, mais do que isso, faz com que ele comece a questionar  suas certezas.

Quase no fim do livro, começam a surgir respostas para alguns dos questionamentos que perpassam a segunda parte da narrativa. Mas essas respostas são, em seguida, refutadas, por outras respostas que mais parecem novos questionamentos. Por exemplo, há um momento em que o narrador acredita que Verônica teve um filho de Adrian. Enquanto dura essa crença, ele começa a pensar que Adrian não suicidou por uma questão de coerência, mas por não ter conseguido lidar com a gravidez da namorada.

E essa certeza permanece durante algum tempo, até que Verônica diz que o homem cujo nome é homônimo ao de seu namorado, é seu irmão. Nesse ponto, tanto a memória do narrador quanto a nossa começa a construir outro caminho e, acredito, o mais próximo de de que poderemos chegar de uma suposta verdade. Tony conclui que, ter engravidado a mãe da namorada, foi o motivo real para o suicídio de Adrian.

Embora essa pareça ser a conclusão lógica, devemos levar em conta que o narrador não é confiável. Isso fica bem claro quando ele fala sobre como foi o término com Verônica: Por exemplo, “Depois que terminamos, ela dormiu comigo” pode ser facilmente substituído por “Depois que ela dormiu comigo, eu terminei com ela”. (p.32). A maneira com a qual ele dispõe as palavras, corresponde ao efeito de sentido que ele pretende causar. E, ao assumir que pode ter se comportado com Verônica como um garoto inexperiente, ele busca passar ao leitor a impressão de que pretende fazer um relato justo. O rearranjo das palavras pode alterar significativamente o sentido de um discurso e, no caso em questão,  pode alterar as memórias que costuram a narrativa.

Ao longo da trama, por diversas vezes, o narrador antes de fazer uma citação, pergunta: “quem foi que disse” o que ele mencionará a seguir. Quem foi que disse que a memória é o que nós achamos que tínhamos esquecido? E devia ser óbvio para nós que o tempo não age como um fixador, e sim como um solvente. (p. 43). Mais do que um marcador conversacional, o “quem foi que disse” é um recurso narrativo que cumpre o papel de reiterar que, no tribunal da verdade, a memória não é uma testemunha confiável, pois pode ser, parcial ou integralmente, dissolvida pelo tempo.

A parir disso, pode-se dizer que a proposital unificação que o narrador faz entre o conceito de  “História” e “história”, é mais  do que um indício de que, de certo modo, durante toda a sua vida, ele tentou se igualar intelectualmente à Adrian, que colocava em cheque a definição oficial de História ao plantar a semente da dúvida na objetividade do historiador; é um sinal de que ele pretende, tal qual um historiador, colocar a sua versão dos fatos diante de nós, leitores. Tony Webster é graduado em História. Logo, sua opção por emaranhar os sentidos de História e história não é aleatória, e uma estratégia narrativa adotada pelo autor para desenvolver o enredo.

Nessa linha de raciocínio, no primeiro parágrafo, há a construção de uma espécie de metáfora de antecipação ou, em uma leitura mais abrangente, poderíamos considerar o primeiro parágrafo como uma metonímia do enredo, uma parte que significa o todo, uma parte que alegoriza o todo. É como se tivéssemos um parágrafo-ementa. Mas só conseguimos compreendê-lo como tal após o término da leitura.

Eu me lembro, em ordem aleatória: — do brilho da face interna de um pulso; — do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro; — de gotas de esperma girando em volta de um ralo, antes de serem tragadas e descerem pelo cano de uma casa alta; — de um rio correndo sem sentido contra a corrente, o movimento das águas iluminado por meia dúzia de lanternas em perseguição; — de outro rio, largo e cinzento, a direção da sua corrente disfarçada por um vento forte agitando a superfície; — da água do banho já fria por trás de uma porta trancada. (p.06)

Quando somos surpreendidos pelos relatos finais do livro, sentimo-nos impelidos a revisitar o que o narrador contou. Assim, começamos a questionar o que, durante a leitura, aceitamos como normal. A começar pela imagem do brilho da face interna de um pulso. Isso sintetiza o início do relato do narrador, pois virar o relógio para a face interna do pulso era um ritual que ele e seus amigos da época do colégio faziam. A próxima lembrança elencada, a  do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro. (p.06) diz respeito a algo que só pensaremos com mais cuidado quase no fim da narrativa.

