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Hoje vai ser diferente (Maria Semple)

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Na Biologia, a Fagocitose corresponde ao processo utilizado pela célula para digerir alimentos sólidos dos quais se alimentará. Um dos agentes do processo é o lisossomo, que contém as enzimas digestivas e, por isso, cuidará de quebrar os alimentos para que a célula possa aproveitar os materiais de que necessita. Na Literatura,  semelhantemente ao processo celular mencionado, o romance é um gênero textual que tende a, de certo modo, se alimentar de outros gêneros, retirando-lhes os excessos para que eles caibam no todo que se intenta apresentar. Nessa analogia, o autor desempenha o papel do lisossomo, ou seja, é aquele que seleciona, dos mais diversos gêneros textuais, elementos de que necessita para criar o romance.

Autor é o termo que, aqui, emprego na concepção de Foucault, para quem a noção de autor é discursiva, isto é, o autor é aquele que tem um conjunto de textos ligados ao seu nome e que tem responsabilidade sobre o que coloca em circulação. Fiz a opção pelo termo autor porque escritor seria todo o indivíduo que escreve. Já o autor tem uma função social melhor delineada, e acredito que Maria Semple se encaixe nesse perfil. E, aqui, amparo-me, mais uma vez, em Foucault, que utilizou o termo “fundadores de discursividade” para designar autores que, mais do que construírem suas obras, ditaram as regras de produção de outros textos. Acredito que a autora em questão, embora tenha publicado apenas dois romances – três, mas o primeiro ainda não foi publicado no Brasil -, tem potencial para isso.

No domínio discursivo da Literatura Ficcional, o tipo textual predominante é o da Narração, que intenciona a imitação da ação pela criação de enredo, personagens, situações, tempos e cenários de forma verossímil. Nas práticas sociais, esse tipo textual tende a se materializar no gênero romance. Entretanto, uma olhada rápida nos romances que ocupam as prateleiras das livrarias evidencia que, dentro de um romance, convivem muitos gêneros. Logo, apesar de as sequências tipológicas predominantes em um romance serem as narrativas, ao entrarmos em contato com textos materializados nesse gênero é possível que encontremos trechos de textos injuntivos, descritivos, entre outros.

Não há gêneros textuais puros, e o romance talvez seja o melhor expoente da forma híbrida com que os gêneros se apresentam. A partir disso, quero utilizar a noção de gêneros híbridos como chave de leitura para escrever o texto em que tentarei, de algum modo, expressar o modo com que me relacionei com Hoje vai ser diferente, novo romance da roteirista e autora Maria Semple.

Hoje vai ser diferente. Hoje estarei presente. Hoje vou olhar no fundo dos olhos de todas as pessoas com quem conversar e vou ouvir com atenção. Hoje vou brincar com Timby. Vou tomar a iniciativa de transar com Joe. Hoje vou sentir orgulho da minha aparência. Vou tomar banho, me vestir bem e só vou usar roupas de ioga para ir à aula de ioga, à qual não vou faltar. Hoje não vou falar palavrão. Não vou falar sobre dinheiro. Hoje vou buscar a simplicidade. Vou exibir uma expressão relaxada e um sorriso. Hoje vou irradiar calma. Bondade e autocontrole abundantes. Hoje vou prestigiar os comerciantes locais. Hoje vou dar o melhor de mim, vou ser a pessoa que sou capaz de ser. Hoje vai ser diferente. (p. 09).

A narrativa começa impactante.  O ponto de vista, inicialmente centrado na primeira pessoa, imprime ao começo de Hoje vai ser diferente um tom intimista, o que se intensifica ao sermos colocados diante de um relato que se assemelha a uma espécie de oração, mas ao mesmo tempo a frases retiradas de um livro de autoajuda e, ainda, semelhante a sentenças em tom de promessa que poderiam ter sido proferidas por uma pessoa que sofre de depressão e trava uma batalha diária para sair da cama. Com um pouco de esforço, também é possível entender o “hoje vai ser diferente”, proferido por Eleanor Flood, do mesmo modo que entendemos o “meu próximo filme vai ser melhor”, lema de Ed Wood, personagem do filme homônimo dirigido por Tim Burton: como um mantra. Assim,  o “hoje vai ser diferente” de Eleanor Flood carrega em si a constatação de que o ontem não foi bom, e que é necessário que ela faça do hoje um dia no qual não irá “andar por aí como um fantasma, mal-humorada e distraída, anuviada e apressada”. (p. 13).

