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Ruby Sparks

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ImageInteressei-me, primeiramente, em assistir ao filme Ruby Sparks mais pela dupla de diretores do que pela sinopse. Quando vi que a direção do filme estaria a cargo de Valerie Faris e Jonathan Dayton, a mesma dupla que dirigiu Pequena Miss Sunshine, imaginei que o filme seria muito bom. Infelizmente, Ruby Sparks ficou bem abaixo das minhas expectativas, mas isso não significa que ele seja um filme ruim. Embora tenha caminhado por direções um tanto quanto questionáveis, no fim das contas, além de ter alguns momentos memoráveis, o filme funciona como uma boa comédia romântica.

A trama do filme gira em torno da história de Calvin (Paul Dano) e Ruby Sparks (Zoe Kazan, que também é a roteirista do longa). Calvin é um escritor famoso, mas sofre da síndrome do segundo romance. No aniversário de dez anos de publicação do seu primeiro romance, percebemos que ele não conseguia começar a escrever o próximo, pois todos os temas sobre os quais começava a refletir pareciam-lhe ruins. Foi então que, a partir de alguns sonhos, ele inventou uma “garota perfeita”, a quem nomeou como Ruby Sparks, e começou a escrever sobre ela. Com a volta da inspiração, Calvin estava vivendo uma “controlada euforia”, até que, um dia, a sua criação ficcional se materializou.

O primeiro ato do filme é brilhante. E, embora eu acredite que, talvez, fosse mais interessante se a Ruby não saísse dos sonhos e das palavras, achei corajosa a manobra de Zoe Kazan (roteirista e protagonista) em tirá-la do sonho em vinte e cinco minutos de filme. Fiquei, sim, querendo mais sonhos, mas a verdade é que a expectativa era a de que, uma hora, Calvin tivesse de viver um pouco na realidade. É fato que uma mulher que só existia nos sonhos e na imaginação se tornar real, se materializar, já é, em si, surreal demais. Entretanto, se superarmos esse ponto, o surreal passa a ser a nossa noção de realidade. Então, a coragem da roteirista, para mim, está em não deixar o aparecimento da personagem no “mundo real” para o fim do filme. O modo como a relação entre Ruby e  Calvin foi trabalhada no mundo real pode não ter sido a melhor escolha, entretanto, trazer a personagem para a realidade não deixa de ser uma atitude corajosa.

O filme está cheio de pistas que nos remetem à disparidade de personalidade existente entre Calvin e Ruby. Bem no início do filme, em um dos primeiros sonhos que Calvin teve com a Ruby, quando ela pergunta-lhe se pode desenhar o cachorro, ele responde “não se aproxime muito, ele tem medo de gente”. Podemos perceber, neste momento, que ao falar sobre o cachorro, Calvin fala sobre si, uma vez que, como é-nos apresentado, ao longo do filme, ele não tem amigos, não se aproxima das pessoas, e fica desconsertado quando tem de falar sobre o que escreve. Em uma conversa com o terapeuta, Calvin reitera a ideia de que o cachorro fica estranho perto de gente. Tal fato,  mais uma vez, evidencia a relação de espelhamento entre o cão e o escritor.

Diferentemente da incolor e monótona vida de Calvin, Ruby, já nos primeiros sonhos, aparece tendo o sol como pano de fundo. Talvez a metáfora seja óbvia, mas, mesmo assim, não perde a sua beleza. Ruby aparece na vida de Calvin para fazer com que  ela fique mais colorida. A casa de Calvin é muito “clean”. O branco predomina, e, quando Ruby entra em cena com suas roupas cheias de cor, mesmo depois que  já “saiu” dos sonhos, o clima de um ambiente proveniente do mundo dos sonhos permanece. Isso fica bem visível quando ela aparece, no topo de uma escada, com um vestido azul e uma meia calça roxa. Ela contrasta com aquele ambiente muito branco.

Conforme o dicionário de símbolos, o azul é o caminho do infinito, no qual o real se transforma no imaginário. Azul, também, é a cor do pássaro da felicidade. Talvez, as asas do pássaro demonstrem não apenas a liberdade, mas também o fato de que a felicidade seja algo um tanto quando fugidio. Nesse campo de significação, Ruby também pode, conforme um dos significados atribuídos ao azul, reforçar o ambiente do sobrenatural, já que o azul é a cor do sonho. Até os quadros pintados por Ruby contrastam com a casa, toda branca, tal qual a folha que aparece na máquina de escrever de Calvin, no início do filme. Casa branca, folha em branco, vida em branco. E Ruby vem preencher tudo isso, com suas cores.

Calvin é apresentado como um personagem chato, indisposto, impenetrável, o que pode apontar para um mecanismo de defesa adotado por quem tem dificuldade de se relacionar. Ele não permite que ninguém entre em sua vida porque não sabe como  lidar com os outros. Nos momentos em que Calvin está na terapia, é terrível contemplar a sua existência. Talvez isso se deva ao fato de que se alguém tem de ser destacado na história, esse alguém é a Ruby. Isso remonta o exercício que o escritor faz para sair do enfoque do seu texto e deixar suas personagens reinarem. O que tem de ser visualizado e amado, na obra, não é o escritor, mas o que ele criou. Entretanto, essa mesma ideia de criação, em determinados momentos do filme, faz com que Calvin abuse do complexo de Deus para com Ruby, “sua” criatura.

Os melhores momentos do filme se passam na casa do Calvin. A ideia de casa aponta para uma zona de conforto que, de certo modo, pode nos colocar diante do útero. Desse modo, o ponto alto do filme é o da gestação da história, o que até fica interessante se pensarmos que depois que um filho nasce, não se sabe os rumos que ele pode tomar. Enquanto ele está sendo gerado, podemos sonhar as coisas mais lindas para ele, mas, quando ele nasce,  as coisas caminham em outra direção.

Ainda sobre a ideia da zona de conforto, é interessante perceber que há muito de psicanálise em Ruby Sparks. Um dos sinais mais claros dessa presença pode ser visto quando os personagens do filme ficam na posição fetal por diversas vezes: Calvin, quando está na terapia; Ruby, quando se sente “miserável sem a presença do Calvin”; e Calvin, novamente, quase no fim do filme.

Talvez um dos maiores méritos do tom psicanalítico conferido ao filme seja o de evidenciar, por meio de imagens, o que Lacan já nos ensinou por meio das palavras: quando o indivíduo entra em contato com o seu objeto de desejo, não há a satisfação, há um colapso. É o que acontece com Calvin. Quando a Ruby estava só no nível da fantasia, ela era a namorada perfeita, mas quando ela se tornou real, ele não suportou perder o controle que acreditava ter sobre ela; não suportou a ideia de que há uma diferença abismal entre a mulher idealizada e a mulher real.

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