Antes de sabermos que a mãe de Verônica teve um caso com Adrian, encaramos como inocente a interação entre ela e Tony quando ele fora passar um fim de semana na casa dos pais da namorada. A lembrança da frigideira na pia faz referência ao momento em que a Senhora Ford preparava o café da manhã do namorado da filha. As gotas de esperma na pia também fazem referência ao fim de semana mencionado; trata-se de Tony ter se masturbado antes de ir dormir.

A menção  ao movimento das águas iluminado por meia dúzia de lanternas faz referência a uma das memórias a que o narrador mais volta, a de quando ele testemunhou a Serven bore, que  é um fenômeno que ocorre no Sudoeste da Inglaterra. Não compreendo todos os meandros do fenômeno, mas, grosso modo, é algo que acontece quando a maré se move para dentro do canal de Bristol, que tem o formato de um funil, e do estatuário do rio Serven, e a água se concentra em diversas ondas. Na primeira vez que o fato é contado, o narrador diz que estava sozinho. Posteriormente, ele diz que Verônica, estava com ele. Qual das duas versões realmente aconteceu, não se sabe.

E então, temos uma menção sutil a um dos acontecimentos mais rememorados ao longo da história: o suicídio de Adrian, que trancou o banheiro e se matou em uma banheira. É interessante notar que o narrador, no parágrafo seguinte, faz questão de pontuar que essa lembrança não é de algo que ele viu ou vivenciou, já que Adrian estava sozinho quando se matou – e, na época em que isso aconteceu, os dois já não se falavam mais -,  mas é algo que faz parte da sua história e, de certo modo, acaba por fazer parte da pessoa que ele se tornou: Este último não é algo que eu vi de verdade, mas o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu. (p.06).

Com essa afirmação, é como se o narrador nos alertasse para o fato de que ao contar suas lembranças, ele pode criar coisas que não aconteceram, e também pode sublimar coisas que efetivamente aconteceram, mas não nos damos conta disso até que terminemos de ler o livro. Inicialmente, aceitamos a fala apenas como um indício de que a memória é falha, nada mais. No desconhecimento do todo, acabamos por encarar como simples a interpretação que o narrador faz do sorriso da mãe de Verônica.  Quando Tony conta de como se despediu dos pais da então namorada, após passar um fim de semana na casa deles, ressalta que, após o Senhor Ford fazer uma piada, e dizer à esposa para conferir as colheres, ela não respondeu, apenas sorriu para mim, quase como se compartilhássemos um segredo. (p. 23).

Outro fragmento aparentemente simples, mas que cobrimos com um sentido menos ingênuo após as peças do quebra-cabeça serem colocadas na mesa, o que acontece na segunda parte do livro, é  a maneira com a qual o narrador disse que a mãe de Verônica se despediu dele:

Quando o Sr. Ford engrenou o carro e acelerou, eu acenei e ela respondeu, embora não do jeito que as pessoas costumam fazer, com a palma da mão levantada, mas com uma espécie de gesto horizontal na altura da cintura. Eu desejei ter conversado mais com ela. (p. 23).

Depois de sabermos que a Senhora Ford dormiu com Adrian, acabamos por assumir que o narrador falar que ela se despediu dele não do jeito que as pessoas costumam fazer seja um eufemismo para dizer que ela estava se insinuando para ele e, desse modo, ele acaba por plantar algumas dúvidas no campo das incongruências da memória. Há a sugestão de que o narrador também poderia ter dormido com a mãe de Verônica. Também há a possibilidade de a sugestão de que a senhora Ford demonstrou interesse nele seja apenas um jeito  de dizer que não era tão surpreendente assim ela ter se relacionado sexualmente com Adrian, então namorado da filha, pois já havia tentado – ou conseguido? – fazê-lo com o namorado anterior de Verônica.

O caso de Adrian com a mãe da Verônica não se sustentaria apenas como uma consequência de, na carta raivosa que Tony mandou ao ex-amigo quando soube que ele e a ex-namorada estavam juntos, ter sugerido que a mãe da ex- sabia que ela não foi uma boa namorada. Para isso, é importante sugerir que a Senhora Ford já teve a intenção de se relacionar com o namorado anterior da filha.