Todas essas nuanças, que somos treinados para capturar ao entrarmos em contato com alguns dos gêneros textuais que perpassam a vida  cotidiana, nos apresentam uma personagem disposta a tomar o controle de sua vida, plano que, como em um episódio de uma série de comédia, é logo frustrado pela avalanche de situações com as quais ela não pretendia lidar, mas das quais não pode mais fugir, nem pelo meio usual de fuga, a poesia. Eleanor faz aulas de leitura poética, mas não para ser poeta, é para tentar organizar suas ideias e escrever um romance de memórias em quadrinhos, para o qual foi contratada há algum tempo.

Ela tem aulas particulares  com o melhor professor de poesia da Universidade de Washington. O poema estudado no dia em que Eleanor decide que será a melhor versão de si  é “A hora do gambá”, de Robert Lowell, considerado o precursor da poesia confessional. Durante a aula, Alonzo, o professor, diz a Eleanor que esse poema “captura o momento em que Robert Lowell reconhece que está começando a entrar em depressão e vai ser internado.” (p. 34). Ele completa o raciocínio dizendo que o poeta John Berryman considerou o poema “uma visão catatônica de terror paralisante” (p. 34). As imagens visuais criadas pelo poema são retomadas ao longo do dia e da narrativa – que mescla o ponto de vista entre primeira e terceira pessoas –  quando Eleanor passa por situações constrangedoras que acabam por evidenciar seu estado de confusão mental. Estado sobre o qual ela fala de modo irônico e com comentários polêmicos e ácidos que, por estabelecerem um diálogo estreito com o tom de humor que perpassa o romance, são suavizados.

Sobre meu constante estado de confusão mental – falta de foco é uma expressão cada vez mais adequada -, permita-me dividi-lo em três categorias: (1) coisas que eu deveria saber, mas nunca aprendi, (2) coisas que prefiro não saber e (3) coisas que sei, mas com as quais acabo ferrando.

Coisas que eu deveria saber, mas nunca aprendi? Diferenciar direita e esquerda. Desculpe, mas é melhor perguntar o caminho para outra pessoa.

Coisas que prefiro não saber? Muitas. O cérebro tem capacidade limitada, principalmente o meu. Então tomei uma decisão administrativa: adotar uma postura agressiva de não me interessar por determinados assuntos, tais como o conflito Israel-Palestina, Lena Dunham, o destino das pinturas roubadas da casa de Isabella Stewart Gardner, o que significa OGM, a preferência de Timby por meias três-quartos cinco minutos atrás na Gap, e identidade de gênero. Se isso limita minha existência humana, eu aceito meu detino com estoicismo.

Hoje em dia a conduta predominante na sociedade parece ser: Eu tenho uma opinião, logo existo. Minha conduta? Eu não tenho opinião, logo sou superior a você.

Coisas que sei, mas com as quais acabo ferrando? Horários. Se tenho um almoço ao meio-dia e meia, escrevo 12h30 na agenda. Mas, nesse meio-tempo, acontece alguma alquimia no meu cérebro e 12h30 se torna 13h.

Seria de se esperar que, chegando ao teatro meia hora depois de abrirem a cortina (doze vezes!), eu teria aprendido a checar e rechecar o horário no ingresso. Mas não. Eu gostaria de saber explicar, mas não consigo. Um dos enigmas da vida. (p. 63).

Eleanor Flood tem quase 50 anos, vive em Seattle, é casada com Joe Wallace – cirurgião -, com quem tem um filho, Timby, de quase 10 anos. Depois de vinte anos de casamento, as coisas se tornaram monótonas e, na maior parte do tempo, Eleanor e Joe vivem como colegas de quarto. Tiram o lixo, fazem as tarefas de casa, levam o filho à escola, fazem piadas, se reafirmam enquanto ateus e não falam sobre o passado. Esse é o cenário apresentado no início do romance que, em um roteiro que segue o arco aristotélico, chamamos de Ato I, no qual temos, em um primeiro momento, a exposição, que cumpre o papel de apresentar os protagonistas, dizer quem eles são, onde vivem, o que fazem, enfim, é o que nos dá o ponto de partida. Após a exposição, entramos na segunda parte do primeiro ato de um roteiro: a oposição.

