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Em busca do livro-óleo

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livro21O que leva um leitor a escolher um determinado livro para ler em detrimento de outro, varia de leitor para leitor. A subjetividade tem um papel importantíssimo no processo, entretanto, ela não é a única responsável pela decisão final. Andemos dois passos e retrocedamos um. Pela decisão final, ela pode até ser a responsável, porque cabe ao leitor dizer sim ou não para o livro, a fim de que o casamento seja oficializado e, posteriormente, consumado. Contudo, entre o encontro inicial e o casamento, muitos fatores são responsáveis pela manutenção do período o qual chamamos de namoro. O flerte, período que antecede o namoro, geralmente se baseia em informações não muito elaboradas. Entre elas, destacam-se: livros que tenham um título atraente, livros que tenham uma capa bem feita, livros de um autor conhecido (o que é uma maneira de o leitor permanecer em sua zona de conforto), e, muitas vezes, para aquele leitor mais preguiçoso, a quantidade de páginas que o livro tem.

Um pouco mais próxima do livro propriamente dito, está a indicação de amigos que já o leram e dizem que a leitura vale a pena. Do mesmo modo, resenhas encontradas em blogs especializados em literatura também podem passar uma maior segurança para o leitor. É claro que todo leitor tem seus resenhistas preferidos. E isso é algo construído no dia-a-dia, assim como a relação leitor-cronista se constrói processualmente. Porém, não é todo livro indicado que desperta o interesse do leitor. Por mais que a resenha seja bem feita, destaque os pontos bons e ruins das técnicas de escrita evidenciadas no livro, às vezes, o leitor não sente interesse pelo livro e acaba ignorando a existência dele. Tal decisão pode fazer com que o leitor deixe de ler aquele que poderia ser um dos livros da sua vida, mas, no fim das contas, se levarmos em consideração que a vida é curta e a quantidade de bons livros existentes é infinda, deixaremos de ler muitos livros da nossa vida.

Assim, voltamos ao questionamento inicial: como escolhemos um livro e preterimos outro? Já escolhi o próximo livro que leria de todos os modos indicados nos parágrafos anteriores. Já me concentrei na escolha com base no título, na capa, em resenhas, em autores já conhecidos, entre outros. Todas as escolhas me proporcionaram leituras muito boas, muito ruins ou medianas, o que fez com que eu concluísse que nenhum método é infalível. Se você é um ávido leitor, uma hora ou outra entrará em um relacionamento com um livro do qual sairá péssimo. O único jeito de nunca se decepcionar com os livros é não se relacionar com eles, o que, para uma pessoa que adora ler, está fora de cogitação. Quando um livro nos decepciona, começamos a dizer que nunca mais vamos escolher livros por causa do título bonito ou pela linda capa, que seremos mais atentos. Dias, semanas ou meses depois, lá estamos nós, mais uma vez, dando entrada com os papéis do divórcio e pensando “escolhi mal, mais uma vez”. LIVRO - mar e rochedo[1]

Embora o quadro geral pareça desanimador, uma das vantagens do relacionamento com livros é que nem sempre o término da relação é doloroso. Às vezes, o casamento termina, quando as páginas do livro acabam, mas a amizade continua, e o livro é sempre lembrado com carinho. Entretanto, há aquelas vezes em que o relacionamento termina de uma maneira tão trágica que damos um jeito de apagar a história que tivemos com o livro, e é como se o relacionamento não tivesse existido.

O que há, então, nos livros que permanecem com a gente mesmo muito tempo depois de suas páginas terem findado? Uns diriam que o diferencial está no estado de espírito do leitor, que não criou expectativas maiores do que a Via Láctea e, por isso, conseguiu aproveitar o que o livro tinha de bom. Outros dizem que o livro tinha o que o leitor, naquele momento, precisava ler. Há, ainda, aqueles que dizem que o livro foi ovacionado pelo leitor por se debruçar sobre a própria literatura, sem pender para um enredo pouco inspirado sobre pessoas desinteressantes e seus infortúnios. Eu prefiro acreditar que o que distingue os livros que ficam dos que vão tão rápido quanto o piscar de olhos é o fato de os primeiros conseguirem apresentar algo novo. Algo que, de alguma maneira, segundo o postulado por Kafka, faça com que eles “nos afetem como um desastre”.  Em outras palavras, eu diria que é a capacidade de o livro ser um livro-óleo.

Ser um livro-óleo é ser um livro que não se mistura aos livros-águas, isto é, aos muitos livros “iguais” que existem. Os livros que, de tanta falta de inovação, acabam sendo confundidos uns com os outros porque estão todos misturados na mesma água. Os livros-óleo não se misturam aos livros-água, mas se misturam entre si. Eles não são, necessariamente, os clássicos da literatura, são os livros que, dentro do que se propõem a fazer, se destacam e, por mais que queiramos aproximá-los dos livros-água, não conseguimos. Isso ocorre porque, às vezes, embora os livros-óleos tenham enredos semelhantes aos dos livros-água, o desenvolvimento dos enredos dos primeiros passa por caminhos não trilhados pelo dos segundos.

Um livro-óleo é aquele que te tira do chão não por cumprir as expectativas que você lançou sobre ele, mas por destroçá-las de uma maneira tão bem estilizada que você acaba sorrindo por ter acontecido o contrário do que você queria. Um livro-óleo não sai das suas mãos assim que outro livro as ocupa fisicamente. Ele permanece ali, te devorando, enquanto você não consegue decifrá-lo. Na maioria das vezes, você não conseguirá, mas aprenderá muito durante o processo, e isso te deixará feliz.

barco de papelUm livro-óleo não vem com um selo estampado na capa. Ele só se deixa desvendar no ato da leitura, o que impede  que sejamos injustos com os livros-óleo e acabemos por restringi-los aos cânones literários. Não, eles não estão apenas nas prateleiras das bibliotecas dos professores de literatura, eles estão na banca de revista, nas livrarias, nos sebos… e você pode deixar de vê-los por ignorar a existência de qualquer livro classificado como infantil, infanto-juvenil, chick-lit, entre outros.

Um livro-óleo não se exibe, por isso, nem sempre você vai saber, logo na leitura das primeiras páginas, que tem, em suas mãos, um livro-óleo, mas não desista de ler, ainda, porque o livro-óleo se mostra para a gente é na travessia. No meio daquela imensidão de água, de repente, a gente vê um pouquinho de óleo que, como todo óleo que se preze, se recusa a se misturar com a água. Aí a gente começa a nadar, e não para de movimentar os braços até se aproximar do livro-óleo. Quando o encontro acontece, a gente acaba descobrindo que o livro-óleo é a canoa que não nos deixará afundar enquanto navegamos pela terceira margem do rio.

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