E as coisas começam a se encaixar, efetivamente, nas últimas páginas do livro, quando Tony se vê diante da relevação de que a mãe do filho que ele pensou ser de Verônica com Adrian era a Senhora Ford. A descoberta nos leva a compreender outro episódio. Quando, em um dos e-mails que troca com Tony, Verônica diz que o pai começou a beber muito e faleceu há 35 anos, apenas cinco depois da morte de Adrian, não dei muita atenção. Mas quando o narrador nos diz que a mãe da Verônica teve um filho com Adrian há quarenta anos, a informação começa a ter uma razão de ser. Após a traição, que resultou numa gravidez, o marido começou a beber desenfreadamente, o que danificou o esôfago e causou sua morte.

Ainda no campo das dúvidas implantadas pela descoberta do provável caso da Senhora Ford com Adrian, ganha contornos mais acentuados o narrador ter falado que a sua primeira vez não aconteceu com Verônica.

Eu não era exatamente virgem, caso você esteja se perguntando. Contando com a escola e a universidade, eu tive alguns episódios instrutivos, cuja excitação foi maior do que a marca que eles deixaram. (p.18).

Assim, o conselho da Senhora Ford: não deixe Verônica fazer gato e sapato de você (p.22), acaba por instaurar uma ambiguidade discursiva: ou ela apenas estava preocupada com aquele rapaz inocente ou ela estava desqualificando a filha por outro motivo. Da primeira vez em que o episódio foi mencionado, achei que tivesse sido um comentário normal, coisa que um adulto diria a um jovem inexperiente. E, àquela altura, também não duvidei de que Verônica, o pai e o irmão haviam saído enquanto sozinhos o namorado ainda dormia sob a desculpa de que ele não gostava de acordar cedo. A Senhora Ford disse que essa foi a justificativa de Verônica para não acordá-lo. Mas teria, mesmo, Verônica falado isso?

Além disso, a expressão “episódios instrutivos” não se encaixa no campo semântico das expressões que, geralmente, são usadas para se referir ao fato de um jovem fazer sexo com uma mulher mais velha? Talvez a minha interpretação esteja pendendo para esse lado por eu querer acreditar que o narrador não mencionaria a frigideira na pia e os espermas na pia sem uma maior pretensão. E, aqui, não acredito que a pretensão seja a de afirmar que Tony e a Senhora Ford tenham se relacionado sexualmente, mas sim a de sugerir que isso seria possível. Afinal, fazer literatura não é exatamente se debruçar sobre o que efetivamente acontece, mas trabalhar a partir do que pode acontecer. E fazer o leitor acreditar nisso é indispensável para que o pacto ficcional efetivamente aconteça.

Apesar de inquietante, o fim do livro sugere uma resolução, ainda que não pacífica, para as principais questões apresentadas. Mas não dá para esperar a afirmação de uma verdade. Afinal, a verdade, tal qual a memória, pode ser uma coisa feita de retalhos e remendos. Assim, o modo como Adrian definiu “História” quando estava no colégio, também é útil para definirmos O sentido de um fim: é uma narrativa  fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação. (p.14).

Ligações (Rainbow Rowell)

Publicado em

– Não aguento mais isso – disse. – Eu te amo, mas não acho que é o bastante, acho que nunca vai ser o bastante. Eu não quero viver assim, Georgie. (p.74).

Eu acredito em Rainbow Rowell. Foi o que pensei quando vi a capa do mais recente romance escrito pela autora de Eleanor & Park, um dos melhores livros que li em 2014. Olhei, com certa desconfiança, para a, quase sem quase nenhum atrativo, capa de Ligações. A Novo Século, editora responsável pela publicação, aqui no Brasil, dos quatro livros da autora estadunidense, manteve a ideia da capa da edição americana: um telefone amarelo e o título do livro escrito em uma fonte que cumpre o papel de simular a aparência do fio de um aparelho de telefone que caiu em desuso há, pelo menos, dez anos.