É nesse ponto que Eleanor Flood realmente sente que seu plano de fazer com que o dia fosse diferente será frustrado. Ela estava em uma de suas aulas de poesia, que teve de ser encerrada às pressas após, pela quarta vez em duas semanas, seu filho, Timby, ter passado mal na escola. Ela buscou o filho, passou com ele na pediatra e foi ao consultório do marido, que não estava lá. A partir de algumas situações e falas da gerente e da recepcionista da clínica em que trabalha o cirurgião, ela percebeu que alguma coisa estava muito errada. No momento em que estamos prestes a conhecer o que, na “Jornada do Herói” de Joseph Campbell é chamado de obstáculo, recebemos uma explicação sobre como foi moldada a personalidade de Eleanor. Essa informação será essencial para compreendermos o porquê de a personagem lidar com as coisas de um modo diferente do esperado.

Uma coisa que acontece quando um de seus pais é  alcoólatra é que você cresce sendo o filho de um alcoólatra. Para quem não tem esse histórico, preste atenção agora e acredite em mim: esse é o principal fator que determina a personalidade de alguém. Não me importo se você só tira nota dez, se casa com um santo, rompe as barreiras de uma profissão dominada por homens, ou se você se reergue de fracasso após fracasso entremeado por breves passagens por seitas e hospícios: se você foi criado por um bêbado, antes de tudo você é o filho adulto de um alcoólatra. Para início de conversa, isso significa que você se culpa por tudo, evita a realidade, não confia nas pessoas, faz o impossível para agradar. Nem todas essas características são ruins: perfeccionismo é o que torna um aluno o melhor da turma; dificuldade para confiar nos outro gera autossuficiência; baixa autoestima pode ser uma excelente motivação; se todo mundo fosse entusiasta da realidade, não haveria arte.

O bônus de ter um pai bêbado foi que, para sobreviver, eu me tornei estranhamente atenta às mais sutis inflexões e linguagens corporais. Joe chama essa minha percepção aguçada de “poderes de bruxa”.

Para qualquer outra pessoa, “Você voltou!” significaria “Que bom te ver! Quanto tempo”. Mas, para a filha de um alcoólatra com poderes de bruxa, significava: “Joe disse que vocês três estavam viajando”.

E foi nesse momento que meu dia realmente começou. (p. 53-54).

É com o suposto desaparecimento do marido de Eleanor como fio condutor que se desenrolam os segundo e terceiro atos do romance, quase roteiro,  de Maria Semple. Nesse emaranhado de informações, entramos em contato com um complexo exercício metanarrativo: o fazer poético se entrelaça com o fazer quadrinhos, que é entrecortado por memórias fragmentadas, que exibem lembranças episódicas, compostas por sinopses de roteiros de uma Sitcom – série de comédia que se faz a partir da exploração cômica de elementos da vida cotidiana – que fazem parte de roteiros que compõem o que poderíamos chamar de temporada de uma Sitcom, isto é, o romance em seu formato final.

A apropriação do formato de roteiro pelo romance, com o recurso da backstory – o passado da personagem até o momento em que a história começa –  também nos revela, a partir de uma narrativa fracionada, os acontecimentos passados da vida de Eleanor, e o desfecho dos capítulos-episódios, como em uma série de TV, nem sempre é satisfatório, porque eles se encaixam no todo, que ainda está sendo construído; se encaixam no livro de memórias de Eleanor, que está parado há oito anos, como está parada a sua vida, que foi “suspensa” depois que aconteceu uma coisa muito ruim. Descobriremos o que aconteceu de tão ruim ao montarmos o quebra-cabeça formado pelo decorrer da narrativa e pelos desenhos de Eleanor.

Maria Semple: roteirista e autora

No Ato II do romance metamorfoseado em roteiro, para a introdução de novos personagens, há a inserção de uma singela, honesta e sombria graphic novel na tessitura narrativa. Eleanor tem problemas com datas e nomes, por isso, marcou, sem perceber, um almoço com um homem que foi seu estagiário quando ela trabalhava como diretora de animação de uma série de TV, a Looper Wash, série da qual ela foi responsável pela “estética violenta retrô supercolorida” (p. 45). Durante o almoço, a graphic novel veio à tona.