Eu realmente acredito em Rainbow Rowell. Foi o que eu pensei depois de ler a sinopse de Ligações. Georgie McCool e seu marido, Neal Grafton, têm duas filhas e uma vida feliz. Quase feliz. Infeliz, na maior parte do tempo, com alguns momentos felizes. Eles não sabem mais o que têm. Mas tentam não lidar com isso até que Georgie, a dois dias de viajar com o marido e as filhas para passar o Natal com a sogra, em Omaha, informa ao marido que não poderia ir, pois teria de ficar com Seth – seu melhor amigo e companheiro de trabalho desde os tempos da faculdade – escrevendo o roteiro de um programa que, finalmente, eles conseguiriam fazer. Depois de uma conversa permeada pelo silêncio e o rancor, Neal viaja, com as duas filhas, e Georgie fica em Los Angeles, para trabalhar.

Aquele programa era o sonho de Georgie. Era o sonho de Seth. Eles se conheceram quando trabalhavam na revista da faculdade, mesmo lugar em que conheceram Neal; este, ao contrário daqueles – que escreviam juntos uma coluna na página dois da revista Spoon –  era o cartunista responsável por uma aclamada, pelo menos por Georgie, tirinha da revista. Georgie e Seth sempre quiseram ter o próprio programa de comédia, mas tiveram de passar boa parte da vida escrevendo roteiros para programas que não eram exatamente o que eles queriam fazer. Às vésperas do Natal de 2013, conseguiram uma reunião com alguém que se interessara pelo programa. Teriam de passar os próximos dias escrevendo, pois a reunião aconteceria no dia 27 de dezembro. Precisavam de quatro roteiros prontos. Era tudo ou nada. Mas também chegara o momento do tudo ou nada para o casamento de Georgie e Neal. Ele estava em Omaha; ela estava em Los Angeles. Ambos estavam infelizes, mas não queriam admitir isso.

Quando li Eleanor & Park, antes da metade do livro eu já sabia que a Rainbow Rowell era uma autora que sabia escrever sobre o amor e sobre a dor. Não se trata de escrever uma história real, mas uma história possível pois, a meu ver, a ficção tem mais a ver com possibilidade do que com realidade. É por isso que ela é tão necessária, é por isso que ela me encanta. É por isso que aceitamos fazer o pacto ficcional. Eu fiz. Quando Georgie McCool, cujo celular só funcionava se estivesse conectado ao carregador,  se deu conta de que, ao usar o telefone amarelo que ficava no quarto que ocupara quando ainda morava na casa da mãe, conseguia falar com o Neal de 1998, época em que eles ainda eram namorados, decidi apostar todas as minhas fichas (com o perdão do trocadilho jurássico) em Ligações.

A estruturação do livro é feita por capítulos curtos, nos quais se alternam, majoritariamente, discurso direto e discurso indireto. Os capítulos não seguem uma ordem cronológica. Em um momento, vemos um fato ocorrendo em dezembro de 2013; em outro, um que acontecera em 1998. O foco narrativo do romance transita entre a primeira e a terceira pessoas. Por diversas vezes, Georgie assume o foco narrativo para problematizar algo previamente apresentado pelos diálogos, que são um dos maiores trunfos da autora. Rainbow Rowell é muito boa em construir diálogos. Eles são muito bem escritos e cumprem a função de apresentar a história e caracterizar os personagens, tanto física quanto psicologicamente.

É quando os protagonistas começam a dialogar, isto é, quando a narrativa recua no tempo e se debruça sobre o percurso trilhado por Georgie e Neal, que nos apaixonamos por eles. Inicialmente, mais pela Georgie do que pelo Neal. Depois, aos poucos, assim como fez com a Georgie, o Neal começa a nos cativar e, por vezes, nos irritar. Eventualmente, os dois acabam nos irritando, não por nos lembrarem de pessoas horríveis, mas por fazer com que nos lembremos do que há de mais fascinante e assustador nas pessoas: a falha natureza humana. A capacidade de fazer escolhas ruins. A capacidade de dizer palavras que ferem e a capacidade de tentar consertar os erros.