Para apresentar-nos a graphic novel, entra em cena o quadrinista Daniel Clowes, um dos nomes mais impactantes da cena indie/alternativa/underground dos quadrinhos. O gênio que nos brindou com Ghost World foi ficcionalizado por Maria Semple, e, no livro, o personagem que encarna é ele mesmo. Daniel Clowes indica Eleanor, em 2003, ao Prêmio Minerva, dedicado a quadrinistas, pelas ilustrações que ela fizera para “As Garotas Flood”, um apanhado de imagens com palavras que objetivavam capturar lembranças das memórias da infância de Eleanor e da irmã, Ivy. Esse foi o presente de casamento que Eleanor fizera para a irmã. Nas palavras de Daniel Clowes, o da Maria Semple, não o “real”:

Diferentemente de muitas histórias sobre infância, As Garotas Flood soa direta e necessária. Apesar de ser densa com detalhes da época, não é uma viagem nostálgica. O ponto de vista é sincero e nada sentimental. Eleanor Flood consegue difundir imagens agourentas e misteriosas com delicadeza, o que é um talento raro, e estou ansioso para ver mais do trabalho dela. (p. 79).

“As Garotas Flood” funciona, no romance, como uma espécie de framing device, isto é, uma moldura que apresenta elementos importantes da trama. Mais do que quadrinhos dentro de um romance, “As Garotas Flood”é parte essencial do engendramento estético de Hoje vai ser diferente. Antes do aparecimento da graphic novel na trama, a informação de que Eleanor tinha uma irmã não fora fornecida aos leitores. Mesmo depois de, por intermédio das ilustrações da história em quadrinhos em questão, tomarmos conhecimento desse fato, não temos, de imediato, a confirmação de sua vericidade.  Timby, após ler “As Garotas Flood”, comenta com a mãe: “você nunca me contou que tinha uma irmã” (p. 83), e obtém como resposta: “As Garotas Flood é uma obra que representa dois lados de mim – expliquei. – Foi uma experimentação artística. Só isso.” (p. 84). Alguns parágrafos depois, Eleanor, na função de narradora, não de mãe respondendo ao questionamento do filho, confirma: “Para ser clara: eu tenho uma irmã. O nome dela é Ivy” (p. 84).

É então que, com um toque de humor, desponta o processo de elaboração textual predominante no romance: a técnica da inundação, isto é, a autora lança no novelo textual um mar de informações, aparentemente aleatórias, e, então, temos de fazer a articulação entre o que está na superfície e o que está no fundo do mar de palavras. Entre os momentos de exposição de situações absurdas e divertidas, encontramos as pistas que constituem o grande conflito da trama.

Concentramo-nos, durante a maior parte do tempo, no desaparecimento do marido de Eleanor e nas situações que sugerem que ele a traía. Isso, no terceiro ato do romance, revela-se um McGuffin, artifício que, em um livro policial, chamamos de pista falsa. Todos os supostos indícios de que Joe traía a esposa são pistas falsas, criadas por uma faceta da personalidade de Eleanor que a faz cultivar um sentimento de culpa paralisante.  Os motivos que fizeram com que Eleanor se rendesse à inação formam a pedra fundamental dos conflitos que desenvolvem a trama do romance: o rompimento com a irmã. Assim, o que Eleanor chama de “O Truque”, para se referir ao seu modo de lidar com as situações, é, também, uma estratégia narrativa utilizada por Maria Semple para construir seu romance a partir de uma estruturação que se utiliza de elementos de um roteiro.

Sempre que estou em uma situação social com uma pessoa, especialmente quando há algo em jogo, minha ansiedade dispara. Falo depressa. Mudo de assunto de forma inesperada. Faço comentários chocantes. Mas, antes de ir longe demais, retrocedo e exponho minha vulnerabilidade. Se percebo que vou ser criticada, me antecipo e me critico.

(Um psicólogo chamou isso de O Truque. No meio da nossa primeira sessão, ele interrompeu meu blá blá blá e disse que eu tinha tanto medo de ser rejeitada que transformava qualquer interação numa ofensiva de vida ou morte. E que o fato de eu ser tão falastrona me tornava, na opinião dele, intratável. Ele me devolveu o cheque e me desejou sorte.) (p. 85).

Essa estratégia narrativa fica ainda mais interessante quando nos damos conta da irônica associação que se pode fazer entre o sobrenome da protagonista, Flood, e o traço de sua personalidade denominado “O Truque”. Flood é um termo que, em inglês, significa inundar, transbordar. Nas interações intermediadas pela internet, o termo ganhou o status  pejorativo, uma vez que cometer flood seria algo como postar informações sem sentido, sem propósito, com o objetivo de turvar a progressão de uma discussão. Além de serem estratégias utilizadas para desviar a atenção do foco principal, no livro de Maria Semple os momentos de flood  também podem ser entendidos como recursos que suavizam a tensão do que se narra. Por isso, sequências narrativas como a do professor de Poesia de Eleanor que trabalha vendendo peixe em uma Rede de Supermercados, são extremamente divertidas não apenas pela comicidade, mas também por brincarem com a ideia de que professor ganha tão pouco que não consegue viver apenas de lecionar, precisa de profissões adicionais.

Encadeadas entre os obstáculos que Eleanor enfrenta enquanto procura pelo marido, estão passagens narrativas que nos apresentam Ivy, sua irmã mais nova, e o marido, Bucky. Este exerce, no romance, a função de antagonista, já que foi um dos responsáveis pelas irmãs Flood terem se afastado. Esses fragmentos de memória fazem com que tomemos consciência, por meio de situações e personagens pitorescas, dignas de uma Sitcom, de como Ivy conheceu o marido e dos eventos que culminaram no seu afastamento de Eleanor.

(Os próximos parágrafos contêm spoilers, a saber: a revelação detalhada de um dos mistérios do livro. Se quiser manter o suspense, o que recomendo, vá direito para os dois últimos parágrafos).

Depois de Eleanor fazer uma peregrinação por Seattle em busca do  marido, no Ato III ela finalmente o encontra e o clímax do romance, mais do que divertido, é brilhantemente construído. Como passamos os dois primeiros atos procurando pistas de que Eleanor estava sendo traída, acabamos por deixar passar detalhes essenciais, que foram dispostos no texto pela estratégia da inundação/flood. Compramos a ideia de que Eleanor fala muita coisa desnecessária para ocultar o que realmente importa e deixamos passar a principal pista, a informação de que o Papa estaria em Seattle.

Essa informação é inserida no romance por meio de um dos recursos mais consistentes do roteiro: o foreshadowing, que é como se tivéssemos contato com a sombra de um objeto antes de olharmos diretamente para ele. Mostra-se, de maneira sintética, algo que será indispensável para o que acontecerá no clímax ou na resolução da trama. Porém, como isso é feito de modo sutil, muitas vezes a sombra aparece e desaparece em um piscar de olhos, o que impede que consigamos visualizá-la.  Isso acontece em Hoje vai ser diferente quando Eleanor, como quem faz comentários despretensiosos enquanto espera pelo ônibus, diz: “Eu me esqueci de comentar que o Papa ia passar pela cidade? Pois é. Para um tal de Dia Mundial da Juventude. (Não parece um evento inventado pelo Coringa para pegar o Robin?) Sua Santidade celebraria uma missa no estádio dos Seattle Mariners no sábado.” (p. 58).

Eleanor comprou o Seattle Times depois de não ter encontrado o marido no consultório. Ao constatar que ele não estava no local de trabalho, ela se lembrou de que, pela manhã – depois de levar Ioiô, a cadela, para passear e antes do café -,  encontrou seu cônjuge em uma posição inusitada: “Joe curvado sobre a mesa, a testa no jornal, os braços estendidos ao lado da cabeça, como se tivesse sido sentenciado à prisão”. (p. 18). Na hora, ela achou estranho, porque não era um comportamento típico do marido, mas não comentou: “Porta fechada. Fui soltar a coleira de Ioiô. Quando me ergui, meu marido abalado já havia se levantado e sumido no escritório. O que quer que fosse, ele não queria papo. Minha reação? Por mim, tudo bem”. (p. 19). Eleanor acabou se esquecendo disso e só retomou, na memória, a cena do marido curvado sobre a mesa quando não o encontrou no consultório e começou a pensar que estivesse sendo traída.