Georgie era, conforme o sobrenome McCool anuncia, uma garota legal, uma garota engraçada. Ela adorava séries dos anos 70, amava e queria ser roteirista de séries de comédia. Era, a seu modo, expansiva. Não por naturalidade, mas por necessidade. Se quisesse algo, faria o que fosse possível para tê-lo. Neal, como disse, em uma das muitas conversas que teve com a Georgie, não era bom em querer coisas. Ela disse que era boa em querer pelos dois. E era. Queria se casar com Neal. Queria ter filhos e queria ser uma roteirista de sucesso. Teve duas filhas. Antes que a primeira, Alice, nascesse, Neal decidiu abandonar o emprego – que  odiava – para cuidar da criança. Foi a solução que encontrou para aplacar a insegurança que atingira Georgie na reta final da gravidez. Ela temia que eles não conseguissem criar a filha se trabalhassem durante todo o dia. Ficou feliz com a decisão do marido de largar o emprego – pelo qual ele recebia pouco – para cuidar da filha. Quando Noomi (Naomi, mas apenas a avó paterna a chamava assim) nasceu, Neal continuou a cuidar das filhas para que Georgie trabalhasse. E ela trabalhava muito. Chegava tarde em casa, quase nunca estava presente na hora do jantar.

Neal era calado, recluso, e extremamente observador. Ele vira Georgie bem antes de ela se interessar por ele; soube que queria estar com ela bem antes de efetivamente estar. Mas ele não era de muitas palavras. Sua personalidade é apresentada aos leitores por meio de suas expressões faciais, descritas com precisão ao longo do livro. Quando as covinhas apareciam, ele estava sorrindo, mesmo que quase nunca sorrisse. Sua respiração denunciava quando ele estava irritado. Mas ele evitava, ao máximo, demonstrar como se sentia. Mas Georgie sabia. Aprendeu a interpretar o introvertido Neal.

Com a introdução das conversas telefônicas entre a Georgie de 2013 e o Neal de 1998 – que não sabia que estava conversando com a “Georgie do futuro” –  podemos perceber que Neal protagoniza uma inversão das funções da linguagem. Geralmente, quando se falam ao telefone, as pessoas fazem o uso da função fática, isto é, utilizam, em excesso, expressões como “aham”, “uhum”, “oi”, entre outras. Entretanto, no caso de Neal, era o contrário. O Neal de 2013, que conhecemos no primeiro capítulo do livro, usa poucas e curtas palavras enquanto conversa com sua esposa. Quando Georgie fala ao telefone com o Neal de 1998, ele usa frases maiores e  poéticas. Diz que a ama, que sente sua falta, entre outros. É claro que o Neal das ligações era mais jovem, com menos responsabilidades, logo, mais descontraído, mesmo que descontração e Neal na mesma frase seja algo paradoxal. Mas foi pelo Neal das ligações que Georgie se apaixonara. Aquele que não falava muito com os outros, mas se sentia quase à vontade para falar com a mulher que amava.

Era esse Neal que Georgie  estava tentando resgatar na semana em que eles ficaram separados. Na semana em que, ao usar o telefone da casa de sua mãe, falava com o Neal do passado, Georgie tentaria descobrir quando foi que o relacionamento deles descarrilhara, e, de posse desse conhecimento, tentaria fazer escolhas melhores. Mas ela ainda não sabia quais eram essas escolhas. Ela não sabia nem mesmo se estava falando com o Neal do passado ou se estava alucinando por não conseguir falar com ele no presente.

Para sair do impasse que a partida silenciosa de Neal deixara, Georgie teria de colocar o telefone no ouvido, desenrolar o fio e ouvir; não apenas o Neal do passado, não apenas o silêncio do Neal do presente, mas ouvir, nas palavras que proferia enquanto falava com Neal, o que a Georgie do presente fez no passado e como suas ações a trouxeram ao presente. Enquanto Georgie desenrola o fio do telefone para compreender qual é o lugar que Neal ocupava atualmente em sua vida e qual é o lugar que ela queria que ele ocupasse em sua vida, Rainbow Rowell desenrola o fio narrativo de um livro que fascina, encanta, e nos faz refletir sobre o fato de que, mais do que  falar sobre  ligações telefônicas, seu novo romance nos fala sobre a ligação que há entre pessoas, gestos, vontades e escolhas.

Uma das minhas falas preferidas de Eleanor & Park é a seguinte: a gente acha que abraçar uma pessoa com força vai trazê-la mais para perto. Pensamos que, se a abraçarmos com muita força, vamos senti-la, incorporada em nós, quando estivermos longe. Com isso em mente, terminarei este post e abraçarei, bem forte, o meu exemplar de Ligações, para que eu possa senti-lo mesmo quando estiver longe dele e, principalmente, longe de mim.

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