Ao comprar o jornal, ela procurava por alguma notícia que pudesse ser a responsável pelo comportamento estranho que o marido demonstrara naquela mamãe. Como Joe era ateu, e boa parte do jornal falava sobre o Papa, ela concluiu que não havia nada ali que pudesse tê-lo afetado. Entretanto, mais tarde, quando Eleanor encontrou o marido, ele estava no estádio, se preparando para, junto dos demais membros de sua congregação, cantar para o Papa.

Joe estava com a testa no jornal porque, ao ver a notícia do Papa, se deu conta de que teria de contar à esposa o que estava acontecendo com ele. É hilariante o momento em que Eleanor confronta o marido e ele fala: “Eu descobri a religião” (p. 236). Ela dá a única resposta possível para um ateia: “Como assim, religião? – perguntei. Religião do kettle bell? Religião do Radiohead?” (p. 236). Os acontecimentos que sucedem a revelação são ainda mais divertidos. Os diálogos, banhados por um clima nonsense e ritmados por uma trilha sonora feita a partir de um coral de pessoas cantando para o Papa, assumem um consistente tom humorístico e satírico.

Em Hoje vai ser diferente, ao contrário do que acontece em Cadê você, Bernadette?, depois do plot twist, isto é, da reviravolta, a narrativa não perde o ritmo. No seu livro mais recente, Maria Semple parece ter aperfeiçoado o que começou a fazer no anterior: a criação de um romance a partir do formato de um roteiro de Sitcom. De analogias, poemas, ironias e humor cítrico – com um cheiro irresistível, mas com um sabor, por vezes, amargo – se faz Hoje vai ser diferente e, no processo, a gente se desfaz: em sorrisos, lágrimas, desconforto, digressões e em aplausos.

Comecei este post falando sobre gêneros textuais híbridos. Ao longo do texto, tentei realçar alguns dos elementos característicos de Hoje vai ser diferente, romance escrito por  Maria Semple, que apresentam estruturação comum aos textos pertencentes ao gênero textual roteiro. A partir disso, cabe mencionar que, além de algumas regras de construção previamente determinadas, os gêneros textuais se definem, também, pela situação em que se realizam, o suporte ou canal em que são veiculados e pela instância discursiva a que estão vinculados. Roteiros são escritos para serem filmados, não expostos em livrarias, com capa e divulgação específicas. Por isso, escrever um romance a partir de uma escrita recheada de elementos que se encontram em roteiros, é um traço estilístico da autora, cujas escolhas de escrita realçam o caráter essencialmente híbrido e antropofágico do gênero romance.

 

 

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Cadê você, Bernadette? (Maria Semple)

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Embora tenha ouvido falar sobre Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple, em 2013 – época em que, por conhecer a Maria Semple como roteirista de Arrested Development e Mad About You, fiquei bastante interessada pelo livro – só voltei a pensar nele há alguns meses, por causa de Jane The Virgin. Jane, a protagonista da série, adora Cadê você, Bernadette?, sobre o qual comenta no primeiro episódio da terceira temporada. E, no décimo sexto episódio da terceira temporada, a série tem a participação especial de Maria Semple. No episódio, ela é a mediadora de um evento de que a Jane, que está para lançar o seu primeiro romance, participa. Assisti ao episódio há alguns dias e o incômodo de ainda não ter lido Cadê você, Bernadette? falou mais forte. Devorei o livro, em dois dias.

Não sei vocês, mas eu sou da época em que olhávamos para uma imagem cheia de detalhes, com curiosidades à vista, e ficávamos, por alguns minutos, às vezes, segundos, procurando por Wally. Cadê você, Bernadette? é como se tivéssemos 407 páginas, cada uma com um novo cenário, para procurarmos por Wally, ou melhor, por Bernadette.

Bernadette Fox tem cinquenta anos. É casada com Elgin Branch, um gênio da Microsoft, que concentra o trabalho na fase final do Samantha 2, o projeto da sua vida; tem uma filha de quinze anos, Bee, uma adolescente inteligente, e bastante esguia para a sua idade, isto se deve ao fato de ela ter nascido com uma condição cardíaca, passado por quatro cirurgias e, por isso, ter demorado um pouco mais para que seu corpo começasse a se desenvolver.  Bernadette não se dá muito bem com a maioria das pessoas, motivo pelo qual prefere a reclusão à socialização, o que lhe causou inúmeros problemas com as mães da escola em que sua filha estuda, pois elas, algumas em especial, faziam o possível para infernizar a vida da mãe de Bee. Por ter problemas para se relacionar com os outros, Bernadette contratou uma assistente virtual indiana para fazer a maioria das coisas por ela: comprar roupas, reservar lugares em restaurantes para a comemoração de datas importantes, entre outros.

Quando Bee entrega à mãe um boletim escolar irrepreensível, Bernadette se vê diante de uma situação estressante. Ela e o marido prometeram à filha que, se tirasse notas perfeitas do início ao fim do Ensino Fundamental, ela poderia pedir o que quisesse de presente. Bee pediu uma viagem com toda a família para a Antártida. Isso não seria estressante para uma pessoa que não sofresse de uma forte ansiedade social, o que não é o caso de Bernadette. Mesmo com receio, ela aceita a ideia da viagem, e pede à Manjula, sua assistente virtual, que comece a organizar tudo: passagens, roupas, e os demais detalhes. Porém, dois dias antes do Natal, ou seja, no dia da viagem, Bernadette desaparece.

Maria Semple em Jane The Virgin S03E16.

Cadê você Bernadette? é construído a partir de fragmentos. Nenhum fragmento está ali por acaso. A primeira parte dos fragmentos – e-mails, bilhetes, entre outros –  se ocupa de nos apresentar Bernadette.  Na primeira página do livro, somos informados de que ela desapareceu. Mas antes de sabermos mais detalhes sobre isso, contamos com Bernadette em cena. Conhecemos a personagem e suas limitações já de posse da informação de que ela desapareceu. Primeiro, Maria Semple faz com que nos importemos com Bernadette, nos afeiçoemos a ela. Depois, faz com que ela saia de cena, o que nos impulsiona a percorrer as páginas do livro na tentativa de encontrá-la. E, como guia na busca, temos Bee, a doce e inteligente filha de Bernadette, que, enquanto procura pela mãe, preenche algumas das lacunas deixadas pelos bilhetes, e-mails, cartas, fax e demais textos que constituem o romance.

Análogo à profissão de Bernadette, que é arquiteta, o romance parece ser feito com estruturas de encaixe. Quando Bernadette ainda vivia em Los Angeles – vinte anos antes de desaparecer –  e começava a criar, fazer sua mágica, as pessoas não compreendiam bem suas escolhas, seus movimentos, mas depois, quando ela encaixava as coisas, dava forma ao projeto, era possível  visualizar o todo. Assim acontece com o livro. No início, são fornecidas algumas pistas – fragmentos de informações, lançados de modo meio maluco – que não compreendemos bem, e elas são esclarecidas, retorcidas e modificadas ao longo do livro.

O estilo de escrita de Maria Semple, lapidado por uma vasta experiência como roteirista, nos brinda com algo bastante interessante: a narrativa em perspectiva. Somos apresentados às diversas versões das histórias vividas pelos personagens conforme há a alternância da voz narrativa. Até mesmo a versão de uma história, se contada duas vezes por uma mesma pessoa, sofre modificações drásticas na segunda vez em que é contada. E isso fica bastante evidente quando lemos os e-mails que Soo-Lin, assistente administrativa de Elgin Branch, trocava com Audrey Griffin – esta, apresentada como a mãe da Galer Street, escola em que Bee estudava, que mais implicava com Bernadette.

No caso de Soo-Lin, ainda somos presenteados com um momento de “expectativa x realidade” quando ela relata acontecimentos que envolvem Elgin Branch. Primeiro, ela nos conta o que gostaria que tivesse acontecido, mas assumimos que é o que aconteceu, e guardamos essa impressão durante muitas páginas. Depois, quando ela conta como as coisas realmente aconteceram, temos de reinterpretar diversas passagens do livro à luz das novas informações. É como se um material em estado sólido fosse aquecido até ficar líquido, se fundisse a outro e, depois de ser trabalhado, criasse uma nova estrutura.

A experiência de Maria Semple como roteirista de séries também acaba por ser extremamente útil para que possamos ligar as pontas aparentemente soltas do livro. Por exemplo, há um momento em que Bernadette descreve, em um e-mail, uma longa história de como Picolé, a cachorra, que pesa sessenta quilos e baba sem parar, de Bee, ficou presa em um dos armários antigos da casa em que ela, a filha e marido moravam. Em um primeiro momento, não damos muita atenção à história, mas depois, para lá da metade do livro, compreendemos a sua importância.

(O próximo parágrafo contém um grande spoiler, trata-se da revelação de um dos mistérios do livro. Se quiser manter o suspense, o que recomendo, não o leia, vá direito para o parágrafo seguinte).

Quando uma personagem esbarra em uma escada, que usa para ajudar Bernadette a sair pela janela do banheiro antes que  fosse internada em um manicômio, sabemos que aquela escada estava ali porque caiu no momento em que Bee subiu no telhado atrás da mãe, na ocasião em que resgataram a cachorra. Bee já estava dentro do armário e ouviu um barulho vindo de fora: “a escada havia caído e estava atirada sobre o gramado” (p. 51). A trama da cachorra presa no armário foi um artifício narrativo utilizado para colocar a escada no lugar em que ela deveria estar em um dos momentos de maior reviravolta da história.

A narrativa em perspectiva também é bastante interessante para compreendermos o que fez com que Bernadette ficasse cada vez mais reclusa. Na perspectiva narrativa da arquiteta, foi algo bastante doloroso, que ela chama de “Coisa Extremamente Horrorosa” (p.32). Conforme o marido de Bernadette, ela “teve um problema com uma casa que estava construindo e, abruptamente, retirou-se da cena arquitetônica de Los Angeles” (p.114). Ele menciona isso de modo tão corriqueiro, que parece fazer com que a leitura que Bernadette tem dos fatos seja exagerada.

Em uma outra vez que fala sobre o ocorrido, que foi um dos motivos pelos quais ela decidiu se mudar para Seattle, Bernadette conta uma história de infância. Ela ganhou um coelhinho. Algum tempo depois, viajou com os pais, e a empregada, que ficara responsável por cuidar do animal, roubou a prataria da casa e fugiu, deixando o coelhinho sem se alimentar. Quando voltaram de viagem, o animal era só unhas e pelos e, assim que Bernadette abriu a gaiola, “num espasmo de fúria, ele começou a arranhar meu rosto e pescoço. Eu ainda tenho as cicatrizes. Sem ninguém para cuidar dele, o coelho acabou regredindo à selvageria.” (p. 171). Ela conclui: “Foi o que aconteceu comigo em Seattle. Venha até mim, mesmo que seja trazendo amor, e eu vou te estraçalhar de arranhões”. (p.171).

O livro traz respostas convincentes e bem elaboradas para as questões que levanta. Tanto o paradeiro de Bernadette quanto o que fez com que ela abandonasse a profissão de arquiteta são explicados, em algum momento da narrativa. Entretanto, optei por, neste texto, falar o mínimo possível sobre os detalhes do enredo, para manter o suspense.

Em uma carta, Bernadette cita um físico que conheceu, vencedor do nobel, que não parava de falar sobre “universos paralelos”. Em linhas gerais, trata-se de “um conceito da física quântica que diz que tudo que pode acontecer está acontecendo em um infinito número de universos paralelos”. (p.400). A partir disso, estabeleci que, em um universo paralelo, a Coisa Extremamente Horrorosa não aconteceu, Bernadette continuou a trabalhar como arquiteta, e construiu casas excepcionais. Nesse cenário, Bernadette e Elgin não se mudaram para Seattle, e as outras coisas horríveis, que aconteceram antes do nascimento de Bee, não aconteceram. Assim, Bernadette não desapareceu, e Maria Semple escreveu outra história, não Cadê você, Bernadette?

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De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

Escreva Lola Escreva

De legenda em legenda, a construção de sentido se desvenda. Legendam-se os livros, legenda-se o mundo.

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